A imagem clínica em crianças alimentadas após desmame em uma dieta predominantemente vegetal

O artigo publicado no British Journal of Nutrition pela médica Lucy Wills apresenta um relato clínico minucioso sobre os efeitos adversos em crianças desmamadas que passaram a consumir dietas baseadas predominantemente em alimentos vegetais, com destaque para casos observados entre populações africanas, especialmente na comunidade bantu, na África do Sul. Embora centrado nessa população, o estudo ressalta que o quadro clínico descrito não é exclusivo de uma etnia ou localidade — ele pode ser observado em qualquer grupo humano exposto à mesma dieta.

Três Efeitos Adversos Constantes nas Dietas Ricas em Carboidratos e Pobres em Proteínas Animais

O estudo de Wills identificou três consequências recorrentes em crianças alimentadas com dietas compostas principalmente por carboidratos, com deficiência de proteína animal:

  1. Anemia Macrocrítica ou Tendência à Anemia Sob Estresse Metabólico: A hematopoese é comprometida, especialmente em momentos de infecção ou carência calórica, resultando frequentemente em anemia.
  2. Esteatose Hepática e Doença Hepática Grave: A falta de proteína adequada favorece a infiltração de gordura no fígado, com evolução possível para cirrose e até carcinoma hepático em adultos.
  3. Degradação Muscular e Edema: A carência de proteínas obriga o organismo a degradar tecidos musculares para obtenção de aminoácidos. A hipoalbuminemia resultante causa acúmulo de líquido extracelular (edema), característico do quadro conhecido como kwashiorkor.

Além disso, a ingestão limitada de vitaminas do complexo B e outros micronutrientes essenciais contribui para lesões de pele, alterações na coloração dos cabelos e estomatite angular.

Características Clínicas dos Casos Estudados

A pesquisa analisou 36 crianças com quadro de kwashiorkor, internadas no McCord's Zulu Hospital, em Durban. O padrão alimentar dessas crianças, após o desmame, era composto quase exclusivamente por mingaus à base de milho (mealie-meal) e sorgo (sump), sem consumo de leite, carne, ovos ou peixe. A introdução precoce desses alimentos vegetais sem proteína completa levou ao desenvolvimento de sintomas como:

  • Anorexia e emagrecimento muscular severo, muitas vezes mascarado pela presença de edema.
  • Fígado aumentado e infiltrado por gordura, detectado em 30 dos 36 casos.
  • Alterações de pele, incluindo escurecimento e despigmentação em áreas distintas.
  • Cabelos ralos, com coloração alterada (avermelhada ou amarronzada).
  • Deficiência severa de proteínas plasmáticas, especialmente albumina, com níveis médios de apenas 4,5 g/100 ml.

Quatro das crianças faleceram, duas delas com fígados extremamente gordurosos e aumento de peso do órgão acima de 450 g — valores anormalmente altos para a idade.

Tratamento Baseado em Leite Fermentado (Maas)

A intervenção terapêutica consistiu em retirar os excessos de carboidratos e iniciar alimentação exclusiva com maas, um derivado fermentado do leite desnatado, com posterior introdução de leite em pó e dieta mista com suplementação de leite. A resposta clínica foi notável:

  • A diurese intensa começou em poucos dias, promovendo perda de peso pela eliminação do edema.
  • Aumento rápido das proteínas séricas, normalizando entre o 16º e o 20º dia.
  • O fígado reduziu de tamanho gradualmente.
  • A diarreia cessou rapidamente, sem necessidade de medicação adicional.

A taxa de mortalidade ajustada (excluindo óbitos nas primeiras 24h) foi de 2,8%, comparável à taxa de 4,5% em outras intervenções documentadas, como nos estudos de Altmann (1948). A letalidade foi significativamente maior nos casos classificados como atróficos — fase terminal do kwashiorkor.

Animal x Vegetal: Evidência de Superioridade Nutricional

A autora ressalta que, embora não se possa provar de forma absoluta que a proteína animal seja insubstituível, os dados apontam fortemente nessa direção. O kwashiorkor e suas manifestações foram identificados em populações com dietas variadas, mas todas com uma característica comum: ausência de proteína animal e predominância de carboidratos vegetais.

Estudos clássicos, como os de Whipple e colaboradores, demonstraram que proteínas animais promovem melhor síntese de albumina do que proteínas vegetais (com exceção da soja). O leite foi destacado como o alimento mais eficaz na reversão do quadro clínico, superando tentativas de correção com vitaminas, colina ou metionina.

Comparações com Adultos Vegetarianos

Casos de anemia macrocrítica foram também observados em adultos. Em estudo com 18 mil soldados indianos em boas condições gerais, os vegetarianos tiveram uma taxa de internação por anemia grave quase 100 vezes maior do que os que consumiam carne regularmente (Taylor & Chhuttani, 1945). Mesmo em ambientes com ração calórica adequada, a ausência de proteína animal se associou a anemia severa e desnutrição.

Considerações Finais

O quadro clínico descrito por Lucy Wills mostra que dietas baseadas exclusivamente ou majoritariamente em vegetais podem ser nutricionalmente inadequadas após o desmame, especialmente em populações com acesso limitado a fontes diversas de alimentos vegetais ricos em aminoácidos essenciais.

“Dada uma dieta predominantemente vegetal, com deficiência calórica e sem proteína animal, a desnutrição maligna aparecerá com todas as suas sequelas.”

A reversão clínica com leite fermentado reforça a importância crítica das proteínas completas na alimentação infantil. Ainda hoje, esses achados têm implicações relevantes para populações que adotam dietas vegetarianas estritas, especialmente em crianças, onde a vigilância nutricional deve ser rigorosa.

Fonte: https://doi.org/10.1079/BJN19510036

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