A matéria do The New York Times constrói uma narrativa com duas camadas: primeiro, critica a afirmação política de que a dieta cetogênica “curaria” a esquizofrenia; depois, conduz o leitor a uma impressão mais ampla — e mais grave — de que a ideia de tratar transtornos mentais com uma intervenção metabólica via alimentação seria essencialmente “sem fundamento”.
O problema não está em dizer que “cura” é um termo forte demais. Isso, de fato, é correto no estágio atual das evidências. O problema está em sugerir, direta ou indiretamente, que não existe evidência clínica relevante e que, portanto, quem afirma ser possível tratar quadros psiquiátricos com dieta cetogênica estaria sempre fazendo “pseudo-ciência”. Esse salto é injustificado quando se lê o que já existe publicado — inclusive em revistas científicas revisadas por pares.
Para evitar confusão, vamos diferenciar três conceitos que a matéria mistura na prática:
- Cura: desaparecimento definitivo e generalizável da doença, com comprovação robusta em estudos grandes, controlados, replicados e com seguimento longo.
- Remissão: sintomas deixam de estar presentes (ou ficam abaixo de um limiar clínico), com melhora funcional, por um período significativo. Remissão pode ser sustentada, mas não significa “nunca mais”.
- Melhora clínica: redução de sintomas e/ou melhora funcional sem necessariamente atingir remissão.
O ponto central deste artigo é simples: não há base para dizer “cura” como regra, mas há base para dizer que existem sinais clínicos de melhora e até remissão em alguns pacientes, o que já derruba a ideia de que “não é possível tratar” doença mental com dieta cetogênica.
O que a matéria diz e o que a evidência realmente permite concluir
Citação (NYT, abertura): “...a dieta cetogênica poderia curar esquizofrenia — uma alegação sem fundamento... [e] exagera vastamente pesquisas preliminares...”
1) “Cura” é, sim, um termo inadequado. A evidência enviada inclui estudos-piloto, séries de casos e análises retrospectivas. Esse conjunto é útil para gerar hipótese e sinal clínico, mas não tem força para declarar cura como regra populacional.
2) “Sem fundamento” é uma conclusão que não se sustenta diante do que já foi publicado. O que existe hoje não prova cura; mas mostra melhoras mensuráveis em escalas psiquiátricas e, em alguns relatos, remissão — inclusive de sintomas psicóticos — em contextos clínicos reais.
Exemplos:
- Esquizofrenia e transtorno bipolar (estudo-piloto, 4 meses, braço único): o estudo relata melhora de desfechos metabólicos e melhora de medidas psiquiátricas; entre participantes com esquizofrenia, houve redução média na escala de avaliação psiquiátrica breve (BPRS), além de melhora global de gravidade clínica (CGI) e indicadores como sono e satisfação com a vida. Isso é “evidência preliminar”, mas é evidência — não “nada”. DOI: https://doi.org/10.1016/j.psychres.2024.115866
- Transtorno esquizoafetivo (série de casos): descreve dois pacientes com cessação completa de sintomas psicóticos e remissão de sintomas de humor em tempos de semanas a meses, com acompanhamento (24 semanas em um caso) e processo de redução de medicação sob cuidado médico. Isso não prova cura; mas é relato científico de remissão clínica em casos acompanhados — o oposto de “sem fundamento”. DOI: https://doi.org/10.3389/fnut.2025.1506304
Ponto-chave: a matéria está correta em rejeitar “cura” como afirmação geral; mas erra ao empurrar o leitor para a ideia de que “não há base” para tratamento metabólico. A evidência enviada mostra base para investigação séria e para uso adjunto e supervisionado em contextos específicos, com linguagem cuidadosa (melhora/remissão, não “cura universal”).
Citação (NYT): “...é simplesmente enganoso sugerir que sabemos que dietas cetogênicas podem melhorar sintomas de esquizofrenia, muito menos ‘curar’...”
A frase pode soar científica, mas mistura duas coisas:
- É enganoso dizer “cura”. Concordância.
- É enganoso dizer que “não sabemos” se pode haver melhora. Discordância, porque há sinais clínicos publicados.
O estudo-piloto de Stanford (braço único) não prova causalidade com o rigor de um ensaio controlado, mas mostra associação consistente com melhora em desfechos psiquiátricos e metabólicos em uma amostra acompanhada. Isso entra, tecnicamente, na categoria de “evidência preliminar”, não de “ausência de evidência”.
Além disso, a existência de um protocolo de ensaio clínico randomizado publicado em revista revisada por pares mostra que a comunidade científica está justamente tentando responder, com método mais forte, à pergunta que a matéria trata como se estivesse encerrada. O protocolo descreve comparação entre dieta cetogênica supervisionada e uma dieta baseada em guia alimentar, com medidas psiquiátricas e metabólicas bem definidas. DOI: https://doi.org/10.3389/fnut.2024.1444483
O que isso permite afirmar, em linguagem simples: A ciência ainda não chegou ao nível de dizer “cura”. Mas já chegou ao nível de dizer: “há sinais clínicos de melhora e, em alguns casos, remissão; e faz sentido testar isso de modo controlado”.
Citação (NYT): “...a maioria dos pacientes nesses estudos continuou precisando de medicação antipsicótica...”
Esse ponto é frequentemente usado como “prova” de que a dieta não funciona. Só que, na prática clínica, tratamento adjunto é uma categoria legítima: muitas intervenções úteis não eliminam a necessidade de medicação em todos os pacientes, mas reduzem sintomas, melhoram função e diminuem efeitos colaterais.
O estudo-piloto de Stanford foi descrito como intervenção adjunta em pessoas com doença grave e alterações metabólicas relevantes; e mesmo assim observou melhora psiquiátrica e grande melhora metabólica (por exemplo, redução de resistência à insulina, triglicerídeos, peso e critérios de síndrome metabólica).
No caso da série de transtorno esquizoafetivo, há relato de redução ou retirada progressiva de psicofármacos sob cuidado psiquiátrico, sem retorno de sintomas no período observado — o que, novamente, não prova “cura”, mas mostra que a discussão não pode ser encerrada com “a maioria ainda usa remédio”.
Ponto-chave: continuar usando medicação não invalida melhora clínica. E alguns relatos descrevem redução supervisionada — algo que a matéria menciona de passagem, sem explorar o significado clínico.
Citação (NYT): “...muitos acham difícil manter dieta cetogênica no longo prazo...”
Aderência é uma questão real em qualquer intervenção (inclusive medicação). Mas “é difícil manter” não é o mesmo que “não funciona”.
Exemplos:
- No estudo-piloto de depressão com supervisão médica e nutricional, houve avaliação de viabilidade/aderência via cetonas sanguíneas e houve alta taxa de conclusão entre os inscritos, com efeitos adversos descritos como leves e transitórios sobretudo na fase inicial. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jad.2025.121079
- No estudo retrospectivo com 31 pacientes internados com doença mental grave e persistente, a dieta foi implementada em ambiente semi-controlado e foi considerada viável e bem tolerada; e houve melhora importante em escalas de depressão e sintomas psicóticos, além de marcadores metabólicos. DOI: https://doi.org/10.3389/fpsyt.2022.951376
Ponto-chave: aderência é um desafio prático; não é uma sentença científica contra a possibilidade de benefício, especialmente quando há modelos de implementação supervisionada mostrando viabilidade.
Citação (NYT): a matéria descreve riscos, incluindo riscos cardiovasculares, e sugere cautela ampla.
A cautela é apropriada: dieta cetogênica não é “solução mágica” e, em saúde mental grave, não deve ser adotada sem acompanhamento, principalmente por possíveis efeitos metabólicos, ajustes de medicação, hidratação, eletrólitos, sono e risco de descompensações individuais.
O que a matéria faz, porém, é usar “riscos” como um recurso retórico para reduzir o assunto a “isso é perigoso”. Só que os estudos enviados mostram que, quando aplicada com método e supervisão:
- Pode coexistir com melhora metabólica, justamente em populações em que o tratamento padrão frequentemente piora parâmetros metabólicos. No estudo-piloto com esquizofrenia e transtorno bipolar, houve redução de peso, circunferência abdominal, gordura visceral, resistência à insulina e triglicerídeos; e ao final nenhum participante manteve critério de síndrome metabólica.
Isso é particularmente importante porque o próprio tratamento antipsicótico é associado a efeitos metabólicos relevantes — algo que o protocolo do ensaio clínico controlado descreve como parte do problema de base e como justificativa para novas abordagens.
Ponto-chave: risco existe; mas também existe risco na alternativa padrão. A pergunta correta é “em quais pacientes, com quais protocolos e quais desfechos”, não “isso é sempre perigoso”.
Um ponto que a matéria minimiza: a literatura clínica já descreve remissão em outros diagnósticos
A matéria foca em esquizofrenia e transtorno bipolar, mas o conjunto de evidências mostra que a abordagem metabólica vem sendo explorada com relatos de remissão também em outros quadros:
- Depressão moderada a grave (estudo-piloto, aberto, 14 semanas): o estudo descreve redução importante em escala de depressão (MADRS), melhora de ansiedade e anedonia, e menciona taxa alta de remissão no grupo que completou o acompanhamento, reconhecendo limitações e pedindo ensaios maiores. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jad.2025.121079
- Depressão e transtorno de ansiedade generalizada (série de casos): remissão completa descrita em semanas sob cetose nutricional terapêutica em programa de psiquiatria metabólica, com medidas por escalas (PHQ-9, GAD-7). DOI: https://doi.org/10.3389/fnut.2024.1396685
- Transtorno obsessivo-compulsivo (série de casos de três pacientes): remissão e relato de retorno de sintomas quando há desvio da dieta (um dado clínico relevante, ainda que não prove causalidade). DOI: https://doi.org/10.3389/fnut.2025.1568076
- Transtorno obsessivo-compulsivo com retocolite ulcerativa (relato de caso): remissão completa do transtorno obsessivo-compulsivo e remissão clínica da doença intestinal em 12 semanas, com medidas por escalas e monitorização de cetonas. DOI: https://doi.org/10.3389/fpsyt.2025.1541414
Ponto-chave: mesmo quando a evidência ainda é inicial, ela é ampla o suficiente para derrubar a postura de “isso não trata nada”. Trata-se de um campo em desenvolvimento (psiquiatria metabólica) que está sendo publicado, testado e estruturado em protocolos mais rigorosos.
Onde a autora acerta — e onde ela falha
Onde acerta
- Ao rejeitar o uso da palavra “cura” como conclusão geral.
- Ao pedir mais estudos controlados e longos (isso é necessário).
Onde falha
- Ao escrever de modo que o leitor conclua que o tema é “sem fundamento”, quando há estudos-piloto, dados retrospectivos e séries de casos com melhoras mensuráveis e relatos de remissão.
- Ao usar “ausência de ensaio controlado” como se fosse “ausência de evidência”, ignorando que a própria literatura enviada já está caminhando para ensaios controlados e descreve sinais clínicos relevantes.
A matéria combate um exagero (“cura”) com outro exagero (“isso é praticamente nada”). Essa forma de apresentar o tema não informa; ela orienta o leitor a desdenhar de um campo que está, de fato, sendo investigado e publicado.
Conclusão
A dieta cetogênica não pode ser anunciada como “cura” para esquizofrenia, transtorno bipolar ou qualquer transtorno psiquiátrico grave. O conjunto de evidências enviado não sustenta esse tipo de afirmação ampla.
Mas a matéria do New York Times também não pode ser tomada como referência confiável para concluir que “não é possível tratar doença mental com dieta cetogênica” ou que a hipótese é “sem fundamento”. O que existe hoje — estudos-piloto, análises retrospectivas e séries de casos — mostra melhoras mensuráveis e, em alguns relatos, remissão, inclusive de sintomas psicóticos e de quadros complexos acompanhados por programas estruturados.
A posição responsável, baseada em evidência, é esta: não é cura como regra; é um campo promissor, ainda inicial, com sinais clínicos que justificam pesquisa séria e aplicação supervisionada em contextos selecionados. Negar isso por reflexo, como se alimentação não pudesse ser terapêutica, é fechar os olhos para o que a própria literatura científica já descreve.
Fonte: https://www.nytimes.com/2026/02/05/us/politics/kennedy-keto-diet-schizophrenia.html?unlocked_article_code=1.KFA.vdpy.6HnnOsGQzfXM&smid=nytcore-android-share
