Suplementação de creatina: doses mais altas provavelmente são melhores para a bioenergética, saúde e função cerebral


Este artigo resume uma mini-revisão narrativa publicada no Journal of Psychiatry and Brain Science (2025) que discute por que a creatina monohidratada (CrM) pode ter utilidade além do desempenho muscular, com foco em bioenergética cerebral, saúde e função cognitiva. O ponto central do artigo é que, devido a limitadores biológicos para a entrada de creatina no cérebro, doses mais altas e/ou por mais tempo podem ser necessárias para obter aumentos mais consistentes nos estoques cerebrais de creatina — embora o protocolo ideal ainda seja desconhecido.

Por que o cérebro entra nessa conversa

O artigo destaca que o cérebro representa cerca de 2% da massa corporal, mas consome por volta de 20% da energia em repouso. Para sustentar processos como atividade sináptica e liberação de neurotransmissores, neurônios dependem de ATP continuamente. A creatina participa desse sistema por meio da fosfocreatina (PCr), que ajuda a regenerar ATP de forma rápida — um mecanismo mais veloz do que vias como glicólise e fosforilação oxidativa.

O “gargalo” do cérebro: transporte e cinética

A revisão explica que a creatina consegue atravessar a barreira hematoencefálica (BHE) usando o transportador CT1, mas esse processo é mais limitado do que no músculo. Isso aparece, por exemplo, na diferença de concentração: o artigo cita níveis de creatina total no cérebro em torno de 4–5 mM, enquanto no músculo esquelético ficam em torno de 35–40 mM. Essa combinação (BHE + CT1 + cinética) é usada pelos autores para sustentar a ideia de que “mais pode ser melhor” quando o objetivo é elevar creatina no cérebro.

O que os estudos de imagem sugerem sobre dose e tempo

A revisão descreve resultados com espectroscopia por ressonância magnética (MRS), destacando que o aumento de creatina no cérebro com suplementação tende a ser menor do que no músculo (o artigo menciona, como ordem de grandeza, algo como ~10% no cérebro vs. ~20% no músculo, em sínteses discutidas na revisão).

Um estudo clássico citado (Dechent et al., 1999) é usado como peça importante do argumento: com 20 g/dia, houve aumento de creatina cerebral após semanas, com variação por região (por exemplo, aumentos maiores em tálamo e substância branca). A revisão também ressalta que mudanças metabólicas observadas nesse contexto foram reversíveis após interrupção prolongada da creatina.

Ao mesmo tempo, o artigo apresenta resultados mistos: há trabalhos em que protocolos com dose alta por poucos dias ou algumas semanas não mostraram mudanças estatisticamente significativas em determinados desfechos de bioenergética cerebral ou desempenho cognitivo em adultos saudáveis, reforçando a mensagem de que nem sempre é simples, nem sempre é rápido, e a resposta pode depender do contexto.

Onde a evidência parece mais consistente: “estresse metabólico”

A revisão enfatiza que os efeitos mais robustos tendem a aparecer em cenários de maior demanda metabólica, como:

  • Privação de sono
  • Hipóxia
  • Fadiga mental
  • Lesão cerebral traumática (TCE/TBI)

Nesses cenários, a lógica apresentada é que estoques cerebrais podem ficar relativamente mais “pressionados”, e a creatina poderia ajudar a sustentar o sistema ATP/PCr.

Populações e condições destacadas no artigo

Doença de Alzheimer

A revisão descreve disfunções no sistema de creatina no Alzheimer (por exemplo, alterações em PCr e creatina quinase em estágios avançados, conforme literatura citada). Também cita um estudo piloto com 20 g/dia por 8 semanas em pacientes com Alzheimer, no qual houve aumento mensurável de creatina cerebral e melhora em testes cognitivos reportados pelo estudo. O artigo destaca ainda que, nesse piloto, não foram observados eventos adversos atribuídos à CrM.

Privação de sono

O texto cita um ensaio duplo-cego randomizado cruzado que utilizou dose única alta (~0,35 g/kg) antes de um período de privação de sono, relatando aumento de PCr cerebral e melhora de fadiga subjetiva (comparado a placebo) durante o estressor. A revisão também menciona achados de aumento de creatina circulante após privação de sono em estudo piloto, levantando a possibilidade de dinâmica mais complexa entre circulação e cérebro nesse cenário (o próprio artigo ressalta que isso precisa de mais investigação).

Lesão cerebral traumática

A revisão apresenta um ensaio aberto randomizado em crianças e adolescentes com TCE usando ~0,4 g/kg/dia por 6 meses, com melhora relatada em múltiplos parâmetros clínicos e funcionais descritos pelo estudo. Também cita um estudo experimental em adultos saudáveis em hipóxia, com 20 g/dia por 7 dias, relatando aumento de creatina cerebral e reversão de piora cognitiva induzida pela baixa de oxigênio.

Depressão

O artigo menciona dados observacionais em adultos norte-americanos sugerindo associação inversa entre ingestão dietética de creatina e depressão, e discute suplementação como via mais viável do que tentar atingir certas doses apenas com alimentação. Além disso, descreve um estudo de “dose-ranging” com 2, 4 e 10 g/dia por 8 semanas, no qual a elevação de PCr no lobo frontal foi maior no grupo 10 g/dia, e a PCr frontal apareceu inversamente correlacionada com escores de depressão (conforme reportado pelo estudo citado).

Estratégias além de “aumentar a dose”

A revisão lista abordagens investigacionais para elevar creatina cerebral:

  • Guanidinoacetato (GAA) como precursor direto (há estudo piloto sugerindo aumento de creatina em músculo e cérebro em comparação com CrM em curto prazo).
  • Ciclocreatina (análogo) com dados pré-clínicos em modelo de deficiência do transportador.
  • Administração intranasal com dados em animais.
  • Modulação do CT1, considerando que exposição prolongada pode alterar regulação do transportador.

O texto é cuidadoso ao afirmar que essas alternativas ainda exigem mais evidência, especialmente em humanos, antes de conclusões práticas.

Limitações e o que permanece desconhecido

A mensagem final do artigo é clara em dois pontos:

  1. Há suporte crescente para a creatina como agente que pode afetar bioenergética cerebral e alguns desfechos de função, especialmente em contextos de maior estresse metabólico.
  2. O protocolo ótimo (dose, duração, e possivelmente estratégia) ainda não está definido, e os resultados variam por população, condição e método de avaliação.


Fonte: https://doi.org/10.20900/jpbs.20250006

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