O artigo reuniu evidências de 18 ensaios clínicos randomizados (ECRs), totalizando 905 participantes (18 a 70 anos), todos adultos sem doenças e sem uso de medicamentos. O objetivo foi comparar dietas com menor proporção de carboidratos (≤44% do total calórico diário) versus dietas com maior proporção de carboidratos (≥45%), em condições isoenergéticas (energia “igualada” entre grupos). A intenção foi isolar o efeito da distribuição de macronutrientes, minimizando a influência de diferenças calóricas entre as dietas.
Pelo protocolo, só entraram estudos com duração mínima de 4 semanas e com monitoramento de adesão (por exemplo: diários alimentares, aconselhamento, pesagens, e em alguns casos marcadores laboratoriais como cetonas).
Por que “energia igualada” importa
Grande parte das comparações entre padrões alimentares pode ser distorcida quando um grupo come menos calorias sem perceber. Aqui, a revisão excluiu estudos em que a diferença entre grupos fosse maior que 200 kcal/dia ou 5% do total energético, justamente para evitar que os resultados fossem explicados apenas por “comer menos”.
Desfechos positivos observados com menor proporção de carboidratos
A síntese dos ECRs mostrou vantagens modestas, porém estatisticamente significativas, para dietas com menor proporção de carboidratos em vários marcadores cardiometabólicos e de composição corporal, mesmo quando a ingestão energética foi mantida equivalente entre grupos.
1) Melhora em glicemia de jejum
Nas análises combinadas, a dieta com menor proporção de carboidratos levou a maior redução da glicemia de jejum em comparação à dieta com maior proporção de carboidratos (Hedges’ g = −0,364; IC95% −0,709 a −0,019).
Um ponto relevante: os autores destacam que essa redução foi consistente na direção do efeito em boa parte dos estudos incluídos, apesar de os participantes serem, em geral, metabolicamente saudáveis no início.
2) Redução de insulina de jejum
Também foi observada maior redução da insulina de jejum no grupo com menor proporção de carboidratos (g = −0,190; IC95% −0,361 a −0,014). No texto da discussão, os autores relatam que todos os 11 estudos que compuseram essa análise apontaram queda de insulina ao longo das intervenções, com vantagem global para o padrão de menor carboidrato.
3) Redução de triglicerídeos
O achado mais consistente no perfil lipídico foi a queda de triglicerídeos, com maior redução no padrão de menor carboidrato (g = −0,379; IC95% −0,540 a −0,219). Na discussão, os autores descrevem que os triglicerídeos diminuíram em 13 de 15 estudos.
4) Aumento de HDL
Outro desfecho favorável foi o aumento de HDL, que se elevou mais no grupo com menor proporção de carboidratos (g = 0,389; IC95% 0,229 a 0,550). Na discussão, os autores relatam aumento de HDL em 11 de 15 estudos. (artigo)
5) Mudanças em composição corporal sem piora de massa magra
Mesmo com energia igualada, a dieta com menor proporção de carboidratos mostrou maior redução de:
- massa corporal (g = −0,183; IC95% −0,349 a −0,017)
- massa de gordura (g = −0,304; IC95% −0,548 a −0,059)
Ao mesmo tempo, não houve diferença significativa entre dietas para massa livre de gordura (g = 0,126; IC95% −0,167 a 0,419), sugerindo preservação semelhante desse componente entre os padrões avaliados.
Um aspecto positivo adicional: resultados pouco dependentes de atividade física
A meta-análise também comparou subgrupos com e sem treinamento/atividade física regular (quando os estudos informavam isso). Em geral, os autores descrevem que os efeitos em glicemia, lipídios e composição corporal foram consistentes independentemente do status de treinamento, sugerindo que a distribuição de carboidratos contribuiu para os resultados observados, além de eventuais diferenças de exercício entre participantes.
Como os autores qualificaram a força das evidências
Usando a abordagem GRADE, os autores classificaram como alta a certeza da evidência a favor do padrão com menor proporção de carboidratos para HDL, triglicerídeos, glicemia de jejum, insulina de jejum, massa corporal e massa de gordura. Isso não significa “efeitos enormes”, mas indica que, com os critérios aplicados, os achados são considerados confiáveis dentro do conjunto de estudos analisados.
Síntese objetiva dos desfechos positivos
Quando duas dietas são comparadas com energia equivalente, a revisão indica que reduzir a proporção de carboidratos para ≤44% do total calórico tende a produzir:
- reduções maiores de glicemia e insulina em jejum;
- reduções maiores de triglicerídeos;
- aumento maior de HDL;
- reduções maiores de massa corporal e massa de gordura;
- sem diferença relevante na massa livre de gordura.
