O LDL e a glicose: quem realmente conduz o início da aterosclerose?


Quando se fala em colesterol e saúde do coração, a maior parte das pessoas já ouviu que o LDL é o responsável direto pela formação das placas que entopem as artérias. Por isso, ficou comum chamá-lo de “colesterol ruim”. No entanto, estudos modernos estão mostrando que a história é bem mais complexa. O LDL não é um vilão único e isolado. Na verdade, a forma como o metabolismo está funcionando — em especial os níveis de glicose no sangue — pode determinar se o LDL se tornará ou não um problema.

Um estudo publicado na revista Autophagy investigou esse mecanismo em detalhe e trouxe novas evidências que ajudam a entender por que o excesso de glicose pode ser tão perigoso para as artérias, mesmo quando o colesterol não está elevado.

O que o estudo mostrou

O ponto de partida da aterosclerose é a retenção de partículas de LDL na camada interna dos vasos sanguíneos, chamada espaço subendotelial. Mas como esse LDL atravessa a parede dos vasos? Ele não consegue passar livremente pelo espaço entre as células, porque é uma molécula grande. Por isso, precisa usar um processo chamado transcitose, em que a partícula é “engolida” por pequenas bolsas da membrana chamadas cavéolas e transportada para o outro lado do endotélio.

O estudo demonstrou que a glicose alta (como ocorre em pessoas com diabetes ou pré-diabetes) aumenta muito esse processo de transcitose. Isso acontece porque a glicose inibe a autofagia, que é um sistema interno de limpeza e reciclagem da célula. Sem autofagia, uma proteína chamada CAV1 (caveolina-1) se acumula e gera mais cavéolas. Essas cavéolas, por sua vez, facilitam o transporte do LDL para o subendotélio.

Em resumo: quanto mais glicose no sangue, mais cavéolas, mais LDL atravessa e mais fácil é começar a formar a placa aterosclerótica.

E se o LDL for grande e flutuante?

Nem todo LDL é igual. Há partículas grandes e flutuantes e outras pequenas e densas.

  • O LDL pequeno e denso é considerado o mais perigoso porque penetra com mais facilidade no endotélio, oxida rapidamente e fica preso mais tempo na circulação.
  • Já o LDL grande e flutuante é muito menos aterogênico: tem menos chance de oxidar e de atravessar a parede do vaso.

Isso significa que, em condições normais, ter predominância de LDL grande não costuma representar um grande risco.

Mas o estudo mostra um detalhe essencial: quando há hiperglicemia persistente, até mesmo o LDL grande pode atravessar mais facilmente o endotélio, porque a glicose cria um ambiente favorável para a transcitose aumentada. Além disso, a glicose pode se ligar diretamente às proteínas do LDL em um processo chamado glicação. Essa modificação torna a partícula mais “estranha” para o corpo, facilitando sua retenção e desencadeando inflamação.

Portanto, mesmo LDL grande e não oxidado pode se tornar perigoso se estiver constantemente exposto à glicose elevada.

Glicose como acelerador do processo

O estudo analisou amostras de veias umbilicais de mulheres com diabetes gestacional e encontrou exatamente esse padrão:

  • mais lipídios retidos na parede do vaso,
  • maior presença de CAV1 e CAVIN1 (proteínas que estabilizam cavéolas),
  • e menor atividade de LC3B, marcador de autofagia.

Isso significa que, no mundo real, em pessoas com glicose alta, o mecanismo celular se confirma: a barreira endotelial fica mais vulnerável à passagem de LDL, mesmo quando não há alteração marcante nas taxas de colesterol.

O papel do LDL nesse contexto

É fundamental compreender que o LDL ainda é a partícula que inicia a placa. Sem ele, a aterosclerose não se forma. O que muda é que o LDL não age sozinho. Ele depende de um ambiente metabólico que determine se será facilmente transportado e retido no vaso ou não.

Ou seja:

  • O LDL é necessário para a aterosclerose.
  • A glicose alta é um fator que acelera e multiplica a entrada desse LDL na parede arterial.
  • O risco aumenta ainda mais se o LDL for do subtipo pequeno e denso ou se for modificado por glicação ou oxidação.

Implicações práticas

Para a saúde cardiovascular, isso significa que:

  • Focar apenas no valor do LDL plasmático pode ser insuficiente.
  • O controle da glicose e da resistência insulínica é tão ou mais importante para evitar o depósito de LDL na parede vascular.
  • Estratégias que mantêm a glicemia estável (como dietas com menor carga de carboidratos, atividade física regular e melhora da sensibilidade à insulina) podem reduzir o risco de aterosclerose não apenas pela diminuição de glicose no sangue, mas também por manter a autofagia ativa e limitar a transcitose de LDL.

Conclusão

O estudo não prova que o LDL seja “inocente”, mas mostra que ele não é o único culpado. O LDL continua sendo necessário para iniciar a formação da placa, mas o verdadeiro gatilho que acelera o processo é o excesso de glicose. Isso explica por que pessoas com diabetes mal controlado têm risco cardiovascular tão elevado, mesmo quando seus níveis de colesterol não são extremamente altos.

Portanto, a prevenção da aterosclerose deve olhar além do colesterol total ou do LDL sérico isolado. A qualidade metabólica do organismo, especialmente o controle da glicose, é determinante para saber se o LDL se tornará um problema ou não.

Fonte: https://doi.org/10.1080/15548627.2019.1659613

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