Durante muito tempo, a imagem dos neandertais foi associada a comportamentos rudimentares e estratégias alimentares pouco sofisticadas. No entanto, um estudo publicado em julho de 2025 na revista Science Advances apresenta evidências contundentes que transformam essa visão, revelando práticas altamente organizadas e intencionais de extração de gordura óssea por populações neandertais do último interglacial na Europa Central.
Uma "fábrica de gordura" no passado profundo
Pesquisadores liderados por Lutz Kindler analisaram o sítio arqueológico de Neumark-Nord 2/2 (NN2/2), localizado no atual território da Alemanha, e descobriram uma impressionante concentração de ossos fragmentados e artefatos líticos datados de aproximadamente 125 mil anos atrás. O contexto arqueológico é notável: restos de no mínimo 172 grandes mamíferos — incluindo cavalos, cervos e bois selvagens — foram identificados com sinais claros de terem sido transportados intencionalmente até a margem de um pequeno lago para a extração de nutrientes lipídicos, como o tutano e a gordura presente no tecido esponjoso dos ossos (conhecida como bone grease).
A localização e a natureza dos achados sugerem uma atividade sistemática de extração de gordura óssea, prática até então atribuída exclusivamente a populações do Paleolítico Superior. A extensão do processamento, o volume de ossos fraturados e os vestígios de fogo reforçam a hipótese de que este local funcionava como um verdadeiro centro de intensificação alimentar — uma "fábrica de gordura" pré-histórica.
A importância da gordura na dieta neandertal
Para populações de caçadores-coletores dependentes de alimentos de origem animal, a obtenção de gordura é vital. O fígado humano possui uma limitação fisiológica na metabolização de proteínas: o consumo excessivo (acima de cerca de 300g/dia) pode provocar uma condição grave conhecida como "inanição por excesso de proteína" (rabbit starvation), que ocorre na ausência de fontes complementares de energia — como gorduras ou carboidratos.
No contexto de um ambiente temperado e com acesso sazonal a vegetais, a gordura extraída de ossos fornecia uma fonte calórica densa e estável. Elementos anatômicos ricos em gordura, como mandíbulas, crânios e ossos longos, estão sobre-representados no sítio NN2/2, enquanto partes com baixo valor nutricional, como os ossos dos pés, aparecem em menor frequência. Essa distribuição seletiva reforça a ideia de que os neandertais priorizavam ossos com alto teor lipídico para transporte e processamento.
Fragmentação intencional e uso do fogo
Os ossos encontrados no sítio foram intencionalmente quebrados ainda frescos, antes da fossilização. Cerca de 40% das amostras exibem marcas de corte, raspagem e impacto provocadas por ferramentas de pedra. Martelos de pedra e bigornas também foram recuperados no local, sugerindo um conjunto de ferramentas específicas para a trituração óssea.
Além disso, fragmentos ósseos calcinados e vestígios de carvão indicam que parte da gordura pode ter sido extraída com auxílio do calor. Embora não tenham sido encontradas evidências diretas de fervura, é possível que recipientes perecíveis — como cascas de árvores ou peles — tenham sido usados para cozinhar os ossos, uma técnica já documentada entre populações de caçadores modernos.
Armazenamento estratégico e uso sazonal
A presença de diversas espécies caçadas (cavalos, cervos, bovídeos, ursos e lobos) e a análise dos dados de idade e sazonalidade indicam que os neandertais caçavam ao longo de todo o ano. Alguns dos animais podem ter sido abatidos meses antes da chegada ao sítio, e seus restos armazenados em depósitos naturais ou artificiais — um comportamento típico de caçadores-coletores em regiões de clima temperado e subártico.
A acumulação rápida de tantos ossos e artefatos em uma área restrita sugere uma operação concentrada, possivelmente associada à abertura de depósitos alimentares e ao processamento coletivo de grandes volumes de ossos para obtenção de gordura.
Implicações para a arqueologia e evolução humana
O sítio NN2/2 oferece uma janela rara para compreender aspectos invisíveis da subsistência neandertal. A complexidade logística envolvida — da caça à seleção e transporte dos ossos, passando pelo uso especializado de ferramentas e fogo — revela um grau de planejamento e conhecimento ambiental até então subestimado.
Mais importante ainda, os resultados ampliam a compreensão sobre a antiguidade da extração de gordura óssea como estratégia alimentar fundamental, com evidências que agora recuam sua origem para o Paleolítico Médio, muito antes do que se supunha. Os autores concluem que, apesar de sua visibilidade limitada no registro arqueológico, essa prática pode ter sido amplamente difundida entre os primeiros hominídeos.
Com isso, o estudo não apenas resgata práticas esquecidas de sobrevivência energética, mas também desafia noções simplistas sobre a capacidade adaptativa dos neandertais.
