Consumo de laticínios e risco de desfechos cardiovasculares e de saúde óssea em adultos: uma revisão guarda-chuva e meta‑análises atualizadas


Este trabalho avaliou, de forma sistemática, a relação entre o consumo de laticínios e desfechos de saúde cardiovascular e óssea em adultos, reanalisando meta‑análises previamente publicadas e incorporando estudos de coorte prospectivos mais recentes.

Por que isso importa

Doenças cardiovasculares continuam sendo a principal causa de morte no mundo, enquanto osteoporose e fraturas por fragilidade comprometem qualidade de vida e independência na velhice. Dieta é um fator modificável relevante em ambas as condições. Laticínios reúnem proteínas de alta qualidade, cálcio, potássio, magnésio e, em muitos países, vitamina D (via fortificação), mas também contêm gorduras saturadas em diferentes proporções. Assim, é pertinente avaliar se tipos específicos de laticínios — leite, iogurte, queijo e manteiga — se associam de modo distinto a riscos cardiovasculares e à saúde óssea. É exatamente essa síntese que a revisão guarda‑chuva em pauta se propôs a realizar (link).

Como o estudo foi conduzido

Os autores seguiram as diretrizes PRISMA e avaliaram a qualidade metodológica das revisões com a lista de verificação da Joanna Briggs Institute (JBI). Foram incluídas 33 meta‑análises (26 sobre desfechos cardiovasculares e 7 sobre saúde óssea) e, para desfechos cardiovasculares, realizaram‑se meta‑análises atualizadas com modelos de efeitos aleatórios. Mediram‑se heterogeneidade (I²), intervalos de predição, vieses de pequenos estudos e “excesso de significância”, além de uma classificação da credibilidade (convincente, altamente sugestiva, sugestiva, fraca ou não significativa), conforme padrões adotados em revisões guarda‑chuva. 

Principais achados em saúde cardiovascular

Risco cardiovascular total (CVD)

  • Laticínios totais: associação inversa discreta (RR 0,96; IC95% 0,93–0,99). O intervalo de predição incluiu o nulo, e a credibilidade foi classificada como fraca. Ou seja, o efeito médio favorece leve redução de risco, mas pode não se reproduzir em todos os contextos.
  • Leite: redução modesta (RR 0,97; IC95% 0,94–1,00) com sinais de viés de pequenos estudos nas análises de sensibilidade; após correções, o efeito perde significância. Credibilidade fraca.
  • Iogurte: associação inversa (RR 0,92; IC95% 0,87–0,98), heterogeneidade baixa, mas intervalo de predição cruzando o nulo. Credibilidade fraca.

Doença coronariana (CHD)

  • Laticínios totais, laticínios com baixo teor de gordura e laticínios com alto teor de gordura: sem associação significativa com CHD.
  • Leite: associação pequena com aumento de risco (RR ~1,02; IC95% 1,00–1,04), efeito muito próximo do nulo, com intervalo de predição incluindo o nulo e indícios de excesso de significância. Interpretação cautelosa é recomendada.
  • Iogurte e manteiga: sem associação significativa com CHD.

Acidente vascular cerebral (AVC)

  • Laticínios totais: associação inversa (RR 0,87; IC95% 0,81–0,94). Apesar da magnitude favorável, a heterogeneidade foi alta e o intervalo de predição cruzou o nulo; credibilidade sugestiva quando considerado o conjunto das análises.
  • Leite: associação inversa (RR 0,90; IC95% 0,83–0,98), mas com heterogeneidade muito elevada e sensibilidade mostrando possível influência de viés de publicação; credibilidade fraca.
  • Iogurte: não houve associação significativa com risco de AVC.

Hipertensão

  • Laticínios totais: risco menor (RR 0,89; IC95% 0,85–0,94), com evidência sugestiva quando considerada a força do maior estudo e ausência de viés detectável.
  • Laticínios com baixo teor de gordura: associação protetora (RR 0,87; IC95% 0,81–0,94), com intervalo de predição excluindo o nulo; credibilidade ainda fraca pelo número de estudos.
  • Laticínios com alto teor de gordura: sem associação significativa.
  • Leite: redução modesta do risco (RR 0,95; IC95% 0,90–1,00), mas com alta heterogeneidade e intervalo de predição incluindo o nulo.

Interpretação clínica: No conjunto, os efeitos observados em cardiovasculares foram de pequena magnitude. A consistência é maior para hipertensão (particularmente com laticínios de baixo teor de gordura) e AVC (para laticínios totais), enquanto para CHD predomina ausência de associação, com um possível efeito desfavorável muito discreto para leite. A própria revisão enfatiza a necessidade de cautela, pois intervalos de predição frequentemente incluem ausência de efeito.

Principais achados em saúde óssea

Nesta dimensão, a heterogeneidade metodológica impediu meta‑análises atualizadas quantitativas; a síntese foi qualitativa. As conclusões centrais foram:

  • Densidade mineral óssea (DMO): evidências de ensaios clínicos e estudos observacionais sugerem benefício pequeno, mais consistente para leite (ganhos modestos em quadril e coluna lombar).
  • Osteoporose: resultados mistos; algumas análises apontam benefício em idosos >70 anos, porém sem consenso ao juntar diferentes desenhos de estudo.
  • Fraturas: associações inconsistentes para laticínios totais e leite. Em contrapartida, queijo e iogurte apresentaram associações mais consistentes com menor risco de fraturas (principalmente não quadril), embora ainda fundamentadas majoritariamente em estudos observacionais.
  • Marcadores de remodelação óssea: evidências limitadas, mas sugerem que leite pode reduzir marcadores de reabsorção (como CTx e NTx), efeito compatível com desaceleração de perda óssea; os efeitos em marcadores de formação foram variáveis.

Interpretação clínica: A revisão indica que o consumo de laticínios — sobretudo leite para DMO e laticínios fermentados (iogurte, queijo) para fraturas — pode favorecer a saúde óssea, mas os resultados não são uniformes. A magnitude de benefício é pequena e dependente do desfecho avaliado.

O papel do tipo e do teor de gordura

Os resultados reforçam que “laticínios” não são um bloco único. Diferenças por tipo (leite, iogurte, queijo, manteiga) e por teor de gordura importam:

  • Em cardiovasculares, laticínios com baixo teor de gordura se associaram de forma mais consistente à menor hipertensão.
  • Para AVC, a associação inversa apareceu com laticínios totais; já CHD mostrou predominantemente ausência de associação.
  • Em ósseo, fermentados (iogurte e queijo) tiveram sinais mais consistentes de proteção para fraturas do que leite.

Forças, limitações e credibilidade da evidência

A revisão aplicou critérios rigorosos (JBI, avaliação de viés, intervalos de predição e classificação de credibilidade), incorporando estudos de coorte recentes. Ainda assim:

  • Para cardiovasculares, nenhuma associação alcançou evidência “convincente” ou “altamente sugestiva”; muitas ficaram em fraca.
  • Para ósseo, a heterogeneidade de métodos e desfechos limitou conclusões firmes e impediu atualização quantitativa.
  • A maioria das evidências deriva de estudos observacionais, sujeitos a confundimento residual. Ensaios clínicos com desfechos duros (p.ex., fratura) ainda são escassos.
  • (Detalhes em Nutrients 2025;17:2723.)

O que este conjunto de evidências permite afirmar

  1. Risco cardiovascular: Há sinais modestos de benefício para AVC e hipertensão, especialmente com laticínios de baixo teor de gordura; para CHD, prevalece neutralidade.
  2. Saúde óssea: Leite pode modestamente favorecer DMO e reduzir marcadores de reabsorção; iogurte e queijo mostram associações mais consistentes com menor risco de fraturas (não quadril).
  3. Magnitude e consistência: Os efeitos são pequenos e, muitas vezes, não se reproduzem em todos os cenários (intervalos de predição).
  4. Implicação prática segundo a revisão: Diferenciar tipos de laticínios e teor de gordura parece mais informativo do que tratar laticínios como uma categoria única. O próprio artigo sugere dar ênfase a opções com menor teor de gordura quando o objetivo é reduzir risco cardiovascular.

Conclusão em linguagem direta

Com base nesta revisão guarda‑chuva com meta‑análises atualizadas, o consumo de laticínios em adultos não se associa a grandes mudanças de risco, mas pode contribuir, de forma modesta, para menor risco de AVC e menor incidência de hipertensão, especialmente quando se privilegiam laticínios com baixo teor de gordura. Em saúde óssea, os dados sugerem benefício pequeno em DMO (mais evidente com leite) e associações mais consistentes de iogurte/queijo com menor risco de fraturas em alguns cenários, embora persistam incertezas. A interpretação deve ser cautelosa, pois a credibilidade de muitas associações é fraca e há heterogeneidade relevante entre estudos.

Para decisões individuais, a revisão indica que a escolha do tipo de laticínio e do teor de gordura pode ser mais importante do que “aumentar laticínios” de forma indiscriminada — sempre considerando o contexto dietético total, o perfil clínico e as metas de saúde de cada pessoa.

Fonte: https://doi.org/10.3390/nu17172723

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