Dietas Cetogênicas e os Sintomas de Depressão e Ansiedade: Uma revisão sistemática e meta-análise


Durante décadas, a dieta cetogênica foi conhecida principalmente como uma alternativa para o tratamento da epilepsia. No entanto, novas pesquisas começaram a mostrar que seus efeitos podem ir muito além do controle de crises convulsivas. Um grande estudo publicado em novembro de 2025 no JAMA Psychiatry trouxe uma revisão sistemática e meta-análise de 50 estudos envolvendo mais de 41 mil adultos, examinando como essa dieta influencia sintomas de depressão e ansiedade.

A dieta cetogênica é caracterizada por um consumo muito baixo de carboidratos (menos de 50 g por dia), ingestão moderada de proteína e alta proporção de gordura. Essa combinação leva o corpo a um estado chamado cetose nutricional, no qual ele passa a usar corpos cetônicos — como o beta-hidroxibutirato — em vez da glicose como principal fonte de energia.

O que o estudo analisou

Os pesquisadores da Universidade de Toronto e do Hospital St. Michael’s revisaram estudos clínicos randomizados e observacionais publicados até abril de 2025. Foram incluídos apenas trabalhos realizados com adultos, que seguiam uma dieta com restrição severa de carboidratos e cujos resultados foram avaliados por escalas validadas de sintomas psiquiátricos, como o Patient Health Questionnaire-9 (PHQ-9) e o Generalized Anxiety Disorder-7 (GAD-7).

A meta-análise reuniu dados de 50 estudos, sendo 10 ensaios clínicos controlados, 9 estudos quase-experimentais e dezenas de observações complementares (como séries de casos e estudos transversais).

Resultados principais

Os resultados mostraram melhora moderada nos sintomas de depressão, mas efeitos incertos sobre a ansiedade.

  • Nos ensaios clínicos, a redução média da gravidade dos sintomas depressivos foi significativa (SMD = −0,48), o que significa um efeito pequeno a moderado.
  • Nos estudos quase-experimentais, os efeitos foram ainda mais evidentes (SMCC = −0,66).
  • Em contraste, os estudos sobre ansiedade não mostraram diferença estatisticamente relevante (SMD = −0,03).

Curiosamente, os efeitos positivos foram mais fortes quando a cetose era confirmada por exames bioquímicos, quando a dieta era muito baixa em carboidratos, e entre participantes não obesos. Isso sugere que a resposta depende do grau real de cetose e do perfil metabólico individual.

Por que a dieta pode ajudar

A equipe destaca que a cetose provoca uma mudança profunda na forma como o cérebro utiliza energia. Os corpos cetônicos podem melhorar o funcionamento das mitocôndrias, reduzir o estresse oxidativo e modular neurotransmissores importantes, como GABA e glutamato — os mesmos envolvidos em vários transtornos mentais.

Além disso, há indícios de que essa dieta reduz inflamações sistêmicas, melhora a sensibilidade à insulina e estabiliza o metabolismo cerebral da glicose, mecanismos que costumam estar alterados em pessoas com depressão ou transtornos de humor.

Outro ponto abordado foi a possível influência sobre o intestino e o microbioma, já que a dieta cetogênica pode alterar o equilíbrio das bactérias intestinais, influenciando a produção de substâncias que se comunicam com o cérebro — um campo cada vez mais explorado pela psiquiatria nutricional.

Limitações e cuidados

Embora os resultados sejam animadores, os autores alertam que não se trata de uma cura universal. Muitos estudos analisados tinham pequenas amostras, curta duração e protocolos diferentes de dieta, o que torna os resultados ainda preliminares. Além disso, nem todas as pessoas conseguem manter uma cetose estável — especialmente indivíduos com obesidade e resistência à insulina.

Os efeitos colaterais mais relatados foram leves e temporários, como fadiga, dor de cabeça, constipação e náusea nas primeiras semanas. Um único caso grave foi registrado: cetoacidose euglicêmica em uma pessoa que usava medicamentos específicos para diabetes, o que reforça a necessidade de acompanhamento médico.

Os autores enfatizam que a dieta cetogênica não deve ser adotada sem supervisão profissional, principalmente por pessoas que fazem uso de antidepressivos, estabilizadores de humor ou medicamentos para diabetes.

O que isso significa na prática

O estudo reforça que alimentação e metabolismo estão intimamente ligados à saúde mental. A dieta cetogênica parece ter potencial terapêutico especialmente para depressão, possivelmente atuando como terapia complementar a medicamentos e psicoterapia.

Contudo, ainda faltam ensaios clínicos de longa duração que confirmem a durabilidade desses efeitos e estabeleçam protocolos padronizados de aplicação. A pesquisa abre caminho para uma nova fronteira em que a nutrição se une à psiquiatria de forma mais integrada.

Em resumo, os dados atuais indicam que a dieta cetogênica pode reduzir sintomas de depressão, com poucos efeitos adversos relatados, mas a evidência sobre ansiedade ainda é limitada. A recomendação geral é de cautela e acompanhamento especializado, mas o estudo marca um passo importante no reconhecimento científico da influência da alimentação — especialmente das dietas de base animal e pobres em carboidratos — sobre o equilíbrio emocional e cerebral.

Fonte: https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2025.3261

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