De acordo com um documento de 1996, Kabloona: Among the Inuit (publicado pela Graywolf Press) é um relato de convivência no Ártico em que a vida cotidiana aparece girando, de forma muito concreta, em torno de alimentos de origem animal — não como “escolha alimentar”, mas como base material de sobrevivência, trabalho, calor e sociabilidade.
O que é o livro e por que ele importa
O volume é assinado por Gontran de Poncins, “em colaboração com Lewis Galantiere”, e traz a indicação “Illustrated by the Author”, reforçando o caráter de observação direta e registro visual da experiência. A edição informa ISBN 1-55597-249-7 e “First Graywolf Printing, 1996”.
No prefácio, o narrador delimita o período: entre sair de Ottawa e chegar a Vancouver no retorno, passaram-se quinze meses. Ele também explica que não queria escrever um livro “longo” e, por isso, deixa fora blocos extensos da jornada de 20.000 milhas, incluindo uma travessia marítima de 57 dias até Vancouver e semanas de espera por transporte — um detalhe importante porque mostra como, naquele mundo, deslocamento e comida dependiam do que surgia “no caminho”, não de um plano controlado pelo viajante.
Logo no início, uma epígrafe atribuída a Rasmussen apresenta os Netsilikmiut (“Seal Eskimos”) como um grupo “cortado do mundo” por gelo e vastidões, enquadrando a narrativa como a descrição de um modo de vida em que o ambiente define as regras e reduz ao essencial o que “funciona”.
A vida baseada em alimentos de origem animal
O livro descreve um princípio que organiza tudo: quem caça ou pesca “merece comer”, e o momento adequado de comer é assim que a presa está na mão. Em outras palavras, a comida não é “refeição marcada”; é um evento imediato ligado ao trabalho de obter alimento.
Em uma cena de pesca, por exemplo, a narrativa registra que os peixes eram abertos no acampamento para que o óleo “precioso” escorresse para recipientes de pele, e depois o peixe era pendurado para secar — mostrando uso integral: carne, óleo e conservação para dias seguintes.
Há também passagens que descrevem o consumo de caribu de forma direta e crua, com destaque para “cortes escolhidos” rasgados com os dentes e engolidos, e para partes valorizadas como línguas colocadas para secar; o cenário inclui sangue, vísceras e restos no entorno do acampamento, com homens e cães alternando períodos de grande ingestão quando a caça ocorre — um retrato de uma vida em que “fartura” e “escassez” convivem lado a lado como possibilidade constante.
O animal não é só comida: é calor, luz e casa
Um ponto central do livro é que, naquele ambiente, o animal sustenta também a infraestrutura do lar. O narrador descreve sua fascinação pela lamparina de óleo de foca, explicando que ela é um recipiente de esteatita (soapstone) preenchido com gordura (blubber), que derrete com o calor da chama; o pavio, feito de um tipo de “algodão” da tundra, precisa de ajustes constantes.
Essa mesma lógica aparece no diagrama textual de um iglu: há um monte de focas congeladas guardadas para carne (basta cortar uma fatia quando houver fome), partes de peixe meio comidas, e a lamparina que aquece e ilumina enquanto roupas e peles secam acima dela. O alimento e a casa, ali, são peças do mesmo sistema — a energia animal circula entre corpo e abrigo.
Padre Henry: adaptação extrema e vida sustentada por peixe e óleo
Entre as figuras descritas, Padre Henry funciona como um exemplo radical de adaptação ao Ártico. O livro relata que ele vivia em uma espécie de depósito de carne de foca (“ice-house for seals”), um espaço mínimo, com equipamentos essenciais comprimidos ali dentro, e sem conforto “civilizado” no sentido comum.
O narrador registra que Padre Henry dizia não conseguir mais comer “comida do homem branco” — “nem mesmo arroz” — e que, para ele, peixe congelado era o que realmente “aquecia por dentro”. O texto afirma que ele havia vivido seis anos “em nada além de peixe congelado”, comendo um grande pedaço ao acordar, e que evitava comer à noite por considerar que isso o manteria acordado.
Além disso, sua rotina é descrita como dependente das lamparinas de óleo de foca, que exigem atenção constante: aparar o pavio, ajustar o comprimento, adicionar mais gordura para virar óleo. A narrativa chega a registrar que ele aparava o pavio durante a Missa, sem interromper o rito — um detalhe que torna visível o quanto, ali, até a espiritualidade acontece com as mãos ocupadas mantendo luz e calor vivos.
E o retrato humano se completa com uma cena de confissão: o corredor externo serve de “confessionário”, e a conversa ocorre “sob os olhos vítreos” de uma foca congelada, em escuridão e frio intensos — uma imagem que sintetiza o livro: fé, vida diária e animalidade convivendo no mesmo espaço físico, sem separação abstrata entre “religioso” e “material”.
Uma sociedade descrita “a partir da foca”
Há um trecho em que o narrador afirma que, graças à abundância de foca, aquelas pessoas exibiam uma comunidade “poderosa e digna”, com uma rotina marcada por episódios repetidos: aparar lamparinas, alimentar crianças, homens e cães, sair para a caça à foca, retornar com os animais, e então chá e carne em grandes pedaços — uma sequência que descreve a vida social como derivada, diretamente, do sucesso na obtenção de alimento animal e do que ele sustenta ao redor (casa, calor, ritmo do dia).
No conjunto, o livro apresenta uma ideia simples, mas com peso: naquele contexto, alimentos de origem animal não são um item do cardápio. Eles são a base do que permite existir: comer, aquecer, iluminar, viajar, alimentar cães, preservar a vida em grupo — e, para o observador, é justamente essa centralidade que faz com que o leitor entenda o Ártico não como cenário exótico, mas como um sistema coerente em que o animal sustenta praticamente tudo que importa.
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