Nos últimos anos, uma das estratégias mais frequentes da divulgação científica tem sido usar estudos pontuais para reforçar narrativas contra determinados nutrientes, especialmente a gordura saturada. Quando a pesquisa é desenhada com um modelo extremo — como a ingestão de uma refeição artificial carregada de gordura — o efeito imediato e agudo é transformado em argumento para condenar o nutriente de forma generalizada.
Foi exatamente isso que aconteceu em agosto de 2025, quando o portal The Conversation publicou a manchete: “We fed people a milkshake with 130g of fat to see what it did to their brains – here’s what we learned” (“Nós demos a pessoas um milkshake com 130 g de gordura para ver o que isso fazia ao cérebro – aqui está o que aprendemos”).
À primeira vista, o título já desperta preocupação. Afinal, quem não se assustaria com a ideia de que apenas um milkshake poderia comprometer o cérebro? Mas uma leitura cuidadosa do artigo científico original publicado no Journal of Nutritional Physiology mostra algo bem diferente: não há qualquer evidência de risco clínico real, apenas alterações temporárias em marcadores fisiológicos induzidas por um teste extremo.
A seguir, uma análise detalhada dos erros e falhas que transformaram um estudo experimental em mais um episódio de demonização da gordura.
O desenho do estudo
O experimento recrutou 41 homens saudáveis, divididos em dois grupos:
- Jovens de 18 a 35 anos (n=20).
- Idosos de 60 a 80 anos (n=21).
Todos foram submetidos a duas avaliações: uma em jejum e outra quatro horas após consumir um milkshake padronizado. Essa bebida continha:
- 130 g de gordura (quase toda saturada).
- 48 g de carboidrato.
- 9,5 g de proteína.
- 1.362 calorias totais.
Ou seja: não era apenas gordura, mas uma mistura de creme de leite, açúcar e xarope de chocolate. Os autores chamaram esse desafio metabólico de “brain bomb” (“bomba cerebral”).
As análises incluíram:
- Função vascular sistêmica (dilatação mediada por fluxo na artéria do braço).
- Resposta cerebral a oscilações de pressão arterial (autorregulação cerebral dinâmica, dCA).
- Marcadores metabólicos: triglicerídeos, glicose e insulina.
O que foi encontrado
Após quatro horas:
- Aumento de triglicerídeos, glicose e insulina — esperado após refeição desse porte.
- Queda da dilatação mediada por fluxo (FMD) em jovens e idosos, sinalizando redução temporária da função endotelial.
- Aumento do índice de pulsatilidade (PI) nos vasos cerebrais, refletindo maior rigidez temporária.
- Redução da autorregulação cerebral (dCA), mais evidente nos idosos.
As falhas e exageros na divulgação
1. Extrapolação para risco de AVC e demência
O estudo não avaliou função cognitiva, nem desfechos clínicos como AVC ou demência. Observou apenas alterações fisiológicas passageiras, revertidas em poucas horas. Mesmo assim, a matéria afirmou: “even a single high-fat meal could impair blood flow to the brain, potentially increasing the risk of stroke and dementia” (“até uma única refeição rica em gordura poderia prejudicar o fluxo sanguíneo para o cérebro, aumentando potencialmente o risco de AVC e demência”).
2. Desconsideração da composição da refeição
O shake não era apenas gordura. Tinha açúcar adicionado e carboidratos refinados, que elevam glicose e insulina, fatores bem conhecidos de estresse oxidativo e dano endotelial. Atribuir os efeitos exclusivamente à gordura saturada, como fez a matéria ao dizer que “eating a meal that is high in saturated fat … can be bad for our blood vessels and heart health” (“comer uma refeição rica em gordura saturada … pode ser ruim para vasos sanguíneos e saúde do coração”), é uma simplificação que ignora a combinação com açúcar.
3. Omissão sobre o volume extremo de gordura
A refeição testada não é comparável a uma refeição cotidiana. Consumir 130 g de gordura de uma vez equivale a cinco ou seis vezes o que muitos ingerem em um almoço comum. Mesmo assim, a matéria comparou o shake a uma pizza de sexta-feira à noite (“that self-indulgent Friday night takeaway pizza”).
4. Exclusão das mulheres
O estudo incluiu apenas homens, por questões metodológicas. A matéria, no entanto, generaliza para ambos os sexos, e só ao final menciona que “we don’t yet know how the female brain responds to a high-fat meal” (“ainda não sabemos como o cérebro feminino responde a uma refeição rica em gordura”).
5. Perfil dos voluntários
Todos os participantes tinham aptidão cardiorrespiratória acima da média, o que pode ter reduzido a intensidade dos efeitos observados. A matéria não menciona esse dado.
6. Reforço seletivo da narrativa antigordura saturada
O artigo científico reconhece que não se sabe como seria a resposta a uma refeição rica em poli-insaturadas, mas a divulgação preferiu reforçar a recomendação de “consumir uma dieta baixa em gordura saturada para proteger o cérebro”.
7. Ignorar que o efeito é agudo e transitório
As alterações foram medidas apenas quatro horas após a refeição. Não há dados sobre 8h, 24h ou dias seguintes. A matéria, porém, enfatizou que “our study highlights the importance of consuming a diet that is low in saturated fat to protect not only our heart health, but also our brain health” (“nosso estudo destaca a importância de consumir uma dieta baixa em gordura saturada para proteger não apenas o coração, mas também o cérebro”).
O que realmente aprendemos
Se há uma conclusão correta a tirar do estudo é que:- Uma carga extrema de gordura saturada com açúcar e carboidratos refinados pode reduzir, de forma temporária, a função vascular e a autorregulação cerebral.
- Idosos apresentam resposta mais vulnerável.
Por que isso importa?
O caso ilustra como estudos agudos e experimentais são usados para construir narrativas simplistas contra nutrientes específicos. A gordura saturada, em especial, é alvo frequente desse tipo de comunicação. Enquanto isso, fatores óbvios como o açúcar adicionado e os carboidratos refinados, que também estavam no shake, são convenientemente esquecidos. Essa forma de divulgação cumpre mais um papel de reforçar o discurso oficial das diretrizes do que de informar com equilíbrio. E, quando traduzida em manchetes, passa ao público a impressão de que até uma refeição única pode comprometer seriamente o cérebro — algo que o próprio estudo não demonstrou.
Conclusão
O trabalho de Marley e colegas (2025) tem mérito ao mostrar que a hiperlipidemia pós-prandial compromete temporariamente a função vascular e cerebral. Mas a forma como o estudo foi divulgado ao público amplia de maneira desproporcional suas conclusões, omitindo limitações metodológicas e transformando um resultado transitório em alerta de risco permanente. Trata-se de mais um exemplo de como a gordura saturada é demonizada seletivamente, enquanto fatores igualmente relevantes, como carboidratos simples e açúcares adicionados, desaparecem da narrativa.almente relevantes, como os carboidratos refinados presentes na refeição-teste.
Fonte: https://theconversation.com/we-fed-people-a-milkshake-with-130g-of-fat-to-see-what-it-did-to-their-brains-heres-what-we-learned-259961

