Impacto de uma dieta baixa em carboidratos em parâmetros cardiometabólicos em pessoas com e sem diabetes: um estudo longitudinal de 8 anos na coorte ELSA-Brasil


Uma dieta “baixa em carboidratos” é um termo amplo. Na prática, diferentes estudos usam limites diferentes, e isso muda bastante a interpretação dos resultados. No trabalho de Azevedo e colaboradores, a definição foi moderada: “baixa em carboidratos” significou consumir menos de 45% das calorias do dia vindas de carboidratos. A pergunta central foi direta: quando as pessoas adotam espontaneamente esse padrão ao longo do tempo, isso se relaciona com mudanças em marcadores cardiometabólicos?

O que os pesquisadores analisaram

O estudo acompanhou 9658 participantes do ELSA-Brasil (adultos de meia-idade e idosos), comparando dados do baseline (2008–2010) com o seguimento (2017–2019), totalizando 8 anos de observação. A ingestão alimentar foi avaliada por questionário de frequência alimentar validado; e os desfechos foram medidos com protocolos padronizados (exames, aferições e laboratório central).

Para entender o efeito do padrão alimentar ao longo do tempo, os participantes foram separados em quatro grupos:

  • Não-LCD: carboidratos ≥45% nas duas avaliações.
  • LCD apenas no baseline
  • LCD apenas no seguimento
  • LCD nos dois momentos (aderência consistente)

Além disso, os resultados foram analisados separando pessoas com diabetes e sem diabetes, porque o metabolismo e o uso de medicamentos podem mudar muito a leitura dos marcadores.

Quais marcadores cardiometabólicos foram observados

O estudo focou em:

  • IMC (Índice de Massa Corporal)
  • Pressão arterial
  • Glicose de jejum
  • Insulina de jejum
  • HOMA-IR (um índice usado para estimar resistência à insulina a partir de glicose e insulina em jejum)
  • HOMA-B (um índice usado para estimar a “demanda” de produção de insulina pelas células beta do pâncreas, também a partir de medidas em jejum)

Esses dois índices (HOMA-IR e HOMA-B) não são exames “perfeitos”, mas são ferramentas comuns em pesquisas de grande escala para acompanhar tendências metabólicas ao longo do tempo.

Principais achados em pessoas sem diabetes

Depois dos ajustes estatísticos (para reduzir influência de fatores como idade, medidas corporais, energia da dieta, uso de medicações anti-hipertensivas e outros), apareceu um padrão consistente:

  • Quem começou LCD apenas no seguimento teve:

    • queda de insulina (mediana ajustada: −0,33 µU/ml)
    • queda de HOMA-IR (−0,11)
    • queda de HOMA-B (−4,95)
  • pequeno aumento de IMC (+0,16 kg/m²)
    • Quem manteve LCD nos dois momentos teve:
    • queda de HOMA-IR (−0,05)
    • queda de HOMA-B (−3,21)
    • aumento um pouco maior de IMC (+0,29 kg/m²)

Em termos simples: os marcadores ligados à insulina melhoraram (menor insulina e menor HOMA-IR), e o HOMA-B caiu, sugerindo menor necessidade de o pâncreas “forçar” produção de insulina. Ao mesmo tempo, houve um aumento discreto do IMC.

Principais achados em pessoas com diabetes

No grupo com diabetes, o estudo encontrou um resultado clinicamente relevante: na aderência consistente à LCD (nos dois momentos) houve:

  • queda de HOMA-IR (−1,25)
  • queda de insulina (−3,61 µU/ml)

Já mudanças em HOMA-B não apareceram como estatisticamente significativas nesse grupo, o que é compatível com a ideia de que, em muitas pessoas com diabetes, a disfunção de células beta pode estar mais avançada e não responder da mesma forma. O estudo chama atenção para esse contraste entre “melhorar resistência à insulina” e “recuperar função beta”, que nem sempre caminham juntos.

Como interpretar “melhora metabólica” com aumento de IMC

Esse é o ponto que mais confunde quem lê por cima: como insulina e HOMA-IR melhoram enquanto o IMC sobe?

O estudo não afirma que a LCD “faz ganhar peso” como regra. Ele apresenta duas explicações observacionais possíveis dentro do desenho do trabalho:

  1. Muitas pessoas podem adotar LCD como resposta ao ganho de peso (ou seja, o aumento do IMC pode vir antes, e a LCD ser uma tentativa de controle).
  2. Em um cenário real, sem protocolo, uma LCD pode vir acompanhada de maior ingestão energética ou de escolhas alimentares que não favoreçam perda de peso em todos os perfis.

Além disso, os participantes eram majoritariamente de meia-idade e idosos — faixa em que ocorrem mudanças corporais associadas ao envelhecimento que podem favorecer acúmulo de gordura e redistribuição corporal, independentemente do rótulo da dieta.

O que este estudo consegue (e não consegue) responder

Como se trata de coorte observacional, ele mostra associações ao longo do tempo, e não “prova” causa e efeito como um ensaio clínico com dieta prescrita e monitorada. O artigo destaca limitações importantes:

  • A dieta foi medida por questionário (autorreferido), o que pode gerar erros de lembrança e relato — apesar de ser instrumento validado e com estratégias para reduzir viés.
  • A amostra é composta por servidores públicos, o que pode limitar a generalização para outros contextos culturais e socioeconômicos.
  • O estudo não detalhou tipos de gorduras e proteínas consumidas, o que impede separar efeitos de “baixo carboidrato” de efeitos da qualidade e composição dos alimentos.

Mensagem prática, baseada no que foi observado

O estudo sustenta uma mensagem bem específica: uma redução moderada de carboidratos (abaixo de 45% das calorias), adotada espontaneamente, se associou a melhora de marcadores ligados à insulina tanto em pessoas com diabetes quanto sem diabetes ao longo de 8 anos. Ao mesmo tempo, o IMC aumentou discretamente em pessoas sem diabetes, reforçando que “melhorar insulina” não é automaticamente sinônimo de “emagrecer” quando a dieta não é estruturada, individualizada e acompanhada.

A conclusão dos autores é cautelosa: a LCD moderada pode ser uma estratégia viável para manejo de risco metabólico, mas o melhor cenário tende a ser aquele em que a abordagem é personalizada (em especial porque mudar proporções de macronutrientes sem um plano bem ajustado pode levar a resultados indesejados).

Fonte: https://doi.org/10.1002/ncp.70099

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