Alimentação moderna e o descompasso evolutivo


A nutrição moderna costuma repetir: “Humanos são onívoros. Precisamos de variedade. Uma dieta equilibrada inclui todos os grupos alimentares.” E, no papel, isso parece impecável. O detalhe é que “equilíbrio” virou, muitas vezes, um salvo-conduto para comer um pouco de tudo — principalmente do que ninguém comeria se precisasse caçar, colher, preparar e mastigar de verdade.

A biologia evolutiva lembra um ponto pouco conveniente: por cerca de 2,5 milhões de anos, humanos viveram em contextos em que caçar e consumir alimentos de origem animal — muitas vezes mais gordurosos — teve papel importante. A agricultura é bem mais recente, com algo em torno de 10 mil anos. E os óleos industriais de sementes são mais recentes ainda, com pouco mais de um século. Em escala evolutiva, isso é “ontem”.

Quando se colocam esses prazos lado a lado, fica difícil dar o mesmo “peso histórico” a tudo. Ainda assim, o discurso comum age como se o corpo humano tivesse recebido um update junto com a prateleira do supermercado.

O DNA humano não mudou de forma relevante em 200 mil anos, enquanto a alimentação mudou drasticamente, sobretudo no último século. Nesse raciocínio, talvez o problema não seja “o ser humano que não se adapta”, e sim a comida ultraprocessada e industrial tentando se passar por comida.

“Mas nós também comíamos plantas...”, ok. Só que, em muitos contextos, isso foi mais ocasional e sazonal — não uma base constante, diária, o ano inteiro, em forma de farinha refinada, açúcar, xarope e óleo industrial.

Ao trocar comida de verdade por óleos de sementes industriais, grãos processados e açúcar, impõe-se ao organismo um padrão novo demais para ter virado “normal”. E aí aparecem os desfechos que se tornaram comuns: ganho de peso, alterações metabólicas e inflamação crônica. Depois, a explicação padrão vira genética, azar ou idade — como se o contexto alimentar não tivesse mudado.

Talvez seja mais sensato parar de culpar a biologia e voltar a priorizar alimentos minimamente processados, mais saciantes e mais coerentes com o funcionamento do corpo humano.

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