O diário privado do capitão George Francis Lyon, do H.M.S. Hecla (1824)


O diário de George Francis Lyon descreve a alimentação no Ártico com foco prático: o que sustentava pessoas e expedições em um ambiente onde a comida era, muitas vezes, literalmente “o que o gelo deixava passar”. Nesse cenário, os alimentos de origem animal aparecem como base frequente — não apenas como “carne”, mas como um conjunto completo de partes e usos (carne, gordura, vísceras, caldo e óleo para fogo e luz).

1) A base alimentar: foca, gordura e vísceras como “comida do dia”

Quando os caçadores retornavam com sucesso, Lyon registra um cenário recorrente: sangue, gordura (blubber), vísceras, peles e carne organizados em “montes” enquanto as refeições eram preparadas em panelas fumegantes.

Ele descreve que, enquanto os cozimentos aconteciam, as crianças comiam partes de vísceras cruas (ainda “não limpas”), de acordo com o que conseguiam mastigar. Em outra passagem, o autor registra que, entre um ciclo e outro de comida, as pessoas “beliscavam” pedaços de gordura crua e depois finalizavam a refeição com sopa rica do cozimento da carne passada de pessoa em pessoa.

Esse conjunto — carne, gordura e caldo — aparece no diário como um padrão: a refeição não é “só um bife”; é um sistema alimentar completo, onde a gordura tem papel destacado (como comida imediata e como recurso para cozinhar e manter calor).

2) Como se comia: grandes porções, circulação da carne e sopa ao final

Lyon registra um modo de refeição coletivo: um pedaço de carne circulava entre as pessoas até ser consumido; então outro pedaço era servido, com reposições frequentes nas panelas. A sopa do cozimento era oferecida ao fim, em sequência, até terminar.

Ele também registra aspectos sociais da refeição: em uma ocasião específica, afirma ter observado “sem dúvida” que as mulheres não comiam junto com os homens, aguardando até que eles estivessem satisfeitos para então comerem entre si.

3) Carne de foca, “meio cozida”, e o papel das mulheres na preparação

Em um episódio detalhado, Lyon relata ter recebido um pedaço de carne de foca “meio cozida” oferecido por uma mulher durante a distribuição do conteúdo de uma panela. No mesmo conjunto de cenas, ele descreve mulheres cozinhando “o mais rápido possível” enquanto parte do grupo aguardava e continuava comendo pequenas porções entre etapas do preparo.

O ponto relevante, para o tema “dieta”, é que o diário registra frequência e centralidade da foca (carne, gordura e vísceras) como alimento e como “estrutura” do cotidiano em períodos críticos de provisão.

4) Veado (venison): consumo cru, cozido e aproveitamento máximo

Em uma viagem, Lyon relata que as pessoas locais haviam limpado os ossos de veado completamente, a ponto de nem os cães tentarem roer novamente, o que sugere aproveitamento muito intenso do animal abatido.

No mesmo trecho, ele descreve um “experimento” alimentar: fez o desjejum com uma fatia escolhida da espinha e registrou que ele e outro membro preferiram essa carne ao “preserved meat” da própria expedição naquele dia. Lyon ainda registra que considerava que carne de veado crua poderia ser vista como iguaria (observação pessoal do autor).

Além disso, quando descreve uma ocasião em que visitantes foram “ver-nos comer”, ele registra que mulheres ficaram sob chuva para cozinhar (ensopar) um pouco de veado reservado do quinhão do grupo.

5) Gordura como recurso: fogo feito com ossos e óleo no preparo

Um dos registros mais reveladores, sobre como a gordura animal virava tecnologia de sobrevivência, aparece na descrição do fogo: Lyon relata que as fogueiras eram feitas com ossos previamente “bem esfregados com gordura”, e que a mulher responsável pelo cozimento mastigava um pedaço grande para extrair o óleo e então o cuspia/soprava sobre a chama para alimentá-la.

Nesse tipo de nota, o diário mostra que “dieta” não é só ingestão: envolve armazenamento de energia, calor e preparo, todos conectados aos alimentos de origem animal, especialmente à gordura.

6) Baleia: carne e óleo para atravessar o inverno

Em outra passagem, Lyon descreve que a tripulação conseguiu abater uma baleia e que, após o processamento, passaram a ferver uma quantidade suficiente de óleo para o inverno, para uso em condições de “lamp-light”. Ele registra também que “whale steaks” foram adicionados à lista de “pratos árticos”.

O diário ainda descreve que o “carcaça”/restante da baleia foi levada até a costa e entregue como “presente” a um grupo local, que imediatamente começou a consumir a carne, segundo a descrição do autor.

7) Caça como sustentação: foca e morsa, com foco no inverno

No capítulo sobre métodos de caça, Lyon descreve que, entre os animais capturados no gelo, estavam morsa e focas (com nomes locais e classificação naturalista), e afirma que uma “pequena” espécie de foca era encontrada “muitas milhas” distante de água aberta.

O trecho mais direto sobre dieta aparece quando ele afirma que essa foca (a encontrada longe de água aberta) era o “principal e único suporte certo” durante a maior parte do inverno severo. Ou seja: a dieta “se fecha” em torno de um animal-chave quando a estação impõe limites máximos.

8) Outros alimentos animais citados: cão e urso

Em uma passagem, Lyon relata ter dado carne de cão para a esposa de um conhecido. Em outra, ao descrever a caça ao urso polar, registra que o caçador o atacava pensando na captura de “uma refeição delicada” e uma pele útil para roupa (descrição do autor).

Síntese fiel ao diário

Ao longo dessas cenas, o diário de 1824 deixa um retrato consistente: a alimentação descrita por Lyon, na convivência com povos locais e na rotina da expedição, é marcada por:

  • Predominância de alimentos de origem animal (foca, morsa, baleia, veado; e menções a cão e urso).
  • Importância prática da gordura (como alimento e como combustível para fogo e luz).
  • Consumo tanto cozido quanto cru (com destaque para vísceras e gordura cruas em momentos específicos).
  • Refeições coletivas e baseadas em carne e sopa, com circulação de porções e reposições de panela.

Esse é o retrato documental que o livro oferece: um cotidiano em que alimentos animais não são um “detalhe” do cardápio, mas o eixo de sobrevivência, preparo, energia e convivência social em um dos ambientes mais restritivos do planeta.

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