Este documento é fruto de busca sistemática e síntese crítica da literatura recente. O próprio parecer registra que não há benefícios comprovados à saúde infantil associados à dieta vegana e que a evidência sobre crescimento adequado é inconclusiva; além disso, recomenda acompanhamento pediátrico e de nutricionista, com suplementação obrigatória de micronutrientes específicos, incluindo vitamina B12.
Principais pontos negativos identificados
1) Ausência de benefícios comprovados e incerteza quanto ao crescimento
O parecer afirma que não existem benefícios de saúde comprovados da dieta vegana na infância. Também considera inconclusiva a evidência de que esse padrão alimentar sustente crescimento adequado. Em vista disso, reforça a necessidade de monitorização regular de ingestão, crescimento e estado nutricional.
Em medidas objetivas, um estudo encontrou menor escore de desvio-padrão de altura (SDS) em crianças veganas de 5–10 anos, e outro descreveu menor altura absoluta em adolescentes, ainda que sem padronização por idade/sexo. Em análise com lactentes e crianças pequenas, sinalizou-se maior risco de déficit estatural (que perdeu significância após ajuste), com lacunas relevantes sobre se houve aconselhamento nutricional profissional.
2) Saúde óssea: menor conteúdo mineral ósseo
Em avaliação de densitometria, crianças veganas apresentaram percentuais inferiores de conteúdo mineral ósseo (CMO) lombar (Δ −5,6; IC95%: −10,6 a −0,5) e de corpo total (Δ −3,7; IC95%: −7,0 a −0,4) em comparação a onívoros (p<0,05). Esse achado sugere desvantagem para a saúde óssea infantil no contexto vegano.
3) Vitaminas D e B12: níveis mais baixos e maior risco de deficiência
Vitamina D. Três estudos mostraram níveis séricos mais baixos e maior prevalência de deficiência em crianças veganas, inclusive entre suplementadas; em uma coorte finlandesa, a 25(OH)D foi significativamente menor nos veganos apesar de exposição solar e suplementação. O parecer observa ainda a ausência de informação sobre o tipo de vitamina D utilizada (D2 vs. D3), ponto que pode influenciar a resposta.
Vitamina B12. De forma consistente, níveis de B12 foram menores em veganos e a prevalência de deficiência foi maior (13% vs. 3,2% em onívoros). Em crianças não suplementadas, a ingestão fica abaixo da ingestão adequada (AI/EFSA), e em uma amostra apenas 4% dos veganos atingiram a AI. Há ainda um risco de níveis excessivamente elevados entre veganos suplementados, o que expõe a necessidade de acompanhamento laboratorial e ajuste de dose.
4) Ferro: estoques mais baixos e anemia leve
Os estoques de ferro (ferritina) tendem a ser mais baixos em crianças e adolescentes veganos, com maior proporção de anemia leve e depleção de estoques em comparação a onívoros (p.ex., 6% vs. 0% de anemia; 30,2% vs. 12,8% com estoques depletados). A literatura sugere risco de depleção de ferro entre veganos, embora a prevalência de anemia varie.
5) Iodo, cálcio e selênio: ingestão/estado comprometidos
Iodo. Foi relatada maior prevalência de deficiência de iodo em crianças veganas (41,9% vs. 19,6%), com menor concentração urinária de iodo; outro estudo não confirmou a diferença, mas o sinal de risco permanece.
Cálcio. Duas investigações mostraram ingestão de cálcio mais baixa em veganos; apenas metade dos participantes veganos atingiu o valor de referência, e meta-análises apontam que a ingestão total de cálcio frequentemente fica abaixo da EAR (necessidade média estimada), inclusive quando há fortificação/suplementação.
Selênio. Observou-se ingestão diária menor e maior proporção de crianças veganas abaixo da AI/EFSA quando comparadas a onívoras.
6) Proteína: qualidade e digestibilidade inferiores
O parecer ressalta que, além da quantidade, a qualidade da proteína vegetal (perfil de aminoácidos essenciais) e a digestibilidade são inferiores às da proteína animal, o que pode elevar a necessidade proteica de crianças e adolescentes veganos em relação às recomendações para a população geral.
7) “Dieta completa” depende de suplementação e fortificação
A posição oficial é clara: a dieta vegana não é completa por si só e requer suplementação de micronutrientes para evitar deficiências (com destaque para vitamina B12 de obtenção alimentar exclusivamente animal). O documento lembra parâmetros laboratoriais aceitos (NICE) para confirmar deficiência de B12, reforçando o caráter clínico-laboratorial do acompanhamento.
8) Lactentes e introdução alimentar: restrição sem supervisão é desaconselhada
A ESPGHAN (2017) já havia recomendado que, na fase de introdução alimentar, todos os lactentes recebam alimentos ricos em ferro (incluindo carne) e que dietas veganas não sejam adotadas na infância sem supervisão médica e nutricional adequada. O parecer atual reforça a necessidade de aconselhamento especializado contínuo.
Limitações metodológicas que aumentam a incerteza
O corpo de evidências disponível é dominado por estudos observacionais, com heterogeneidade de critérios (p.ex., definição de deficiência de ferro/B12, uso e dose de suplementos) e ausência de dados sobre se as famílias receberam ou não orientação profissional. Por isso, mesmo quando não há diferenças francas em alguns desfechos, a qualidade da evidência é baixa, e não é possível confirmar que dietas veganas sejam nutricionalmente completas para sustentar crescimento e desenvolvimento sem monitorização e suplementação.
Implicações práticas negativas apontadas
- Adoção exige rastreio laboratorial e suplementos obrigatórios (B12; frequentemente D; ferro e cálcio conforme avaliação).
- Risco aumentado de deficiências específicas (B12, D, ferro/estoques, iodo; além de cálcio e selênio por ingestão inferior).
- Desvantagem óssea (CMO menor) e sinais de menor altura absoluta em alguns grupos/idades.
- Qualidade/digestibilidade proteica inferiores podem demandar ingestão maior de proteína para atingir adequação.
- Na introdução alimentar, não é recomendado adotar dieta vegana sem supervisão especializada.
