A COVID longa (LC) pode durar meses ou anos e comprometer atividades básicas do dia a dia. Fadiga, “névoa mental” e piora após esforços são relatos frequentes. Diante da falta de tratamentos comprovados, um grupo de pesquisadores conduziu o primeiro ensaio clínico randomizado que comparou duas estratégias de jejum intermitente, ambas acompanhadas de uma dieta sem adição de açúcar, para verificar se esses métodos reduzem sintomas relatados por pessoas com LC. O estudo foi publicado na Scientific Reports e registrado na ClinicalTrials.gov (NCT06214455) (link do artigo no final).
O que o estudo quis descobrir
A pergunta central foi direta: um protocolo mais intenso de jejum intermitente (incluindo um jejum de água de 23–60 horas, uma vez por semana, somado a uma janela alimentar diária de 8 horas) reduz mais os sintomas da COVID longa do que um protocolo mais leve (janela alimentar diária de 10–12 horas), quando ambos são combinados a uma dieta sem açúcar adicionado?
Como o estudo foi feito
- Desenho: ensaio clínico randomizado, cruzado (cada participante fez os dois tratamentos em sequência). Duração total de 10 semanas: 2 semanas de “run-in” (adaptação) com dieta sem açúcar e janela de 10–12h, seguidas de duas fases de 4 semanas cada (uma com o protocolo leve e outra com o mais intenso, em ordem aleatória).
- Protocolos comparados:
- TRE “leve” (Time-Restricted Eating): 10–12 horas de janela para comer por dia, água fora da janela.
- Fasting “intenso”: 8 horas de janela alimentar diária + 1 jejum de água semanal de 23–60 horas (meta de 36 h “noite-dia-noite” ou 60 h “3 noites, 2 dias”).
- Amostra: 424 pessoas foram pré‑triadas; 105 passaram à triagem/consentimento; 96 se inscreveram; 58 completaram as 10 semanas e entraram na análise principal. A randomização foi simples (par/ímpar do identificador no REDCap).
- Quem podia participar: 18–69 anos, ≥5 sintomas comuns de LC, residir nos EUA e concordar em suspender suplementos ligados à autófago. Principais exclusões: IMC <20, gravidez/amnamentação, infecção por SARS-CoV‑2 nos 45 dias prévios, diabetes e histórico de transtorno alimentar.
- Avaliações: sintomas semanais por questionários on-line. Desfechos primários: (1) escore de gravidade de sintomas (LC‑Score) e (2) número de sintomas (numLCsym), comparando as 4 semanas de cada protocolo.
O que eles encontraram (principais resultados)
- Superioridade do jejum mais intenso: durante as 4 semanas de Fasting, a redução média do LC‑Score foi maior do que nas 4 semanas de TRE leve (p = 0,008). O número de sintomas (numLCsym) caiu −5,0 no Fasting versus −1,4 no TRE (p = 0,002).
- Efeito cumulativo em 10 semanas (dieta sem açúcar + TRE + Fasting): LC‑Score médio caiu 51,8% (de 37,8 para 18,2; p < 0,0001), e o numLCsym caiu 40,6% (de 20,5 para 12,2; p < 0,0001).
- Duração típica dos jejuns semanais no protocolo intenso: mediana 38 h, média 42 h.
Sintomas: frequência e melhora
No início, sintomas como fadiga, mal‑estar pós‑esforço (PEM) e dificuldade de concentração/“brain fog” eram muito prevalentes. Ao longo do estudo, houve reduções tanto na gravidade quanto na presença dos sintomas, com tendência de primeiro reduzir a intensidade e, depois, desaparecerem em parte dos participantes. Ao final de 10 semanas, a média de frequência dos 28 sintomas acompanhados caiu de 59,5% para 34,5%.
Segurança e eventos adversos
- Sem eventos graves de segurança atribuídos ao tratamento ao nível populacional do estudo. Um caso de internação por pleurisia ocorreu após um jejum de 38 h; a equipe classificou 14 de 47 eventos como “provavelmente” ou “possivelmente” relacionados ao Fasting, mas ninguém desistiu por eventos adversos.
- Perda de peso: média de −1,2 kg/m² de IMC em 10 semanas (aprox. −4,6% do IMC), com quedas médias de peso pequenas em cada fase (run‑in, TRE e Fasting). Quatro participantes terminaram com IMC 18,5–20 kg/m².
- Observação importante dos autores: a melhora não pareceu depender apenas de “balanço energético negativo” (ingestão/dispêndio calórico), já que houve bons respondedores sem perda ponderal relevante e maus respondedores que perderam mais peso. (Síntese baseada na discussão dos resultados.)
Para quem pode funcionar melhor (achados exploratórios)
Algumas características basais associaram‑se a melhores respostas em 10 semanas:
- Idade menor que 47,5 anos (redução média maior do LC‑Score; p = 0,004).
- > 4.500 passos/dia no basal (p = 0,008), sugerindo maior reserva funcional.
- Início dos sintomas até 2 semanas após vacinação (p = 0,019) e início na onda Ômicron ou depois (p = 0,029).
- Menos “flare‑ups” não relacionados ao jejum (p = 0,030) e ausência de insônia moderada/grave (p = 0,010).
- Por outro lado, sexo, IMC basal, LC‑Score inicial, número inicial de sintomas e duração da LC não mostraram associação com melhor resposta.
Limitações reconhecidas pelos autores
- Sem biomarcadores: os desfechos foram autorrelatos de sintomas, por falta de testes validados para LC.
- Sem seguimento pós‑intervenção: não se sabe a durabilidade dos ganhos após as 10 semanas.
- Cegamento inviável e possível viés por mudanças não controladas fora dos protocolos (mesmo com desenho cruzado).
Como interpretar, de forma prática e sem exageros
A narrativa dos dados é objetiva: as duas estratégias (com dieta sem açúcar) reduziram sintomas, mas o protocolo mais intenso — janela diária de 8 h + jejum de água de 23–60 h 1x/semana — foi superior na janela de 4 semanas de comparação direta. Em 10 semanas, os participantes, em média, diminuíram pela metade a gravidade global de sintomas. Trata‑se de evidência clínica inicial e randomizada sugerindo que manipular rotinas de alimentação/jejum pode beneficiar sintomas da COVID longa, com perfil de segurança aceitável no contexto estudado. Novos ensaios, ideais com biomarcadores e acompanhamento mais longo, são necessários para confirmar e qualificar esses resultados.
O protocolo em poucas linhas (para entender o que foi testado)
- Dieta: sem açúcar adicionado ao longo de todo o estudo.
- TRE “leve”: 10–12 h para comer por dia.
- Fasting “intenso”: 8 h para comer por dia + 1 jejum de água semanal de 23–60 h (meta de 36 h).
- Duração total: 10 semanas (2 de adaptação + 4 + 4).
- Medições: sintomas semanais; desfechos combinavam gravidade e contagem de 60 sintomas.
Conclusão
Para um público leigo, a mensagem é: jejum intermitente estruturado, especialmente com um jejum semanal de 1–2 dias apenas com água, associado a uma dieta sem açúcar, mostrou reduções clinicamente relevantes nos sintomas de COVID longa, superando uma abordagem mais branda de janela alimentar. Esses dados não substituem avaliação médica individual, mas indicam um caminho promissor que merece ser discutido com profissionais de saúde e investigado em ensaios maiores e com biomarcadores.
Fonte: https://doi.org/10.1038/s41598-025-07461-0
