Níveis baixos e em queda de colesterol e risco de mortalidade geral e por causas específicas: um estudo prospectivo e longitudinal de coorte


A relação entre colesterol e saúde sempre despertou grande interesse e também muitas controvérsias. Normalmente, a atenção recai sobre os riscos associados a níveis elevados de colesterol, dada sua relação bem estabelecida com doenças cardiovasculares. No entanto, os efeitos dos níveis baixos de colesterol no organismo, especialmente em pessoas sem uso de medicamentos para redução de lipídios, ainda são menos compreendidos. Um estudo recente conduzido em grandes coortes da China e do Reino Unido, publicado no periódico Engineering, buscou preencher esta lacuna analisando dados de quase 500 mil adultos aparentemente saudáveis, acompanhados por mais de uma década.

Contexto e objetivos do estudo

O colesterol é essencial para o funcionamento normal do corpo humano: participa da estrutura das membranas celulares, na produção de hormônios e no metabolismo geral. Mas há muito tempo se sabe que níveis elevados de colesterol estão associados a maior risco de infarto e doença arterial coronariana. Por outro lado, evidências emergentes sugerem que níveis muito baixos de colesterol também poderiam ter consequências adversas.

Este estudo teve como objetivo investigar as associações entre níveis basais de colesterol — e as mudanças desses níveis ao longo do tempo — com o risco de mortalidade geral e por causas específicas (como câncer e doenças cardiovasculares). A análise foi rigorosa: os pesquisadores excluíram do estudo indivíduos que já apresentavam doenças graves, que tomavam medicamentos para baixar o colesterol ou que tivessem índices de massa corporal muito baixos, justamente para reduzir a chance de que doenças pré-existentes estivessem confundindo os resultados.

Metodologia

Foram utilizados dados de três grandes estudos: Dongfeng–Tongji, Kailuan e UK Biobank. No total, a análise incluiu 480.420 adultos, com idades médias entre 49 e 61 anos. O acompanhamento durou entre 9 e 13 anos, período em que mais de 25 mil mortes foram registradas. Os níveis de colesterol foram medidos no início do estudo e, para parte dos participantes, novamente após quatro a cinco anos, permitindo análise das mudanças ao longo do tempo.

As principais frações de colesterol avaliadas foram:

  • Colesterol total (CT)
  • Colesterol de lipoproteína de baixa densidade (LDL-C)
  • Colesterol não-HDL (non-HDL-C)
  • Colesterol de lipoproteína de alta densidade (HDL-C)

Principais resultados

A análise revelou uma relação não linear entre os níveis de colesterol e o risco de mortalidade:

  • Níveis elevados de colesterol estavam associados, como esperado, a maior mortalidade por doenças cardiovasculares (especialmente doença arterial coronariana e infarto).
  • Surpreendentemente, níveis baixos de colesterol estavam associados a maior mortalidade geral e por câncer, independentemente de fatores como idade, sexo, tabagismo, diabetes e hipertensão.
  • Os níveis considerados ótimos para menor risco de mortalidade geral foram em torno de 200 mg/dL para o colesterol total e 130 mg/dL para LDL-C nos adultos chineses — valores próximos aos recomendados por diretrizes internacionais para populações de baixo risco cardiovascular.

Além disso, queda significativa dos níveis de colesterol ao longo de quatro anos (>20% de redução) também se associou a maior risco de morte, sobretudo entre os participantes chineses. Isso sugere que mudanças inesperadas no colesterol podem ser um sinal de alerta sobre condições subjacentes de saúde.

Já para o HDL-C, os resultados foram mais complexos: tanto níveis muito baixos quanto muito altos pareceram estar associados a maior mortalidade no Reino Unido, mas não houve associação significativa entre HDL-C e mortalidade nas coortes chinesas.

Interpretação e implicações

Os autores destacam que, mesmo com todos os ajustes estatísticos realizados, as associações observadas não significam que colesterol baixo “cause” câncer ou morte prematura, mas sim que ele pode ser um marcador de outras condições ocultas de saúde, como inflamação crônica, desnutrição, fragilidade ou doenças subclínicas.

Em termos de prática clínica, o estudo reforça que o monitoramento do colesterol deve considerar tanto níveis elevados quanto baixos e suas variações ao longo do tempo. A descoberta de um padrão de redução significativa nos níveis de colesterol em indivíduos aparentemente saudáveis deve levar à investigação cuidadosa para identificar causas potenciais ocultas.

Conclusão

Este estudo amplia a compreensão sobre o papel do colesterol na saúde geral. Embora o foco das diretrizes continue sendo a redução de níveis elevados de colesterol para prevenção cardiovascular, os resultados indicam que níveis persistentemente baixos ou quedas acentuadas de colesterol também podem ter implicações clínicas relevantes, principalmente como possíveis indicadores de outras doenças.

Portanto, o equilíbrio é fundamental: nem excesso, nem escassez. Manter níveis adequados e estáveis de colesterol, com acompanhamento regular e atento a alterações, é a melhor estratégia para promover longevidade e saúde integral.

Fonte: https://doi.org/10.1016/j.eng.2025.06.032

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