Em muitas refeições, o ferro não heme (o ferro presente principalmente em alimentos de origem vegetal e também em parte de alimentos mistos) forma um “pool” comum no intestino, do qual a absorção pode ser medida com técnicas de marcação isotópica. Identificar fatores que reduzem essa absorção é relevante porque, em populações com ingestão marginal de ferro, pequenas mudanças na composição da refeição podem influenciar o risco de baixa disponibilidade do mineral. No início dos anos 1980, o farelo de trigo já era reconhecido como um potencial inibidor, mas o mecanismo ainda era debatido (fitato, fosfato, fibra).
O que o estudo avaliou
O trabalho mediu, em voluntários adultos, como a adição de 12 g de farelo de trigo integral a uma refeição leve alterava a absorção de ferro não heme. O estudo também separou o farelo em componentes e testou hipóteses específicas para entender qual parte do farelo parecia mais associada ao efeito inibitório.
Como os pesquisadores testaram isso
- Participantes: 60 voluntários adultos (homens e mulheres), sem anemia por deficiência de ferro, distribuídos em cinco estudos.
- Método: técnica de duplo isótopo com marcação do ferro na refeição e medição posterior da incorporação do marcador no sangue.
- Refeições teste: em grande parte, eram “muffins + milkshake”, comparando versões com e sem farelo, e também cenários com carne bovina ou ácido ascórbico para elevar a disponibilidade de ferro.
- Investigação do mecanismo: o farelo foi testado também após remoção do fitato por fitase endógena (farelo “desfitinizado”) e foi separado em frações solúvel (rica em fosfato) e insolúvel (rica em fibra).
Principais resultados
1) O farelo reduziu a absorção de ferro de forma consistente
Quando 12 g de farelo foram adicionados:
- Em refeição simples (muffins + milkshake, sem reforços), a absorção média caiu de 2,39% para 0,62%, uma redução muito expressiva (razão ~0,26).
- Em refeição com carne (100 g), a absorção caiu de 3,46% para 1,69% (razão ~0,49).
- Em refeição com 100 mg de ácido ascórbico, a absorção caiu de 9,29% para 3,89% (razão ~0,42).
Em termos práticos, o estudo descreve uma queda na faixa de 51% a 74%, dependendo do tipo de refeição, mostrando que o efeito aparece tanto em cenários de maior quanto de menor disponibilidade de ferro.
2) O ferro ligado ao “monoférrico fitato” não explicou o efeito
Uma hipótese era que o farelo inibisse porque parte do ferro do próprio farelo estaria em uma forma pouco aproveitável. Para testar isso, os autores compararam a absorção de ferro fornecido como cloreto férrico (FeCl₃) versus como monoférrico fitato (MFP), em refeições de baixa e alta disponibilidade.
- Na refeição semissintética (baixa disponibilidade), a absorção média foi 0,59% (FeCl₃) versus 0,73% (MFP), sem diferença estatisticamente significativa.
- Na refeição “padrão” (maior disponibilidade), foi 4,73% (FeCl₃) versus 3,66% (MFP), também sem diferença estatisticamente significativa.
Ou seja: o problema não parecia ser “o ferro do farelo estar preso numa forma impossível de absorver”.
3) Remover o fitato do farelo não eliminou a inibição
O farelo “desfitinizado” teve 94% do fitato destruído, mas continuou inibindo a absorção de ferro em magnitude semelhante nos testes em que foi comparado ao farelo comum e ao controle. Isso enfraqueceu a explicação de que o fitato, isoladamente, fosse o principal responsável pelo efeito observado nas condições testadas.
4) A fração solúvel (rica em fosfato) foi mais inibitória do que a fração insolúvel (rica em fibra)
Ao separar o farelo desfitinizado em:
- fração insolúvel (alta em fibra), e
- fração solúvel (rica em fosfato),
os autores observaram que a absorção foi menor com a fração solúvel do que com a insolúvel, e essa diferença foi estatisticamente significativa quando comparadas entre si (insolúvel:solúvel ~1,32).
O próprio texto discute que isso sugere um papel relativamente maior do fosfato do que da fibra na inibição, nas condições específicas testadas, embora reconheça limitações para “isolar o culpado” com máxima clareza.
O que isso significa na prática
A leitura cuidadosa do estudo leva a uma conclusão objetiva: adicionar farelo de trigo a uma refeição pode reduzir de forma importante a absorção de ferro não heme daquela refeição, mesmo quando a dieta inclui componentes conhecidos por aumentar a absorção (carne e ácido ascórbico).
O estudo sustenta uma mensagem bem concreta: quando o objetivo é maximizar a disponibilidade de ferro não heme, o farelo, naquele contexto e quantidade, atuou como fator de redução.
Limitações reconhecidas pelos autores
O artigo ressalta pontos metodológicos relevantes:
- efeitos menores do que “um fator de dois” podem ser difíceis de estimar com alta precisão, mesmo com a técnica de duplo isótopo;
- o processo de liofilização pode ter alterado propriedades do farelo e reduzido parte do efeito inibitório em algumas comparações;
- usar ácido ascórbico para elevar a absorção “de base” pode ter parcialmente neutralizado a inibição, dificultando separar com nitidez o impacto de cada fração.
Ainda assim, o achado central (queda substancial na absorção com a adição de farelo) aparece repetidamente nas comparações principais.
