
Elas ficam populares porque são fáceis de medir. Só que um número alto no medidor não é sinônimo automático de “mais saúde”. Em muitos casos, a melhora que as pessoas sentem ao entrar em cetose vem principalmente de um conjunto de mudanças bem básicas: menor estímulo de insulina, glicose mais estável, menos picos e quedas de energia, e, para algumas pessoas, um ambiente inflamatório mais controlado. Essas mudanças podem acontecer junto com a subida das cetonas.
Ao mesmo tempo, é importante corrigir uma ideia comum: as cetonas não são apenas “fumaça”. O principal corpo cetônico no sangue, o β-hidroxibutirato, também funciona como molécula sinalizadora no organismo. Ou seja, em certos contextos, as cetonas podem participar de efeitos biológicos além de servir como combustível. Então, elas podem ser marcador do estado metabólico e, em parte, também mediadoras de alguns efeitos.
Ainda assim, medir cetonas não deve virar competição. Números mais altos só dizem que há mais cetonas circulando; não dizem, sozinhos, por que isso aconteceu nem se isso é desejável para aquele objetivo.
Por exemplo: dá para aumentar cetonas com bebidas de cetonas exógenas, com jejum curto ou com restrição calórica forte. Isso pode elevar o β-hidroxibutirato sem reproduzir, necessariamente, todos os efeitos de uma intervenção alimentar sustentada. Em algumas situações, pode haver efeitos agudos, mas isso não equivale automaticamente aos benefícios que muitas pessoas buscam com uma estratégia de longo prazo.
Na prática, muita gente em dieta cetogênica ou carnívora bem alimentada fica em uma faixa de cetose nutricional leve a moderada (com variação individual). Valores mais altos podem aparecer por motivos diferentes: jejum, ingestão energética muito baixa, estresse, doença, ou uso de cetonas exógenas. Por isso, uma leitura de 4–6 mmol/L não deve ser interpretada automaticamente como “melhor”: pode refletir um estado de maior restrição energética, mas também pode ocorrer em estratégias terapêuticas específicas. O contexto é tudo.
E existe uma ressalva importante: para a maioria dos objetivos gerais de saúde, não há um conceito prático de “quanto mais alto, melhor”. Porém, em alguns cenários clínicos específicos, como no tratamento cetogênico da epilepsia, níveis mais altos podem se associar a resposta em parte dos pacientes. Isso mostra que o significado do número depende do objetivo.
No fim, a leitura de cetonas responde uma pergunta simples: você está produzindo e circulando cetonas. Para entender se isso está “bom” ou “ruim”, é preciso olhar o conjunto: sintomas, energia, sono, apetite, desempenho, sinais metabólicos e o motivo pelo qual as cetonas estão altas. A meta mais segura costuma ser usar o número como orientação, não como troféu.
Adaptado de Dana Spencer