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Grupos alimentares e risco de câncer colorretal na Itália

Capa do estudo sobre grupos alimentares e risco de câncer colorretal na Itália

O câncer colorretal pode estar associado a diferentes padrões alimentares, mas este estudo italiano encontrou um ponto específico: maior consumo de pães, massas, batatas, doces e açúcar refinado apareceu ligado a maior risco, enquanto carnes não mostraram associação clara.

O estudo Food groups and risk of colorectal cancer in Italy, publicado em 1997 no International Journal of Cancer, avaliou grupos alimentares e risco de câncer de cólon e reto em uma população italiana. O artigo foi assinado por Silvia Franceschi e colaboradores e está indexado no PubMed com DOI próprio.

O que foi estudado

A pesquisa investigou se a frequência de consumo de diferentes grupos alimentares estava associada ao risco de câncer colorretal. O foco não foi em nutrientes isolados, como gordura, proteína ou fibra, mas em alimentos e grupos alimentares consumidos na prática.

Essa abordagem é relevante porque recomendações alimentares costumam ser mais fáceis de entender quando falam de alimentos concretos, como pão, massa, peixe, vegetais, frutas, carnes ou açúcar, em vez de apenas gramas de macronutrientes.

Como o estudo foi feito

O estudo foi do tipo caso-controle multicêntrico, realizado entre 1992 e 1996 em seis áreas da Itália. Foram incluídos 1.225 pacientes com câncer de cólon, 728 pacientes com câncer de reto ou junção retossigmoide e 4.154 controles hospitalares sem câncer.

A alimentação habitual foi avaliada por um questionário validado de frequência alimentar, com 79 itens, receitas e grupos de alimentos. Os pesquisadores ajustaram as análises por idade, sexo, centro de estudo, escolaridade, atividade física e ingestão energética total.

Esse detalhe é importante porque pessoas que comem mais de um alimento também podem consumir mais calorias no total. O ajuste por energia tentou separar, dentro do possível, o efeito da composição alimentar do simples excesso de ingestão.

Principais resultados

Após os ajustes estatísticos, alguns grupos alimentares apareceram associados a maior risco de câncer colorretal:

Pães e pratos à base de cereais, como massas e preparações similares, tiveram associação positiva. No maior quintil de consumo, o odds ratio foi de 1,7 em comparação com o menor quintil.

Batatas também apresentaram tendência de aumento de risco, com odds ratio de 1,2 no maior quintil.

Bolos e sobremesas tiveram associação mais discreta, com odds ratio de 1,1.

Açúcar refinado, incluindo mel e doces, mostrou associação mais clara, com odds ratio de 1,4 no maior quintil.

Em sentido oposto, alguns alimentos apareceram associados a menor risco:

Peixes tiveram odds ratio de 0,7 no maior quintil.

Vegetais crus e cozidos apresentaram odds ratio de 0,6 para ambos.

Frutas não cítricas tiveram odds ratio de 0,7.

Um achado particularmente relevante foi que ovos, aves, carne vermelha, carnes processadas, queijo e frutas cítricas não se associaram de forma significativa ao risco de câncer colorretal nesta análise. Os próprios autores afirmaram que o consumo de ovos e carnes, incluindo carnes brancas, vermelhas e processadas, pareceu não influenciar o risco no conjunto avaliado.

O que isso significa na prática

O estudo não permite afirmar que pão, massa, batata ou açúcar causem câncer colorretal de forma direta. Como se trata de um estudo observacional do tipo caso-controle, ele identifica associações, não prova causalidade.

Ainda assim, os resultados chamam atenção porque deslocam parte da discussão para a carga glicêmica da dieta. Os autores levantaram a hipótese de que alimentos ricos em amido rapidamente digerido e açúcar refinado poderiam aumentar a demanda por insulina. A hiperinsulinemia, por sua vez, já era discutida como possível fator envolvido na promoção da carcinogênese colorretal.

Essa interpretação é cautelosa, mas coerente com a própria discussão do artigo: os autores sugerem reconsiderar o papel dos alimentos ricos em amido e do açúcar refinado à luz da fisiologia digestiva dos carboidratos e da hipótese insulina/câncer de cólon.

O ponto sobre carnes

Um dos aspectos mais importantes deste estudo é que ele não encontrou suporte para a ideia de que carne, incluindo carne vermelha e carnes processadas, tenha aumentado o risco de câncer de cólon ou reto na população avaliada.

Isso não significa que todas as evidências sobre carne e câncer colorretal sejam iguais, nem que o estudo encerre a discussão. Significa apenas que, nesta grande análise italiana, os sinais mais consistentes de maior risco apareceram para alimentos ricos em amido e açúcar refinado, não para carnes.

Esse ponto deve ser interpretado com precisão. O estudo avaliou frequência alimentar recente em uma população italiana da década de 1990. Ele não avaliou dieta carnívora, dieta cetogênica, dieta baseada em alimentos ultraprocessados ou padrões alimentares modernos de forma direta.

Limitações do estudo

A principal limitação é o desenho caso-controle. Esse tipo de estudo depende da memória alimentar dos participantes e pode sofrer influência de viés de recordação.

Outra limitação é o uso de controles hospitalares. Embora os autores tenham excluído doenças relacionadas ao trato digestivo, câncer e condições que pudessem modificar a dieta por longo prazo, controles hospitalares nem sempre representam perfeitamente a população geral.

Também é necessário considerar que a alimentação foi avaliada por questionário de frequência alimentar. Esse método é útil em estudos populacionais, mas não mede a ingestão com precisão absoluta.

Além disso, o estudo foi realizado na Itália entre 1992 e 1996. A composição dos alimentos, o grau de processamento, os hábitos alimentares e o estilo de vida podem diferir bastante dos padrões atuais.

Em resumo

Neste estudo italiano, maior consumo de pães, massas, batatas, doces e açúcar refinado apareceu associado a maior risco de câncer colorretal. Já peixes, vegetais e algumas frutas apareceram associados a menor risco.

O achado mais relevante para a discussão alimentar é que carnes, incluindo carne vermelha e carnes processadas, não mostraram associação significativa com câncer colorretal nesta análise. A hipótese levantada pelos autores aponta mais para sobrecarga glicêmica, digestão rápida de carboidratos e possível hiperinsulinemia do que para carne como principal explicação dos resultados observados.

Conclusão

O estudo sugere que, ao discutir câncer colorretal e dieta, não basta repetir explicações simplificadas sobre carne. Nesta população italiana, os alimentos associados ao maior risco foram principalmente fontes de amido e açúcar refinado, enquanto carnes não apresentaram associação significativa.

A interpretação correta é prudente: trata-se de uma associação observacional, não de prova definitiva. Ainda assim, o artigo reforça a importância de analisar os dados concretos de cada estudo antes de transformar hipóteses nutricionais em conclusões gerais.

Fonte: https://doi.org/10.1002/(SICI)1097-0215(19970703)72:1%3C56::AID-IJC8%3E3.0.CO;2-3

*O estudo completo está disponível para assinantes da newsletter e apoiadores do site

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