Quando se coloca lado a lado uma sequência de estudos em humanos, com populações, idades e cenários diferentes, aparece um alerta consistente: níveis mais altos de exposição ao fluoreto se associam a desfechos negativos que podem ir além dos dentes. Em alguns trabalhos, isso se manifesta como pior desempenho cognitivo em crianças; em outros, como sinais laboratoriais ligados a possível dano em rins e fígado; em outros, como alterações hormonais da tireoide e problemas ósseos, incluindo fraturas. Isso não significa “proibir” o fluoreto em qualquer situação: há usos pontuais, principalmente odontológicos, que podem ser indicados e acompanhados por profissional. O foco aqui é o que os próprios estudos descrevem quando a exposição é elevada, acumulativa ou prolongada.
Ding et al. (J Hazard Mater, 2011): em uma área endêmica de fluorose na China (Hulunbuir, Mongólia Interior), os autores avaliaram 331 crianças de 7 a 14 anos e relacionaram a exposição corporal ao fluoreto (medida pela concentração na urina) com dois desfechos negativos: fluorose dentária e desempenho em testes de inteligência. A água consumida variou em média e amplitude (média cerca de 1,31 mg/L, com faixa aproximada de 0,24 a 2,84 mg/L). O padrão observado foi de dose–resposta: conforme o fluoreto urinário aumentava, a fluorose dentária se tornava mais frequente e a pontuação de QI caía. Na análise, cada aumento de 1 mg/L de fluoreto na urina se associou a uma redução média de cerca de 0,59 ponto no QI, e a tendência de piora com maior exposição foi estatisticamente significativa. Em termos simples: mais fluoreto no corpo apareceu junto de mais dano nos dentes e pior resultado cognitivo.Xiong et al. (Environ Res, 2007): este estudo avaliou 210 crianças divididas em sete grupos de 30, organizados por níveis de fluoreto na água e pela presença ou ausência de fluorose dentária. O ponto central foi investigar marcadores ligados a possível dano em fígado e rins. Os autores encontraram que, à medida que o fluoreto na água aumentava, também aumentavam os níveis de fluoreto no soro e na urina, e alguns marcadores “subiam” justamente nos grupos mais expostos. Em especial, quando o fluoreto na água estava acima de aproximadamente 2,0 mg/L (faixas em torno de 2,15–2,96 e 3,10–5,69 mg/L), houve aumento de marcadores urinários ligados a lesão renal (como NAG e g-GT) e alteração de um marcador sérico associado a dano hepático (LDH). Os autores resumem o achado como um possível limiar de risco acima de 2,0 mg/L para alterações compatíveis com dano de função renal e hepática em crianças. Um ponto relevante é que nem tudo depende de “mancha no dente”: alterações laboratoriais podem aparecer com exposição elevada mesmo quando a situação dentária não explica todo o quadro.
Bassin et al. (Cancer Causes Control, 2006): em um estudo caso-controle hospitalar nos Estados Unidos, os autores analisaram 103 casos de osteossarcoma em menores de 20 anos e 215 controles pareados, estimando a exposição ao fluoreto na água por idade. O desfecho negativo em destaque foi a associação entre maior exposição em idades específicas e maior chance de osteossarcoma em meninos. Os autores categorizaram a exposição com base em proporções do nível-alvo recomendado (considerando clima) e relataram que, entre os meninos, as razões de chances ficaram acima de 1 em várias idades e atingiram um pico por volta dos 7 anos, com OR aproximado de 4,07 para a categoria de maior exposição (com intervalo de confiança amplo). Nas meninas, o padrão não foi consistente. Como todo estudo observacional, isso não prova causa, mas o trabalho chama atenção para um possível período de maior vulnerabilidade no crescimento ósseo masculino, associando maior exposição ao fluoreto na infância a maior risco de um câncer ósseo raro.
Susheela AK et al. (Fluoride, 2005): este estudo, em Delhi (Índia), avaliou 90 crianças com fluorose dentária de área endêmica e comparou com 21 crianças de áreas não endêmicas, sem fluorose (controles divididos em dois grupos: 10 e 11). O foco foi tireoide: FT3, FT4 e TSH. No grupo com fluorose, a água tinha fluoreto variando de cerca de 1,1 a 14,3 mg/L (média em torno de 4,37 mg/L), e os autores também mediram fluoreto em soro e urina, mostrando que muitos tinham níveis elevados. O desfecho negativo principal foi a alta frequência de “desarranjos hormonais”: 49 das 90 crianças (54,4%) tiveram alterações bem definidas e as demais apresentaram resultados limítrofes. O padrão mais comum incluiu TSH elevado com FT3 e FT4 normais (compatível com hipotireoidismo subclínico) e também combinações com FT3 baixo. Um detalhe importante é que mesmo nos controles, apesar da água considerada “segura” (<1 mg/L), muitos tinham fluoreto elevado em soro e urina, e alterações hormonais também apareceram (os autores citam proporções próximas de 50% e 45,4% nos dois grupos). Em termos práticos, o estudo sugere que a exposição ao fluoreto pode se somar por diferentes fontes e que alterações da tireoide podem ocorrer sem sinais clínicos evidentes no início.
Bayley et al. (JBMR, 1990): em um contexto terapêutico para osteoporose, os autores acompanharam 61 pacientes tratadas com fluoreto de sódio (NaF) em dose diária de 40 a 60 mg, combinado com cálcio e vitamina D. O desfecho negativo foi a ocorrência de dor importante e fraturas, especialmente em fêmur. Nove pacientes desenvolveram uma síndrome de dor nas pernas atribuída ao fluoreto. Além disso, sete das 61 pacientes tiveram 10 fraturas na porção superior do fêmur (incluindo fraturas por estresse). O estudo também encontrou que quem fraturou tinha maior retenção de fluoreto no osso (por exemplo, cerca de 30 mg/g de cálcio versus 23,9 mg/g nas demais), e que a ocorrência de fraturas por paciente se correlacionou com a carga óssea de fluoreto, mesmo ao controlar a influência da idade. A mensagem negativa é direta: mesmo quando a densidade óssea aumenta, o acúmulo de fluoreto pode vir acompanhado de fragilidade e fraturas.
Day & Powell-Jackson (Lancet, 1972): em 17 vilarejos do Himalaia, os autores estimaram a prevalência de bócio e mediram iodo, fluoreto e dureza da água. Em 13 vilarejos (648 pessoas) onde a concentração de iodo na água era muito baixa e semelhante entre si, as diferenças de bócio não foram explicadas por variação de iodo, porque ele permaneceu dentro de uma faixa estreita. Em vez disso, a prevalência de bócio variou amplamente e se correlacionou com o fluoreto e com a dureza da água. Os autores relatam correlação forte com fluoreto (rho cerca de 0,74; P<0,01) e também com dureza (rho cerca de 0,77; P<0,01). Eles observam ainda que fluoreto e dureza podem ter efeitos independentes. Em linguagem simples: em um cenário já vulnerável por baixa ingestão de iodo, água com mais fluoreto e mais “dureza” apareceu associada a mais bócio, sugerindo piora do problema tireoidiano.
Conclusão
No conjunto, esses estudos descrevem desfechos negativos que podem envolver fluorose dentária, alterações hormonais da tireoide, sinais laboratoriais ligados a possível dano em rins e fígado, maior risco ósseo com fraturas e, em crianças, pior desempenho em testes de inteligência. Esse panorama não elimina o uso pontual do fluoreto quando há indicação e acompanhamento profissional, especialmente em contextos odontológicos. O ponto central é evitar a exposição excessiva, desnecessária e prolongada, porque é justamente nesse cenário que os trabalhos relatam os achados mais preocupantes, sobretudo em grupos mais vulneráveis, como crianças e pessoas com risco ósseo.
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