A glicina é o aminoácido mais simples do corpo humano, mas exerce um papel essencial no metabolismo. Ela participa da produção de glutationa — uma das principais substâncias antioxidantes do organismo —, auxilia na eliminação de substâncias tóxicas e é fundamental para o chamado “ciclo do carbono único”, que mantém o equilíbrio químico e energético das células. Apesar de ser considerada “não essencial” (ou seja, o corpo pode produzi-la), pessoas com obesidade grave geralmente apresentam deficiência dessa molécula, o que compromete várias funções metabólicas.
Com base nessa observação, pesquisadores de Singapura e dos Estados Unidos realizaram um estudo clínico para avaliar se a suplementação de glicina na dieta poderia corrigir essa deficiência e melhorar o metabolismo em pessoas com obesidade severa. O estudo foi publicado na revista Scientific Reports.
O que o estudo fez
Foram recrutados 19 participantes com obesidade grave (IMC médio de 38 kg/m²). Todos receberam suplementação oral de glicina na dose de 100 mg por quilo de peso corporal por dia, durante duas semanas. Nenhum participante mudou sua dieta habitual ou fez uso de novos medicamentos durante o período.
O objetivo foi observar se o aumento da glicina no sangue poderia melhorar parâmetros metabólicos, especialmente aqueles ligados ao fígado e ao metabolismo de gorduras.
Principais resultados
- Aumento dos níveis de glicina no sangue: Após duas semanas, houve aumento de cerca de 35% na concentração de glicina plasmática. Também subiram os níveis de outros compostos relacionados ao ciclo do carbono único, como serina, folato e cisteína — indicando melhora na atividade metabólica do fígado.
- Melhora de marcadores hepáticos: As enzimas hepáticas TGO e TGP, que indicam sobrecarga ou inflamação no fígado, diminuíram de forma significativa. Isso sugere melhora na função hepática e possível redução da inflamação associada à esteatose hepática metabólica (MASLD).
- Redução dos triglicerídeos: Os níveis de triglicerídeos no sangue também caíram, mesmo sem perda de peso ou mudança na dieta.
- Aumento na excreção de substâncias tóxicas: A glicina estimula uma via chamada “conjugação da glicina”, que ajuda o fígado a eliminar compostos tóxicos e derivados da queima de gorduras e aminoácidos. Após a suplementação, houve aumento na eliminação de várias dessas substâncias na urina, indicando que o corpo passou a desintoxicar-se de forma mais eficiente.
- Sem mudanças na glicose e na insulina: A suplementação não alterou a glicemia, a sensibilidade à insulina ou o gasto energético dos participantes, mostrando que os efeitos foram específicos nas vias metabólicas relacionadas ao fígado e à gordura.
O que isso significa
Os resultados indicam que a glicina pode ser um nutriente limitante em pessoas com obesidade, ou seja, o corpo não consegue produzir o suficiente para atender à demanda. Quando suplementada, ela parece ajudar o fígado a processar melhor gorduras e toxinas, reduzindo o acúmulo de lipídios e melhorando marcadores de inflamação hepática.
Essa melhora ocorreu sem necessidade de emagrecimento, o que reforça o papel metabólico direto da glicina — independentemente da perda de peso. Segundo os autores, isso abre caminho para futuros ensaios clínicos que avaliem a glicina como possível tratamento auxiliar para doenças hepáticas metabólicas.
Limitações e próximos passos
O estudo foi pequeno (apenas 19 pessoas) e de curta duração (duas semanas), portanto não permite conclusões definitivas sobre segurança e eficácia a longo prazo. Também não foram feitas imagens do fígado (como ultrassonografia ou ressonância), o que seria necessário para confirmar a melhora estrutural do órgão.
Os pesquisadores sugerem que novas pesquisas, com mais participantes e acompanhamento prolongado, são essenciais para confirmar se a suplementação de glicina pode ser usada como uma estratégia segura e de baixo custo para melhorar a saúde metabólica e hepática em pessoas com obesidade.
Implicações para o consumidor
Para o público geral, este estudo reforça que:
- a glicina tem papel central no equilíbrio metabólico e antioxidante;
- sua deficiência pode estar ligada a alterações típicas da obesidade;
- embora promissora, a suplementação deve ser investigada e supervisionada por profissionais de saúde — não há evidências suficientes para o uso indiscriminado.
Fontes naturais de glicina incluem carnes, colágeno, gelatina e vísceras, que fornecem o aminoácido em quantidades muito maiores que alimentos vegetais. Assim, dietas com boa presença de alimentos de origem animal tendem a manter níveis adequados de glicina, reduzindo a necessidade de suplementação.
Fonte: https://doi.org/10.1038/s41598-025-20511-x
