Conectando a saúde de plantas, animais e humanos usando metabolômica não direcionada


Pesquisadores da Nova Zelândia e dos Estados Unidos publicaram um estudo inovador no Journal of Animal Science mostrando algo simples, mas pouco discutido: o que o boi come influencia não só a carne, mas também o metabolismo humano logo após o consumo.

Como foi o estudo

Os cientistas criaram três tipos de pasto para bois Angus:

  1. Convencional (PRG) – baseado em azevém perene e trevo branco.
  2. Mistura complexa (CMS) – cerca de 22 a 24 espécies diferentes de plantas.
  3. Faixas lado a lado (AMS) – parcelas separadas de chicória, plantago, alfafa, trevo-vermelho e azevém.

Os animais permaneceram nesses pastos por aproximadamente 120 dias. Em seguida, sua carne foi transformada em hambúrgueres de 250 g.

No ensaio clínico, 23 voluntários com distúrbios metabólicos consumiram, em semanas diferentes e de forma aleatória e cega, hambúrgueres de cada grupo. Antes e até cinco horas depois da refeição, os pesquisadores coletaram sangue e mediram glicose, colesterol, pressão arterial e centenas de moléculas por meio de metabolômica não direcionada.

O que encontraram

  • A carne dos bois criados em faixas lado a lado (AMS) apresentou mais vitamina E (na forma γ-tocoferol) e mais ômega-3 (EPA) em comparação às demais.
  • Após o consumo dessa carne, os voluntários tiveram aumento no sangue desses mesmos compostos em poucas horas.
  • A resposta foi específica: não houve mudanças relevantes em glicose, triglicerídeos ou colesterol total no curto prazo.
  • Porém, pequenas variações apareceram: pressão arterial sistólica ligeiramente mais alta e tendência de LDL mais elevado após o hambúrguer de AMS. Essas alterações precisam ser confirmadas em estudos de maior duração.

O que isso significa

De forma clara: há um elo rastreável entre o que está no pasto, o que aparece na carne e o que surge no sangue de quem consome.

Isso mostra que não faz sentido tratar toda carne como “igual”. A diversidade do pasto pode mudar a composição de nutrientes e antioxidantes da carne, o que se reflete na circulação humana logo após a refeição.

Limitações do estudo

  • O número de participantes foi pequeno (23 pessoas).
  • A observação foi aguda (apenas até 5 horas depois da refeição).
  • Muitos compostos detectados pela metabolômica ainda são classificados como “tentativos”, sem identificação plena.

Portanto, ainda não é possível afirmar benefícios ou riscos de longo prazo. O que se pode dizer é que a dieta do boi deixa marcas mensuráveis no nosso organismo imediatamente após a refeição.

Conclusão

Este estudo é pioneiro em mostrar, com ferramentas modernas de análise, que a saúde do solo e a diversidade de plantas no pasto se conectam à saúde humana. A mensagem é simples: o que o animal come importa para quem consome sua carne.

Fonte: https://doi.org/10.1093/jas/skaf254

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