Dieta cetogênica no manejo de doenças


Este artigo apresenta os principais achados de uma revisão recente sobre dieta cetogênica (DC) aplicada a diferentes condições crônicas. A revisão descreve como a restrição de carboidratos a níveis geralmente abaixo de 50 g/dia induz cetogênese hepática, elevando β‑hidroxibutirato, acetoacetato e acetona, e promovendo a mudança metabólica do uso de glicose para a oxidação de gorduras e corpos cetônicos. Esses fundamentos, historicamente explorados no tratamento da epilepsia refratária, motivaram novas investigações em doenças cardiometabólicas, neurodegenerativas, psiquiátricas e oncológicas.

Riscos e benefícios cardiovasculares: o que foi observado

Um ponto de atenção recorrente é a elevação de colesterol total, LDL e apolipoproteina B relatada em diversos estudos com DC, preocupação que se soma à marcada variabilidade interindividual: há pessoas com aumentos substanciais, enquanto outras apresentam mudanças menores. Ao mesmo tempo, metanálises recentes descreveram melhoras em HDL, triglicerídeos, glicemia de jejum, insulina, peso e IMC durante intervenções cetogênicas. Assim, o balanço cardiovascular permanece ambíguo e provavelmente modulável por características do indivíduo (como IMC basal).

A revisão sintetiza que, apesar de elevações de LDL serem um achado frequente, o impacto em risco aterosclerótico de longo prazo ainda é incerto e precisa de ensaios clínicos de maior duração e poder estatístico.

Obesidade, resistência à insulina e diabetes tipo 2

Em indivíduos com sobrepeso/obesidade ou DM2, estudos clínicos documentaram redução de peso além da perda hídrica inicial e melhora do controle glicêmico e da sensibilidade à insulina, com relatos de menor necessidade de fármacos hipoglicemiantes em alguns casos. Entretanto, permanece a dúvida sobre o quanto desses efeitos decorre da própria restrição de carboidratos versus do emagrecimento concomitante. Ensaios recentes sugerem respostas tecido‑específicas: melhora da sensibilidade à insulina no músculo esquelético pode ocorrer ao lado de redução da sensibilidade no tecido adiposo, um padrão compatível com adaptações à baixa disponibilidade de carboidratos.

Há também achados contrastantes: em um estudo de curta duração com pessoas com DM2, uma DC isocalórica por 10 dias não melhorou a sensibilidade à insulina ou a tolerância à glicose, sugerindo que tempo de intervenção, fenótipo clínico e perda de peso podem ser determinantes para os desfechos metabólicos.

Doenças neurodegenerativas

A revisão reúne evidências de que a DC pode apoiar a função cerebral ao fornecer substrato energético alternativo em contextos de hipometabolismo de glicose (como no início da doença de Alzheimer). Em ensaio cruzado randomizado com adultos de meia‑idade com sobrepeso e cognição preservada, três semanas de DC aumentaram em ≈22% o fluxo sanguíneo cerebral global e elevaram BDNF plasmático (≈47%). Tais alterações são congruentes com a hipótese de “resgate energético” cerebral e com a observação de hipoperfusão em fases da doença de Alzheimer.

Em doença de Parkinson, dados preliminares (estudo piloto longitudinal, sem grupo controle) apontaram melhora de sintomas motores e não motores, além de marcadores cardiometabólicos. Apesar de promissores, esses resultados requerem confirmação em ensaios controlados.

Transtornos psiquiátricos

O interesse em “psiquiatria metabólica” levou a intervenções com DC em transtorno bipolar e esquizofrenia. Em estudo piloto, houve reduções de 24–33% em escores de sintomas ansiosos/depressivos e melhora funcional global ao longo de quatro meses, além de ganhos em comorbidades metabólicas. Por serem dados iniciais e sem grupo controle, a revisão enfatiza o caráter preliminar e a necessidade de ensaios clínicos robustos.

Oncologia

No câncer, a DC é avaliada como adjuvante metabólico para reduzir disponibilidade de glicose a células tumorais (efeito Warburg) e, em teoria, poupar tecidos saudáveis via uso de corpos cetônicos. Ensaios e séries iniciais mostram redução de glicemia em pacientes oncológicos sob DC, mas resultados sobre tamanho tumoral, IGF‑1, perfil lipídico, peso e qualidade de vida são inconsistentes ou não significativos. A revisão conclui que a eficácia clínica como adjuvante permanece não comprovada e pode ser específica de subtipos tumorais, já que alguns tumores conseguem utilizar corpos cetônicos para sustentar crescimento.

Mecanismos e adaptações cardíacas: hipóteses em teste

A hipótese do “substrato parcimonioso” propõe que corpos cetônicos fornecem ATP com menor custo de oxigênio do que ácidos graxos. Em estudo com indivíduos com sobrepeso, três semanas de DC reduziram a captação e a oxidação miocárdica de ácidos graxos (~22% e ~30%, respectivamente), sem alterar o consumo de oxigênio ou a eficiência miocárdica. Observou‑se, porém, aumento de ≈35% na esterificação lipídica no miocárdio; se mantida cronicamente, essa mudança poderia ter implicações adversas — hipótese que exige acompanhamento prolongado.

Limitações transversais dos estudos

Segundo a revisão, a literatura atual apresenta limitações que impedem recomendações clínicas amplas fora da epilepsia:

  • Duração curta das intervenções;
  • Protocolos heterogêneos (clássica, mediterrânea cetogênica, modificada, etc.);
  • Aderência difícil no longo prazo;
  • Desfechos pouco padronizados e, muitas vezes, substitutos;
  • Riscos potenciais de elevação de LDL e lacunas de micronutrientes quando não há supervisão nutricional.

O que esta revisão permite afirmar, com base nas evidências

  • Há sinal de benefício da DC em peso corporal, sensibilidade à insulina e marcadores glicêmicos em populações com excesso de peso e/ou DM2, embora a magnitude e a durabilidade variem e dependam do desenho do estudo.
  • Em neurodegeneração, existem melhoras cognitivas e aumento de perfusão cerebral em estudos controlados de curto prazo; a tradução em desfechos clínicos duros (progressão funcional) carece de comprovação.
  • Em psiquiatria, os dados são preliminares e apoiam ensaios maiores.
  • Em câncer, o racional metabólico é consistente, mas a eficácia clínica como adjuvante permanece não demonstrada e pode variar por tipo tumoral.
  • Segurança cardiovascular de longo prazo: questão em aberto, com ênfase na necessidade de ensaios de longa duração e desfechos clínicos (eventos cardiovasculares).

Implicações práticas

Quando considerada em contextos clínicos específicos, a aplicação deve ser individualizada, monitorada e temporalmente limitada até que ensaios randomizados, de longo prazo e com desfechos clínicos estejam disponíveis. Prioriza‑se a supervisão profissional, a adequação de micronutrientes e a vigilância de lipídios plasmáticos.

Conclusão

A DC desponta como intervenção nutricional promissora em áreas cardiometabólicas, neurodegenerativas, psiquiátricas e oncológicas, mas o estado atual da ciência não sustenta recomendações clínicas generalizadas. A agenda de pesquisa proposta inclui ensaios maiores, padronização de protocolos e desfechos clinicamente relevantes (eventos cardiovasculares, progressão de doença, controle glicêmico sustentado), para que a relação entre benefícios potenciais e riscos seja estabelecida com maior segurança.

Fonte: https://doi.org/10.1097/MCO.0000000000001158

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