A insuficiência ovariana prematura (IOP) — também chamada em alguns textos de “falência ovariana prematura” — é descrita como amenorreia associada a elevação de FSH antes dos 40 anos. O artigo destaca que a terminologia varia (por exemplo, “menopausa prematura” e “insuficiência ovariana primária”) e ressalta que o problema pode afetar qualidade de vida e se associar a infertilidade, osteoporose e alterações cardiovasculares, o que justifica o interesse em identificar possíveis correlatos em diferentes populações.
Como a pesquisa foi feita
Os autores conduziram um estudo caso-controle (2007–2008) em serviços vinculados ao Hospital Universitário Alzahra e uma clínica de infertilidade em Tabriz, Irã. Foram comparadas 80 pacientes com IOP e 80 controles da mesma instituição, com pareamento por idade por técnica de “frequency matching”.
O consumo alimentar foi avaliado por diário alimentar, estimando a frequência média de ingestão de grupos de alimentos (por exemplo, carne vermelha, peixe, laticínios, vegetais e fast food). A análise incluiu testes bivariados e regressão multivariada.
Principais achados
Idade e histórico menstrual
O estudo relata que, no grupo com IOP, a idade média de início dos sintomas foi 19,3 ± 5,7 anos e a idade média de menopausa foi 22,6 ± 6,3 anos; em parte das pacientes, as menstruações persistiam com uso de medicamentos. Também foi observado que a idade menopausal materna foi menor no grupo IOP (45,0 ± 3,8) do que nos controles (46,6 ± 3,3), com significância estatística no estudo.
Um ponto marcante foi a história de irregularidade menstrual ao longo da vida, reportada por 76,3% das participantes com IOP, enquanto nenhuma do grupo controle relatou esse histórico (diferença estatisticamente significativa no estudo). Os autores, porém, chamam atenção para a dificuldade de definir se irregularidade menstrual é “fator de risco”, “predisposição” ou “sintoma inicial”, justamente pela limitação de temporalidade típica desse tipo de desenho.
Agrupamento familiar
Foi observada coincidência familiar (agrupamento em família) em 16 pacientes com IOP e em nenhuma no grupo controle (associação estatisticamente significativa no estudo). O artigo discute que isso pode envolver tanto viés de recordação (lembrança mais ativa de história familiar por quem tem o desfecho) quanto uma ligação genética plausível, citando literatura sobre componentes hereditários em IOP.
Cirurgias, comorbidades e exposições avaliadas
No grupo IOP, 7 pacientes relataram cirurgia ovariana (cistectomias em 5 e cauterização em 2). Não houve história de quimioterapia ou radioterapia em nenhum grupo. Algumas comorbidades autoimunes investigadas (diabetes, doença tireoidiana, lúpus e artrite reumatoide) não apareceram em nenhuma participante dos grupos, segundo o artigo. Variáveis ambientais avaliadas (morar perto de postes de alta tensão, centros industriais e uso de celular) não se associaram à IOP na amostra estudada.
O achado central do estudo: frequência de consumo de carne vermelha e peixe
O resultado mais enfatizado pelos autores foi a diferença na frequência semanal de consumo de carne vermelha e peixe:
- Carne vermelha (média/semana): 2,8 no grupo IOP vs 4,6 nos controles
- Peixe (média/semana): 0,23 no grupo IOP vs 1,37 nos controles
Ambas as diferenças foram estatisticamente significativas no estudo, e, na regressão multivariada, a frequência semanal de consumo de carne vermelha e peixe apareceu como preditor independente de IOP dentro do modelo utilizado pelos autores. Já o consumo de laticínios foi semelhante entre os grupos (5,3 ± 3,2 vs 5,6 ± 2,1 vezes/semana), sem diferença estatística; o mesmo ocorreu para vegetais e fast food na forma como foram medidos.
Como os autores interpretam
O artigo comenta que, se a associação com menor consumo de carne vermelha e peixe refletir um possível efeito causal, mecanismos poderiam envolver equilíbrio de aminoácidos, minerais como zinco presentes em carnes, e ácidos graxos ômega provenientes do peixe. Importante: o próprio texto apresenta isso como possíveis mecanismos, não como conclusão comprovada.
Limitações que o próprio estudo reconhece
O trabalho ressalta limitações típicas de estudos caso-controle, incluindo:
- Dificuldade de estabelecer temporalidade (o que veio antes: o padrão alimentar/irregularidade menstrual ou a manifestação do quadro).
- Possibilidade de confundimento por nível socioeconômico, que pode influenciar acesso a alimentos como carne e peixe e é difícil de medir/controlar em alguns contextos.
Conclusão
Neste estudo iraniano caso-controle, os autores encontraram associação entre IOP e menor frequência de consumo de carne vermelha e peixe, além de observarem agrupamento familiar e uma forte associação com histórico de irregularidade menstrual ao longo da vida. O próprio artigo recomenda cautela na interpretação causal e sinaliza potenciais confundidores, especialmente fatores socioeconômicos, sugerindo que pesquisas futuras considerem melhor esse controle.
Fonte: http://dx.doi.org/10.2147/IJGM.S25604
