A relação entre obesidade e câncer já é conhecida há décadas. No entanto, ao longo do tempo, a ênfase quase exclusiva na visão genética do câncer — como resultado de mutações acumuladas — acabou deixando em segundo plano o papel dos fatores metabólicos. Estudos recentes, contudo, vêm resgatando essa perspectiva, destacando a importância da hiperinsulinemia (excesso crônico de insulina no sangue) no desenvolvimento e na progressão tumoral.
Insulina como combustível para o câncer
Em laboratório, é relativamente simples estimular o crescimento de células de câncer de mama: basta fornecer glicose, fatores de crescimento (EGF) e insulina em abundância. Nessas condições, as células proliferam de forma acelerada. Quando a insulina é retirada, muitas delas morrem. Isso acontece porque células tumorais apresentam até 6 vezes mais receptores de insulina do que o tecido mamário saudável, tornando-se dependentes desse hormônio para sobreviver e se multiplicar.
Esse padrão não é exclusivo do câncer de mama. Diversos tumores, como os de cólon, pâncreas e endométrio, também apresentam número aumentado de receptores de insulina. O mecanismo é relativamente claro: o câncer precisa de grande quantidade de glicose para crescer, e a insulina facilita a entrada desse nutriente nas células.
IGF-1: o elo entre insulina e crescimento celular
Outro ponto-chave é a relação da insulina com o fator de crescimento semelhante à insulina 1 (IGF-1), um hormônio que estimula proliferação celular e inibe a morte programada das células (apoptose). Em condições de hiperinsulinemia, os níveis de IGF-1 se elevam, criando um ambiente favorável para o crescimento tumoral. Estudos desde os anos 1980 mostraram que tumores possuem 2 a 3 vezes mais receptores de IGF-1 do que tecidos normais, o que reforça essa dependência.
Pesquisas em animais desde a década de 1940 já haviam observado que restrição alimentar retardava o crescimento de tumores, justamente porque baixos níveis de insulina e IGF-1 reduziam a ativação de vias de crescimento celular.
Genes, insulina e câncer
Descobertas genéticas mais recentes também reforçam a ligação. Mutação no gene PTEN, por exemplo, aumenta o risco de câncer, mas curiosamente reduz o risco de diabetes tipo 2 — justamente por intensificar os efeitos da insulina e reduzir a glicemia. Esse mesmo fenômeno foi observado em varreduras genômicas relacionadas ao câncer de próstata: genes que aumentam risco de câncer muitas vezes estão próximos de genes que regulam o metabolismo da glicose e a proliferação celular.
Assim, emerge uma conclusão importante: o câncer pode ser compreendido, em grande parte, como uma doença de hiperinsulinemia.
Crescimento tumoral: fatores gerais e específicos
Vale destacar que a insulina não é responsável por transformar uma célula normal em cancerosa, mas sim por favorecer o crescimento das células que já se tornaram malignas. Esse é o mesmo raciocínio aplicado em terapias hormonais específicas:
- Câncer de mama pode ser tratado com bloqueio de estrogênio (ex.: tamoxifeno).
- Câncer de próstata responde à redução de testosterona.
De modo semelhante, insulina e IGF-1 funcionam como sinais de crescimento universais, atuando em múltiplos tipos de câncer.
Jejum: um freio natural para as vias de crescimento
Se insulina e IGF-1 são os principais sinalizadores que estimulam o crescimento celular, reduzir seus níveis pode representar uma estratégia adicional contra o câncer. E existe um método simples e gratuito para isso: o jejum.
Durante o jejum, a insulina cai, a síntese de IGF-1 diminui, e o corpo ativa mecanismos como autofagia, processo que elimina células e estruturas celulares danificadas. Essa redução dos sinais de crescimento pode desacelerar a progressão tumoral e criar um ambiente metabólico menos favorável ao câncer.
Conclusão
O entendimento de que o câncer é também uma doença metabólica amplia as possibilidades de prevenção e tratamento. Se fatores como insulina e IGF-1 são cruciais para o crescimento de tumores, práticas que reduzem esses hormônios — como jejum intermitente e restrição calórica controlada — podem se tornar ferramentas valiosas no manejo da doença, em conjunto com as terapias convencionais.
Fonte: https://fung.substack.com/p/fasting-and-hyperinsulinemia
