O efeito do estresse térmico e da desidratação no uso de carboidratos durante exercícios de endurance: revisão sistemática e meta-análise


Quando se fala em exercício de longa duração, como corrida ou ciclismo, logo pensamos em “energia” e em quais combustíveis o corpo usa para sustentar o esforço. Essa energia pode vir dos carboidratos (principalmente glicogênio muscular e glicose sanguínea) ou das gorduras (estoques de triglicerídeos intramusculares e gordura corporal).

A questão que pesquisadores vêm tentando entender é: como o calor e a desidratação mudam esse equilíbrio entre carboidratos e gorduras? E, ainda mais: o que acontece com atletas que seguem uma dieta cetogênica ou low carb de longo prazo, que são conhecidos por queimar gordura em taxas muito elevadas?

Um artigo recente publicado na Sports Medicine (2025) trouxe respostas importantes para parte dessa pergunta, a partir de uma revisão sistemática e meta-análise. Esse tipo de estudo reúne dezenas de pesquisas já feitas e calcula os efeitos de forma integrada, dando uma visão mais confiável sobre os mecanismos.

O que a revisão sistemática mostrou

A revisão analisou 51 estudos com mais de 500 participantes. O achado central foi claro:

  • O calor aumenta o uso de carboidratos durante o exercício de endurance. Isso significa que, sob estresse térmico, o corpo queima mais glicogênio muscular e glicose, e menos gordura.
  • A desidratação intensifica esse efeito. Quando o exercício é realizado no calor e com restrição de líquidos, o organismo passa a depender ainda mais de carboidratos, acelerando a queda dos estoques de glicogênio.
  • Em ambientes temperados, a desidratação sozinha não teve efeito tão consistente. Ou seja, o fator determinante parece ser o calor, que reorganiza o metabolismo em favor de substratos de uso rápido.

O mecanismo por trás disso envolve principalmente o desvio cardiovascular: com o calor, o corpo aumenta o fluxo de sangue para a pele a fim de dissipar temperatura, o que reduz a entrega de oxigênio ao músculo. Como consequência, o músculo tende a escolher uma fonte de energia mais “rápida”, que é a glicose, em vez da gordura, que precisa de mais oxigênio para ser queimada.

Estudos que reforçam esse quadro

  • Pesquisas com ciclistas mostraram que o calor aumenta o uso de glicogênio muscular e diminui a oxidação dos carboidratos ingeridos durante o exercício, em comparação a ambientes mais frescos (Jentjens et al., 2002).
  • Trabalhos anteriores também indicaram que a ingestão adequada de líquidos pode poupar glicogênio, mostrando que a hidratação é parte da equação (Hargreaves et al., 1996).
  • Revisões recentes confirmam que, em geral, o calor leva a uma redução na oxidação de gordura, mesmo quando o esforço é controlado pela mesma intensidade relativa.

E os atletas cetoadaptados?

Agora entra um perfil muito particular. Atletas que seguem uma dieta cetogênica ou low carb há semanas ou meses passam por um processo chamado cetoadaptação. O corpo aprende a usar a gordura de forma extremamente eficiente.

Estudos em clima temperado mostram que:

  • Esses atletas podem atingir taxas de oxidação de gordura de 1,4 a 2,0 g/min, números recordes já observados em humanos.
  • O ponto de “crossover” — a intensidade em que o corpo passa a preferir carboidrato em vez de gordura — é deslocado para cargas muito mais altas (80–90% do VO₂máx).
  • O glicogênio não fica cronicamente depletado, porque é reabastecido via gliconeogênese. Ou seja, mesmo sem comer carboidrato, eles preservam reservas musculares para quando precisam de esforço explosivo.

Isso significa que, em condições normais de temperatura, atletas cetoadaptados conseguem poupar carboidrato e queimar gordura em proporções impressionantes.

Comparando os cenários

Condição Uso de carboidratos Uso de gorduras Estoques de glicogênio Observações
Dieta mista em clima temperado Moderado Moderado Repostos com ingestão de CHO Perfil clássico de atletas.
Calor + desidratação (revisão 2025) Aumentado (↑ RER, ↑ glicogenólise) Reduzido Depletados mais rápido Corpo prioriza energia rápida por conta do estresse térmico e cardiovascular.
Cetoadaptados em clima temperado Reduzido em intensidades submáximas Muito elevado (1,4–2,0 g/min) Preservados, usados sob demanda Metabolismo treinado para oxidar lipídios em alta escala.
Calor + cetoadaptados Desconhecido Desconhecido Sem dados diretos Lacuna científica: não há ensaios avaliando esse cenário.


O que falta saber

Apesar dos avanços, existe uma lacuna clara: não há estudos controlados que avaliem atletas cetoadaptados exercitando-se no calor.

Sabemos que o calor força o corpo a usar mais carboidrato. Sabemos também que a cetoadaptação aumenta muito a oxidação de gordura em clima temperado. Mas não sabemos se, quando essas duas variáveis se combinam, a vantagem da cetoadaptação é anulada, reduzida ou parcialmente preservada.

Essa é uma área em aberto, que merece investigações futuras.

Conclusão

  • No calor e com desidratação, o corpo passa a depender mais de carboidratos e menos de gordura para gerar energia.
  • Atletas cetoadaptados, em condições normais, têm o metabolismo mais “treinado” para usar gordura em altíssimo nível.
  • O grande ponto em aberto é o que acontece quando juntamos os dois cenários: calor e cetoadaptação. A ciência ainda não tem essa resposta.

O que já sabemos, no entanto, é que hidratação adequada e aclimatação ao calor podem ajudar a reduzir a velocidade com que o glicogênio é consumido. E que a capacidade de usar gordura como combustível é uma adaptação poderosa que pode trazer vantagens em provas longas, embora o ambiente térmico seja um desafio extra que precisa ser estudado mais a fundo.

Fonte: https://doi.org/10.1007/s40279-025-02294-3

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