Jejum como Medicina: Rejuvenescimento Mitocondrial e Endotelial no Envelhecimento Vascular


O artigo de revisão publicado na Aging Cell descreve o envelhecimento vascular como um processo que vai além de “artérias mais velhas”. Ele envolve uma perda progressiva de função endotelial, piora do ajuste fino do fluxo sanguíneo no cérebro (acoplamento neurovascular – ANV) e enfraquecimento da barreira hematoencefálica (BHE), três pilares essenciais para manter perfusão cerebral e resiliência cognitiva. No centro dessa cascata, os autores colocam um alvo recorrente: a disfunção mitocondrial nas células endoteliais. Isso inclui queda de eficiência respiratória, aumento de espécies reativas de oxigênio (ERO), falhas na mitofagia, fragmentação mitocondrial e aceleração de senescência endotelial.

A figura do artigo que resume esse encadeamento é direta: “envelhecimento → disfunção mitocondrial → disfunção endotelial → disfunção cerebrovascular → declínio cognitivo”. Nessa lógica, o cérebro paga um preço alto, porque depende de microvasos íntegros para entregar oxigênio e nutrientes no momento certo.


Por que as mitocôndrias do endotélio importam tanto

Segundo a revisão, com o avanço da idade há maior produção de ERO mitocondriais que “consomem” o óxido nítrico (NO) e favorecem a formação de peroxinitrito, reduzindo a biodisponibilidade de NO e prejudicando a vasodilatação dependente do endotélio. O texto também descreve o fenômeno de “desacoplamento” da eNOS, em que a enzima deixa de produzir NO com eficiência e passa a contribuir para estresse oxidativo.

No cérebro, a consequência prática é a perda da capacidade de ajustar o fluxo sanguíneo conforme a demanda neuronal (falha do ANV). O artigo cita evidências experimentais de que reduzir estresse oxidativo mitocondrial pode restaurar vasodilatação e respostas de ANV em modelos animais, com melhora paralela de desempenho cognitivo em testes.

Barreira hematoencefálica: quando o “filtro” do cérebro começa a vazar

A revisão descreve que a BHE é uma interface ativa e metabolicamente exigente. Com a idade, alterações em proteínas de junção (como claudina-5 e ZO-1) e em transportadores (como GLUT1 e MCT1) se associam a maior permeabilidade, entrada de proteínas plasmáticas e mediadores inflamatórios no parênquima, ativando micróglia e astroglia e favorecendo dano de substância branca.

O texto também destaca evidências de mecanismos ligados a NAD+ e sirtuínas na estabilidade da BHE, reforçando a ideia de que preservar metabolismo mitocondrial endotelial não é detalhe: é um ponto causal relevante no envelhecimento cerebrovascular.

Onde entra o “jejum” na prática: alimentação com janela de tempo

A intervenção discutida com maior ênfase é a alimentação com restrição de tempo: time-restricted feeding/eating (TRF/TRE). Em vez de reduzir calorias, a estratégia concentra a ingestão diária em uma janela (comumente 8–10 horas) e mantém o restante do dia em jejum. O artigo argumenta que, mesmo sem restrição calórica obrigatória, essa organização do tempo pode reativar programas celulares associados à reparação e à adaptação metabólica.

A Figura 2 sintetiza os efeitos esperados no cérebro e nos vasos: melhora de função endotelial, melhora de saúde mitocondrial e de respostas autofágicas; melhora de fluxo sanguíneo cerebral e de ANV; e preservação da BHE com redução de neuroinflamação.


Os mecanismos que o artigo coloca como centrais

A revisão organiza os possíveis mecanismos em três eixos, sempre conectando-os ao endotélio:

  1. Sinalização de sensores de nutrientes (AMPK, SIRT1 e mTOR). A janela de jejum ativaria AMPK e SIRT1 e reduziria sinalização de mTORC1, o que favorece biogênese mitocondrial, mitofagia e redução de estresse oxidativo, além de apoiar NO e reduzir assinaturas inflamatórias. 
  2. “Troca metabólica” para oxidação de gorduras e uso de corpos cetônicos. Durante o jejum, após queda de glicogênio hepático, aumenta a mobilização de ácidos graxos e a produção de corpos cetônicos, com destaque para o beta-hidroxibutirato (BHB). O artigo descreve o BHB não apenas como combustível, mas como molécula sinalizadora, capaz de modular inflamação, senescência e expressão gênica, inclusive relacionada a componentes de junções endoteliais.
  3. Alinhamento circadiano. A revisão enfatiza que o endotélio e suas vias metabólicas têm ritmos circadianos; com a idade esses ritmos perdem amplitude e precisão. A TRF/TRE funcionaria como um “marcador de tempo” que reforça coerência metabólica ao longo do dia, o que se associa a perfis melhores de pressão arterial, sensibilidade à insulina e marcadores inflamatórios em estudos humanos citados.

O que já existe em humanos, e o que ainda falta

O artigo descreve boa tolerabilidade e adesão em estudos de TRF/TRE e relata melhora de desfechos cardiometabólicos e inflamatórios em diferentes populações, inclusive sem necessidade de perda de peso em alguns cenários.

Ao mesmo tempo, a revisão é explícita em um ponto crucial: ainda não há grandes ensaios clínicos randomizados e prospectivos que demonstrem, de forma definitiva, redução de incidência de comprometimento cognitivo leve ou demência em idosos cognitivamente saudáveis. O que existe são dados mecanísticos, estudos pré-clínicos e ensaios/pilotos humanos com foco maior em marcadores metabólicos e vasculares, com alguns sinais iniciais em parâmetros de ANV e perfusão cerebral.

Conclusão

A mensagem do artigo é que o envelhecimento vascular, especialmente no cérebro, pode ser entendido como uma falha progressiva do eixo mitocôndria–endotélio, com impacto direto em vasodilatação, ANV e BHE. Dentro desse modelo, a TRF/TRE aparece como uma intervenção de estilo de vida com plausibilidade biológica: ela reorganiza o tempo de alimentação para favorecer sensores de energia, promover troca metabólica e reforçar ritmos circadianos — processos que, em conjunto, poderiam sustentar integridade vascular e, por consequência, proteger a função cerebral com o avanço da idade. O texto também deixa claro que a base mecanística está bem articulada, mas a confirmação definitiva em desfechos cognitivos de longo prazo ainda depende de estudos clínicos robustos.

Fonte: https://doi.org/10.1111/acel.70372

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