Novos dados do estudo KETO-CTA: O que a ciência revelou sobre colesterol alto em dietas cetogênicas


Desde que a dieta cetogênica passou a ser mais estudada, um fenômeno intrigante começou a chamar a atenção: algumas pessoas, ao adotar esse estilo alimentar, apresentam uma elevação acentuada do colesterol LDL, enquanto mantêm triglicerídeos muito baixos e HDL alto. Esse grupo recebeu o nome de “Lean Mass Hyper-Responders” (LMHRs) — em tradução livre, “hiper-respondedores de massa magra”.

A hipótese tradicional da cardiologia, conhecida como hipótese lipídica, afirma que quanto maior o LDL circulante, maior será o risco de progressão da aterosclerose, de forma dose-dependente. Ou seja, quanto mais alto o LDL, mais rápido e mais intenso seria o acúmulo de placas nas artérias.

Para investigar se essa lógica se aplica também aos indivíduos LMHRs em dieta cetogênica, foi desenvolvido o estudo Keto-CTA. A pesquisa foi inédita em vários aspectos: envolveu tecnologia de ponta em imagem cardiovascular, múltiplas equipes independentes de análise e uma variação de colesterol nunca antes registrada em estudos prospectivos de imagem.

Como o estudo foi desenhado

  • Participantes: 100 adultos classificados como LMHRs.
    • Critérios de entrada: LDL ≥ 190 mg/dL, HDL ≥ 60 mg/dL e triglicerídeos ≤ 80 mg/dL.
  • Método de acompanhamento: cada voluntário realizou uma angiotomografia coronária (CTA) no início e uma segunda após 1 ano.
  • Total de exames analisados: 200.
  • Objetivo principal: verificar se níveis muito altos de LDL estariam associados à progressão de placas coronárias.

Métodos de análise das imagens

Um dos pontos mais fortes do estudo foi a decisão de não depender de um único método de avaliação, mas de aplicar quatro análises independentes sobre os mesmos exames:

Semi-quantitativa (Dr. Budoff e equipe)

  • Leitura por especialistas cegados com apoio de software.
  • Método clássico usado em grandes estudos de aterosclerose.

Quantitativa – Cleerly

  • Plataforma de inteligência artificial com grande repercussão midiática.
  • Primeira análise quantitativa recebida.

Quantitativa – QAngio

  • Este foi o método pré-especificado no protocolo do estudo.
  • Mais trabalhoso: exige 2 a 3 horas de análise por exame.

Quantitativa – HeartFlow

  • Adicionado após divergências nos resultados do Cleerly.
  • Empresa consolidada, com mais de 600 publicações científicas.
  • Avaliação totalmente cegada, garantindo imparcialidade.

Nenhum estudo anterior de imagem cardiovascular havia passado o mesmo conjunto de exames por quatro equipes independentes de análise.

Resultados principais

1. Diferenças entre análises relativas e absolutas

  • Quando se olha para percentuais de mudança relativa, os resultados divergem muito:
    • Cleerly mostrou aumento médio de +80,6% no volume de placas não calcificadas.
    • QAngio mostrou +39,8%.
    • HeartFlow mostrou apenas +6,3%.
  • Porém, quando se observa o aumento absoluto em volume (mm³) — a medida considerada mais robusta — HeartFlow e QAngio ficaram em concordância, mostrando aumento muito pequeno (cerca de 5,5 mm³).

2. Regressão de placas

  • Tanto a análise semi-quantitativa quanto HeartFlow e QAngio detectaram casos de regressão de placas.
  • Essa regressão foi confirmada por especialistas em imagem, como o Dr. Budoff, ao comparar imagens de um mesmo participante antes e depois.
  • O único método que não mostrou nenhuma regressão foi o Cleerly — o que levanta dúvidas, já que todos os estudos de imagem em larga escala relatam pelo menos alguns casos de regressão, mesmo em grupos placebo.

3. Associação com LDL e ApoB

  • Em todas as análises (menos Cleerly), não houve qualquer associação entre níveis de LDL ou ApoB e progressão de placas.
  • Isso contradiz diretamente a hipótese lipídica, que prevê uma relação linear e dose-dependente.

4. Amplitude dos níveis de LDL

  • Os participantes tinham LDL extremamente variado: de 49 mg/dL até 591 mg/dL.
  • Isso derruba a crítica de que o estudo não teria contraste suficiente de exposição (“todos com LDL alto demais”).
  • Segundo o autor, esse é o maior espectro de LDL já registrado em um estudo prospectivo de imagem coronária.

Perfil dos participantes

Embora muitos críticos tenham sugerido que o estudo só incluiu pessoas “extremamente saudáveis”, isso não é verdade.

  • Alguns tinham CAC elevado já no início.
  • Vários apresentavam HbA1c até 6,1% ou glicemia de jejum entre 100–116 mg/dL.
  • Outros tinham PCR ultra-sensível elevada.
  • Muitos recorreram à dieta cetogênica justamente para tratar obesidade, hipertensão ou diabetes.

Ou seja, o grupo não era composto apenas por atletas saudáveis, mas por indivíduos mais próximos da realidade clínica.

Conclusões do estudo

  1. Evidência de regressão de placas foi confirmada em parte dos participantes.
  2. Pequeno aumento médio de placas no grupo como um todo, algo esperado em adultos de meia-idade em acompanhamento de um ano.
  3. Nenhuma associação entre LDL ou ApoB e progressão de placas em todas as análises independentes, exceto Cleerly.
  4. A crítica de “falta de contraste” não se sustenta, pois houve amplitude inédita de LDL.

O que isso significa (e o que não significa)

  • Não significa que LMHRs estejam isentos de risco cardiovascular.
  • Também não significa que LDL elevado seja sempre inofensivo.
  • O que os dados mostram é que, nesse grupo específico em dieta cetogênica, a relação direta entre LDL e aterosclerose não se confirmou.
  • A presença de casos de regressão desafia a ideia de que níveis altíssimos de LDL seriam necessariamente sinônimo de progressão rápida de placas.

Próximos passos

  • O estudo terá uma extensão com novo acompanhamento dos mesmos participantes.
  • O grupo também prepara o Triad Study, com objetivo ainda mais ambicioso de investigar risco cardiovascular em diferentes contextos de dieta cetogênica.

Considerações finais

O Keto-CTA é um marco na pesquisa nutricional e cardiovascular porque:

  • Questiona diretamente a hipótese lipídica tradicional.
  • Mostra que o simples aumento do LDL, em contexto de dieta cetogênica, não se traduz automaticamente em maior risco de progressão da aterosclerose.
  • Introduz na literatura médica um exemplo de ciência cidadã levada ao mais alto rigor técnico, com múltiplas análises independentes e transparência de dados.

Ainda há muito a aprender sobre os LMHRs e sobre como o metabolismo responde em dietas ricas em gordura animal. Mas os resultados já deixam claro que a narrativa simplista “colesterol alto = mais doença” não se sustenta em todos os contextos.

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