Dieta à base de plantas e risco de osteoporose: revisão sistemática e meta-análise


Nos últimos anos, dietas à base de plantas — incluindo vegetarianismo e veganismo — ganharam grande popularidade como alternativas para promoção da saúde e prevenção de doenças crônicas. Entretanto, cresce a preocupação sobre os efeitos desse padrão alimentar na saúde óssea, especialmente em relação à osteoporose. A osteoporose é uma condição caracterizada pela perda progressiva de massa óssea e deterioração estrutural, aumentando o risco de fraturas e mortalidade.

O estudo conduzido por Zheng e colaboradores, publicado em 2025 na revista Clinical Nutrition (doi:10.1016/j.clnu.2025.05.023), reuniu os dados disponíveis para avaliar de forma sistemática se a adesão a dietas à base de plantas está associada a maior risco de osteoporose.

Métodos

Os autores realizaram uma revisão sistemática e meta-análise registrada no PROSPERO, utilizando as diretrizes PRISMA. Foram pesquisados artigos nas bases PubMed, Embase, Web of Science, Scopus e ProQuest até junho de 2024.

Foram incluídos 20 estudos observacionais (16 transversais e 4 caso-controle), envolvendo 243.366 participantes. A densidade mineral óssea foi avaliada em dois sítios principais: coluna lombar (LS) e colo do fêmur (FN), considerados os locais mais sensíveis para o diagnóstico de osteoporose.

A qualidade metodológica dos estudos foi avaliada, sendo classificada em pobre, regular ou boa. A maioria dos trabalhos foi considerada de baixa a média qualidade, o que já representa uma limitação importante.

Resultados principais

A meta-análise encontrou uma associação significativa entre dieta à base de plantas e maior risco de osteoporose na coluna lombar:

  • Coluna lombar (LS): OR 2,44 (IC95%: 1,12–5,33; p = 0,02).
  • Colo do fêmur (FN): OR 1,91 (IC95%: 0,68–5,42; p = 0,22) – não significativo.

Subanálises:

  • Veganos: risco aumentado em LS (OR 1,45; IC95%: 1,00–2,12; p = 0,05) e tendência em FN.
  • Lacto-ovo-vegetarianos: tendência em LS (OR 2,68; IC95%: 0,96–7,49).
  • Adesão ≥10 anos: risco mais forte em FN (OR 1,79; IC95%: 1,29–2,49; p < 0,01), além de sinal em LS.
  • Idade ≥60 anos: risco aumentado em FN (OR 1,79; IC95%: 1,29–2,49).

Mesmo com elevada heterogeneidade, os dados apontam para maior vulnerabilidade óssea em veganos, idosos e indivíduos com adesão prolongada a dietas estritamente vegetais.

Mecanismos discutidos

Os autores sugerem que a maior probabilidade de osteoporose pode estar relacionada a deficiências nutricionais comuns em padrões estritamente vegetais, tais como:

  • Vitamina B12: sua ausência eleva a homocisteína, que aumenta a reabsorção óssea e reduz a formação de tecido ósseo.
  • Proteína de alta qualidade: ingestão insuficiente pode comprometer a massa óssea, especialmente em idosos.
  • Vitamina D e cálcio: fundamentais para mineralização óssea, mas frequentemente consumidos em quantidades insuficientes.
  • Ácidos graxos ômega-3: nutrientes relevantes para saúde óssea e inflamação, menos disponíveis em dietas veganas.

Limitações

Apesar do alerta levantado, o estudo apresenta algumas restrições importantes:

  1. Heterogeneidade elevada entre os trabalhos (I² > 90%), refletindo diferenças metodológicas.
  2. Predomínio de estudos transversais, que não permitem estabelecer causalidade.
  3. Qualidade metodológica limitada: apenas 2 dos 20 estudos foram classificados como bons.
  4. Classificação dietética baseada em autorrelato, sujeita a vieses.
  5. Fatores confundidores (atividade física, IMC, exposição solar, uso de álcool e tabaco) nem sempre foram ajustados adequadamente.

Conclusões dos autores

A análise conclui que dietas à base de plantas, especialmente o veganismo e a adesão de longo prazo, estão associadas a maior risco de osteoporose, sobretudo na coluna lombar.

Os autores recomendam que indivíduos que seguem esse padrão alimentar realizem:

  • Monitoramento regular da densidade mineral óssea;
  • Planejamento alimentar cuidadoso, assegurando a ingestão adequada de cálcio, vitamina D, vitamina B12 e proteínas;
  • Suplementação ou alimentos fortificados, quando necessário, para reduzir o impacto negativo sobre a saúde óssea.

Considerações finais

Este trabalho reforça que a escolha de uma dieta estritamente vegetal, embora traga benefícios em outras áreas da saúde, pode implicar riscos relevantes para o esqueleto, principalmente em pessoas idosas ou com mais de 10 anos de adesão. A prevenção da osteoporose nesse grupo exige cautela, acompanhamento clínico e estratégias de correção nutricional.

Assim, a mensagem central é clara: a adoção de dietas à base de plantas não é isenta de riscos, e o cuidado com nutrientes críticos é indispensável para proteger a saúde óssea ao longo da vida.

Fonte: https://doi.org/10.1016/j.clnu.2025.05.023

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