Ascensão e queda da capacidade física em uma população geral: um estudo longitudinal de 47 anos


Com o envelhecimento, é esperado que haja perda progressiva de função e integridade dos tecidos. Quando isso acontece no músculo esquelético, pode surgir a sarcopenia, uma condição associada à redução de força e desempenho físico, com impacto direto na autonomia e na saúde. A literatura já descrevia, em atletas de elite, que o pico de desempenho costuma ocorrer antes dos 35 anos, seguido por queda gradual que acelera em idades mais avançadas. A dúvida era se esse “desenho” também se aplica a pessoas comuns, fora do contexto esportivo. Essa pergunta foi investigada em um estudo longitudinal raro e longo, publicado no Journal of Cachexia, Sarcopenia and Muscle (Westerståhl et al., 2025).

Como a pesquisa foi feita

Os pesquisadores acompanharam uma coorte populacional sueca (SPAF), com 427 indivíduos (48% mulheres), todos nascidos em 1958, avaliados repetidamente dos 16 aos 63 anos (1974–2021). As avaliações incluíram medidas objetivas de capacidade física em diferentes fases da vida:

  • Capacidade aeróbica: estimada por teste submáximo em cicloergômetro (Åstrand) em 27, 34, 52 e 63 anos; aos 16 anos, foi usado um teste de corrida de 9 minutos com equação de conversão para capacidade aeróbica relativa e absoluta.
  • Resistência muscular: número de repetições no supino (pesos diferentes para homens e mulheres), aos 16, 34, 52 e 63 anos.
  • Potência muscular de membros inferiores: avaliada pela altura do salto (teste de Sargent), aos 16, 27, 34 e 63 anos.
  • Estilo de vida: atividade física no lazer (sim/não) e escolaridade (ter ou não nível universitário).

Os autores analisaram as mudanças ao longo do tempo com modelos estatísticos que consideraram idade e sexo, permitindo estimar o ponto de pico e o ritmo de queda em diferentes décadas da vida.

O que foi encontrado

O resultado central é direto: a capacidade física atinge o pico antes dos 36 anos e começa a cair antes dos 40, com aceleração da queda com a idade.

1) Pico e queda da capacidade aeróbica

  • A capacidade aeróbica absoluta (L/min) atingiu pico por volta de 35–36 anos e, depois, caiu progressivamente até os 63. A redução acumulada do pico até 63 anos foi de 30% nas mulheres e 33% nos homens.
  • A capacidade aeróbica relativa (mL/kg/min) teve pico mais cedo nos homens (26 anos) e mais tarde nas mulheres (31 anos), mas a partir de cerca de 40 anos a taxa de queda foi semelhante entre os sexos, chegando a perdas anuais na faixa de aproximadamente ~2% ao ano nas idades mais avançadas avaliadas.

2) Resistência muscular no supino

A resistência muscular (repetições no supino) também atingiu pico entre 34 e 36 anos e depois caiu. Do pico até os 63 anos, a queda acumulada estimada foi de 32% nas mulheres e 35% nos homens, com aceleração do ritmo de perda ao envelhecer.
(Westerståhl et al., 2025)

3) Potência muscular (salto vertical)

A potência (estimada pela altura do salto) mostrou um pico mais cedo:

  • Homens: pico por volta de 27 anos.
  • Mulheres: pico por volta de 19 anos.
  • A perda acumulada do pico até 63 anos foi grande: 48% nas mulheres e 41% nos homens.

4) Um detalhe que muda a conversa: a variabilidade entre pessoas aumenta muito com a idade

Um dos achados mais relevantes é que a diferença entre indivíduos cresce bastante ao longo da vida. Do início até 63 anos, a variância aumentou aproximadamente:

  • 25 vezes para capacidade aeróbica relativa,
  • quase 5 vezes para altura do salto,
  • cerca de 3 vezes para repetições no supino.
  • Em outras palavras: com o passar das décadas, o grupo se “espalha” mais — algumas pessoas preservam muito melhor a capacidade, enquanto outras perdem muito mais.

O papel da atividade física ao longo da vida

O estudo encontrou associações consistentes entre ser fisicamente ativo no lazer e ter melhor desempenho em todas as medidas avaliadas. Dois pontos chamam atenção:

  1. Ser ativo aos 16 anos se associou a melhor capacidade aeróbica, maior resistência muscular no supino e maior potência (salto) ao longo da vida.
  2. Mudar de inativo para ativo na vida adulta também se associou a ganhos mensuráveis: aproximadamente 6%–7% para medidas aeróbicas, 11% para resistência muscular no supino e 4% para salto vertical, quando comparado a permanecer no padrão inativo/ativo conforme o modelo do estudo.

O que os autores concluem

A mensagem final é que a capacidade física segue uma trajetória bem definida: sobe até o pico (entre 19 e 36 anos, dependendo da variável e do sexo) e depois cai, com aceleração da queda ao envelhecer. O início dessa queda antes dos 40 anos é um alerta importante, porque antecipa a discussão sobre prevenção de perdas funcionais que mais tarde podem se tornar clinicamente relevantes. Ao mesmo tempo, o estudo reforça que a atividade física se associa a três aspectos “modificáveis” no curso da vida: o quanto se melhora antes do pico, o nível de desempenho alcançado e a velocidade de queda depois do pico.

Fonte: https://doi.org/10.1002/jcsm.70134

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