Alimentação estratégica com carboidratos melhora o desempenho em atletas adaptados à dieta cetogênica


Durante décadas, pesquisadores tentaram desvendar como a alimentação afeta o desempenho físico, especialmente em modalidades de endurance. Em 2025, um estudo inovador publicado na revista Clinical Nutrition trouxe novos insights sobre o impacto do consumo estratégico de carboidratos em indivíduos que seguem uma dieta cetogênica há mais de um ano. O trabalho, liderado por Matthew Carpenter e colaboradores, é o primeiro a investigar esse tema com um desenho experimental rigoroso em atletas cetogênicos crônicos — ou seja, que seguem a dieta há pelo menos 12 meses.

Contexto: Metabolismo na dieta cetogênica

A dieta cetogênica (KD), caracterizada por consumo extremamente reduzido de carboidratos (<50g/dia), induz adaptações metabólicas profundas. Nessas condições, o organismo passa a oxidar mais gordura como combustível e a produzir corpos cetônicos (como β-hidroxibutirato), usados como fonte energética alternativa, especialmente em contextos de jejum ou baixa disponibilidade de glicose. Isso resulta em maior capacidade de oxidação lipídica — mesmo durante exercícios intensos — e menor dependência de glicogênio muscular e hepático.

Contudo, esse padrão também implica em menor glicemia basal e menor reserva de glicogênio, o que pode levar à hipoglicemia durante esforço prolongado. A dúvida central da pesquisa foi se a reintrodução estratégica de carboidratos poderia melhorar o desempenho de atletas adaptados a esse estado metabólico, sem comprometer as vantagens da cetose crônica.

O estudo: protocolo e metodologia

Treze atletas recreativos (11 homens, 2 mulheres), com média de 25 ± 12 meses em dieta cetogênica, participaram do experimento. Todos praticavam esportes de endurance ao menos duas vezes por semana, tinham cetose comprovada por medição capilar e mantinham consumo diário de carboidrato abaixo de 50g.

Cada voluntário participou de quatro sessões experimentais, com diferentes estratégias de suplementação:

  1. PLA: Placebo durante dois dias + placebo antes do exercício.
  2. ACUTE: Placebo durante dois dias + 60g de carboidrato 30 minutos antes do exercício.
  3. SHORT: 200g de carboidrato por dois dias + placebo antes do exercício.
  4. COMB: 200g de carboidrato por dois dias + 60g de carboidrato antes do exercício.

A avaliação consistia em um exercício contínuo de 60 minutos em intensidade moderada, seguido de um contrarrelógio de 16,1 km em bicicleta, medindo tempo, consumo de oxigênio (VO₂), razão respiratória (RER), oxidação de substratos, glicemia, lactato, cetonas e percepção subjetiva de esforço (RPE).

Principais achados

1. Desempenho físico

As condições ACUTE e COMB, que incluíram o consumo de carboidratos imediatamente antes do exercício, mostraram melhor desempenho no tempo de conclusão do contrarrelógio em relação ao grupo placebo (PLA). Já o consumo de carboidratos nas 48 horas anteriores (SHORT) não produziu melhora significativa.

2. Metabolismo energético

  • O RER e a oxidação de carboidratos aumentaram significativamente nas condições ACUTE e COMB, indicando maior uso de glicose como combustível.
  • A oxidação de gordura foi mais alta no grupo placebo, mas caiu nas condições com ingestão aguda de carboidrato.
  • A glicemia subiu rapidamente após o consumo de carboidrato pré-exercício, prevenindo a hipoglicemia observada nos grupos PLA e SHORT.

3. Cetonas e hipoglicemia

  • As cetonas capilares pós-exercício foram menores em ACUTE e COMB, refletindo maior uso de glicose.
  • Glicemias abaixo de 3,5 mmol/L foram observadas nos grupos PLA e SHORT, o que pode ter afetado negativamente a performance por ativar respostas hormonais contra-regulatórias e gerar fadiga central.

Interpretação dos autores

Os pesquisadores concluíram que a ingestão aguda de carboidratos 30 minutos antes do exercício melhora o desempenho aeróbico em atletas cetogênicos, provavelmente por prevenir hipoglicemia e manter a função do sistema nervoso central. Em contrapartida, a ingestão de carboidratos nos dois dias que antecedem a prova não teve efeito ergogênico.

Essa diferença pode estar relacionada ao fato de que a ingestão imediata poupa glicogênio hepático e mantém a glicemia, enquanto a ingestão crônica afeta majoritariamente o glicogênio muscular, sem os mesmos efeitos perceptíveis sobre o desempenho em curto prazo.

Implicações práticas

  • Atletas adaptados à dieta cetogênica podem melhorar o desempenho em provas de endurance de alta intensidade com a ingestão de pequenas quantidades de carboidrato imediatamente antes da prova (por exemplo, 60g de dextrose).
  • Essa estratégia não compromete as adaptações metabólicas da cetose crônica, desde que o consumo seja pontual.
  • A manutenção da glicemia, mais do que a reposição de glicogênio muscular, pode ser o fator decisivo para preservar o desempenho.

Limitações do estudo

  • Ausência de controle rigoroso da dieta nos dias de teste.
  • Maioria masculina (11 dos 13 participantes), sem controle do ciclo menstrual nas mulheres.
  • Dose de 200g/dia de carboidrato nos dois dias prévios pode não ter sido suficiente para maximizar o glicogênio muscular.

Conclusão

Este estudo fornece evidência de que a ingestão estratégica e aguda de carboidrato é ergogênica mesmo em atletas adaptados à dieta cetogênica. Essa abordagem pode ser utilizada para preservar os benefícios metabólicos da cetose e, ao mesmo tempo, otimizar o desempenho em momentos decisivos de competição ou treino intenso.

Fonte: https://doi.org/10.1016/j.clnu.2025.06.016

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