Em conversas sobre anatomia humana, o apêndice costuma virar piada: um “tubo” que só serve para inflamar e causar apendicite. Essa fama vem do fato de que muitas pessoas vivem bem após a retirada cirúrgica e de que, por muito tempo, ele foi apresentado como um “resto” evolutivo sem função.
O que a literatura científica mais consistente indica hoje é diferente: o apêndice não é essencial para a sobrevivência, mas não é biologicamente “inútil”. Ele reúne características de órgão imunológico da mucosa intestinal e pode se relacionar com a microbiota do intestino. Essa distinção é central para esclarecer a dúvida.
O que existe dentro do apêndice: um “ponto” de imunidade intestinal
Ao revisar décadas de estudos, pesquisadores descrevem o apêndice como uma estrutura com tecido linfoide associado ao intestino (parte do sistema de defesa localizado na mucosa). Em outras palavras: ali há células e organização anatômica compatíveis com funções imunológicas, especialmente na interação com bactérias comensais (a microbiota). Essa síntese aparece de forma clara na revisão de Kooij e colaboradores.
Referência: Kooij et al., 2016 — Clinical & Experimental Immunology
Uma revisão adicional discute o apêndice como exemplo de “redundância” (ou seja, funções que podem ser compartilhadas por outros tecidos), mas ressalta que isso não equivale a ausência de função, e reforça a integração entre apêndice, imunidade e microbiota.
Referência: Girard-Madoux et al., 2018 — Seminars in Immunology
A ideia do “reservatório” de microbiota: hipótese e evidências
Uma hipótese influente na área propõe que o apêndice pode funcionar como uma espécie de “abrigo” (safe house) para bactérias comensais, ajudando o intestino a recolonizar a microbiota após episódios que “varrem” parte das bactérias (por exemplo, certas diarreias). Importante: isso é apresentado como hipótese fundamentada em múltiplas observações, não como uma função “provada” em todos os cenários.
Referência: Bollinger et al., 2007 — Journal of Theoretical Biology
Do ponto de vista prático, estudos com material humano mostram que o apêndice pode abrigar uma microbiota robusta e variada, distinta de outros nichos, ainda que o significado exato disso para a saúde humana não seja totalmente definido.
Referências: Guinane et al., 2013 — mBio
Evolução: um órgão que “apareceu” mais de uma vez e não desapareceu tão facilmente
Quando a ciência compara espécies, a história fica menos compatível com a ideia de “sobrou e não serve para nada”. Revisões de anatomia evolutiva destacam que o apêndice (ou estruturas equivalentes) surge em diferentes linhagens e tende a ser mantido, o que sugere algum tipo de valor biológico, ainda que não seja indispensável.
Referência: Smith, 2023 — Anatomical Record (revisão)
Há ainda análises comparativas em mamíferos apontando associação entre presença do apêndice e maior longevidade máxima observada. Isso é associação, não prova de causa, mas reforça que a estrutura pode ter relevância biológica em escala evolutiva.
Referência: Collard et al., 2021 — Journal of Anatomy
O que a clínica sugere: quando a retirada muda algo (e quando não muda)
1) Muitas pessoas vivem bem sem apêndice (e isso é verdade)
A apendicectomia é um procedimento comum, e a existência de vida saudável após a cirurgia sustenta a ideia de que o apêndice não é essencial.
2) Mas “não essencial” não é o mesmo que “sem função”
Quando estudos observam grandes populações, surgem sinais de que a retirada pode se associar a diferenças em alguns desfechos de longo prazo — com resultados que variam conforme idade, tempo desde a cirurgia e contexto clínico. Um exemplo é uma coorte que investigou apendicectomia e risco de doença inflamatória intestinal, discutindo a possibilidade de mediação por microbiota e imunidade.
Referência: Fantodji et al., 2022 — BMJ Open Gastroenterology
Uma revisão sistemática sobre consequências tardias de apendicectomia (incluindo desfechos cirúrgicos e outros desfechos de longo prazo) reforça a necessidade de separar “complicações cirúrgicas tardias” de “associações epidemiológicas”, e mostra que o tema exige leitura cuidadosa de desenho e viés.
Referência: Rasmussen et al., 2018 — revisão sistemática, Scandinavian Journal of Surgery
3) Um exemplo importante: colite ulcerativa e o ensaio clínico ACCURE
A discussão sobre apêndice ganhou um capítulo forte quando um ensaio clínico randomizado avaliou apendicectomia (por laparoscopia) como estratégia para manter remissão em pessoas com colite ulcerativa, comparando com terapia médica padrão. Esse tipo de estudo não “prova a função do apêndice para todo mundo”, mas mostra que, em um contexto específico de doença imune-mediada do intestino, o apêndice pode ser clinicamente relevante.
Referências: ACCURE Study Group, 2025 — The Lancet Gastroenterology & Hepatology (PubMed) e texto completo no The Lancet
E a relação com câncer colorretal?
Algumas revisões e meta-análises observacionais encontraram associação entre apendicectomia e risco de câncer colorretal, mas com heterogeneidade entre estudos e regiões.
Referência: Liu et al., 2023 — revisão sistemática e meta-análise
Por outro lado, um estudo usando Mendelian randomization (abordagem genética para inferir causalidade, em um recorte populacional) relatou ausência de evidência de causalidade entre apendicectomia e cânceres gastrointestinais na população europeia analisada. Isso não encerra o tema globalmente, mas é um contraponto metodológico importante às associações observacionais.
Referência: Wang et al., 2024 — Scientific Reports
Conclusão
Ao juntar essas linhas — imunologia, microbiota, evolução e dados clínicos — a resposta fica mais simples: o apêndice não é um órgão indispensável, mas também não é “inútil”. A melhor forma de dizer isso, sem exagero, é que ele parece atuar como parte do sistema imune intestinal e pode participar da ecologia da microbiota, com relevância mais evidente em alguns contextos (como certas doenças intestinais). Essa visão é compatível com as revisões mais citadas e com os estudos clínicos recentes.
