Relato de caso: efeitos de uma dieta cetogênica em autismo associado a mutação no PTEN


Um relato de caso publicado na Frontiers in Nutrition descreveu a evolução clínica de um menino de 7 anos com transtorno do espectro do autismo (TEA) e macrocefalia, portador de uma mutação patogênica de novo no gene PTEN (p.Arg130Gln), após iniciar uma estratégia alimentar do tipo dieta cetogênica (DC), inicialmente na forma de dieta Atkins modificada (DAM).

A motivação dos autores foi direta: crianças com TEA associado a PTEN podem ter resposta limitada às abordagens usuais, e a DC já é utilizada em neurologia (especialmente epilepsia), além de haver interesse crescente em seu papel em alguns quadros do neurodesenvolvimento. No entanto, não havia, segundo os autores, um relato estruturado com foco em sintomas centrais de TEA especificamente para essa variante patogênica do PTEN.

Quem era o paciente e como estava antes

Segundo o artigo, sinais importantes apareceram por volta de 18 meses: atraso de linguagem, pouco contato visual e pouca reciprocidade social. Depois, surgiram comportamentos estereotipados e macrocefalia. Mesmo com um conjunto amplo de intervenções (terapias comportamentais/rehabilitação, estimulação magnética transcraniana repetitiva — EMT-r, e medicamentos como citicolina, idebenona, aripiprazol, entre outros), o quadro seguia com limitações relevantes: fala espontânea mínima, estereotipias persistentes, distúrbio de sono e constipação antes do início da dieta.

O que foi feito: dieta, metas e monitoramento

A intervenção alimentar descrita foi uma DAM com distribuição calórica aproximada de 60% gorduras, 30% proteínas e 10% carboidratos, com treinamento cuidadoso dos cuidadores e monitorização de glicose e corpos cetônicos no início (3 vezes ao dia nos primeiros dias) e depois redução gradual da frequência conforme estabilização metabólica.

Durante o período de intervenção, os autores relatam glicose média de 4,4 mmol/L e cetonas médias de 2,4 mmol/L, dentro das faixas-alvo usadas pela equipe. O protocolo evoluiu para 1 mês de dieta e, em seguida, 5 meses combinando dieta + EMT-r, mantendo a dieta ao longo da fase combinada.

O que mudou na prática (o que a família e as escalas registraram)

O estudo descreve uma sequência temporal de mudanças percebidas e documentadas:

  • Dia 6: melhora de estabilidade emocional, redução de estereotipias e início de melhora do sono (menos despertares noturnos).
  • Dia 11: menor tempo para voltar a dormir após acordar e melhor atenção para tarefas estruturadas.
  • Dia 15: ganhos em habilidades motoras finas (ex.: descascar pinhão de forma independente; realizar traçados repetidos) e sono consolidado sem despertares noturnos.
  • Dia 29: aquisição de novas habilidades motoras grossas (ex.: pular corda continuamente) e foco sustentado em tarefas (quebra-cabeças/blocos).

Além do relato dos cuidadores, o artigo afirma que escalas padronizadas aplicadas em três momentos (antes, após 1 mês de dieta, e após 5 meses de dieta + EMT-r) mostraram melhora em múltiplos domínios, incluindo sono e comportamentos relacionados ao TEA (a Figura 2 no PDF resume essas comparações ao longo do tempo).

Um detalhe clínico simples, mas relevante, foi a melhora do padrão intestinal, com mudança na escala de Bristol de 2/3 para 3/4, sugerindo fezes menos ressecadas no período descrito.

Mudanças em marcadores metabólicos, inflamatórios e EEG

Os autores também relataram alterações laboratoriais e de monitoramento neurológico:

  • Confirmação de cetose: β-hidroxibutirato aumentou de 0,07 para 2,27 mmol/L; ácidos graxos livres também aumentaram (indicando mudança importante no combustível metabólico).
  • Marcadores inflamatórios periféricos diminuíram após 1 mês: LDH 323 → 293 U/L, IL-2R 720 → 639 U/mL, TNF-α 10,6 → 8,72 pg/mL.
  • O EEG foi descrito como tendo “normalizado” (de padrão limítrofe para típico) após a fase inicial.

Após os 5 meses de dieta + EMT-r, o artigo relata manutenção de melhora clínica e novas medidas: LDH 250 U/L, IL-2R 503 U/mL, TNF-α 9,47 pg/mL, e EEG normal. Um ponto que os autores destacam é que, embora a melhora tenha continuado, o ritmo de ganho foi menor na fase combinada do que no primeiro mês apenas com dieta.

Segurança: o que aconteceu com efeitos adversos

O relato afirma que não ocorreram eventos adversos importantes no período observado: sem hipoglicemia, cetoacidose, vômitos ou diarreia atribuídos à intervenção. Hemograma, função hepática/renal, enzimas cardíacas, perfil lipídico e bioquímica foram descritos como mantidos em faixas normais durante a intervenção.

O que os autores sugerem como mecanismo

O artigo sugere, como hipótese, que a DC poderia modular vias biologicamente relevantes para TEA associado a PTEN, principalmente a PI3K/AKT/mTOR, frequentemente discutida no contexto de neurodesenvolvimento. A proposta é que a elevação de β-hidroxibutirato poderia atenuar hiperativação de mTOR e influenciar processos ligados a neuroinflamação e ao equilíbrio excitatório-inibitório.

É importante manter o texto fiel ao que o estudo admite: os autores reconhecem que não monitoraram biomarcadores moleculares diretos (por exemplo, atividade de mTOR), então essa parte é biologicamente plausível e sustentada por literatura citada, mas não demonstrada diretamente nesse paciente. Para contexto geral sobre TEA, ver a revisão do The Lancet sobre transtorno do espectro do autismo: doi:10.1016/S0140-6736(18)31129-2.

Limitações que impedem conclusões fortes

O próprio artigo enfatiza limites que não podem ser ignorados:

  1. É um único caso, portanto não permite generalização.
  2. A fase de dieta + EMT-r dificulta separar o quanto cada intervenção contribuiu.
  3. O desenho é aberto (sem cegamento), o que pode aumentar viés de observação.
  4. A DC é descrita como manejo de sintomas, não como cura, em transtornos do neurodesenvolvimento.

Conclusão baseada no que foi documentado

Dentro das fronteiras de um relato de caso, o estudo descreve que uma criança com TEA associado a mutação patogênica em PTEN apresentou melhora rápida percebida pela família (a partir do dia 6) e melhoras sustentadas em sono, comportamento e alguns marcadores laboratoriais durante um período de 1 mês de dieta seguido por 5 meses de dieta combinada com EMT-r, sem eventos adversos graves relatados. O trabalho não prova causalidade, mas fornece um registro clínico detalhado que os autores usam como base para defender a necessidade de ensaios clínicos randomizados e multicêntricos nesse subgrupo genético.

Fonte: https://doi.org/10.3389/fnut.2026.1721018

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