Recentemente, um estudo publicado em Molecular Nutrition & Food Research afirmou que dietas à base de carne vermelha (de boi, porco e carneiro) agravaram a colite em camundongos. Segundo os autores, o consumo de carne teria promovido acúmulo de células mieloides pró-inflamatórias e alterado a microbiota intestinal. A conclusão final do artigo sugeria que humanos deveriam reduzir o consumo de carne vermelha para prevenir ou atenuar DII.
À primeira vista, a conclusão parece reforçar um discurso já conhecido. No entanto, uma análise cuidadosa da metodologia, dos resultados e do contexto científico mais amplo revela que este estudo tem graves limitações, além de se apoiar em um modelo que não representa o consumo humano de carne vermelha real. Mais ainda: existe uma base sólida de evidências clínicas e translacionais mostrando que dietas centradas em carne vermelha e gordura animal podem induzir remissão da DII em humanos, e não o contrário.
Como o estudo foi conduzido
- Foram usados camundongos C57BL/6J machos, mantidos em condições laboratoriais padronizadas.
- As carnes utilizadas (boi, porco, carneiro) foram tratadas com solventes químicos (diclorometano e metanol) para remoção completa da gordura.
- A proteína resultante foi adicionada a uma dieta padrão AIN-93G, composta por 20% de proteína, 7% de óleo de soja, 39,7% de amido de milho, 10% de sacarose e 5% de maltodextrina.
- O grupo controle recebeu caseína como fonte proteica.
- Após duas semanas de dieta, os animais receberam água com DSS (sulfato de dextrano sódico), um composto conhecido por induzir colite química em roedores.
- Os pesquisadores avaliaram perda de peso, inflamação colônica, histologia, expressão gênica, composição da microbiota e infiltração de células do sistema imune.
Principais falhas metodológicas
1. O estudo não avaliou carne vermelha real
A intervenção não consistiu em oferecer carne tal como consumida por humanos, com sua gordura natural e matriz alimentar intacta. Ao contrário, as carnes foram desengorduradas quimicamente, restando apenas proteína, e misturadas a ingredientes que não fazem parte de uma dieta baseada em alimentos naturais, mas sim de uma dieta processada e inflamatória, rica em óleo de soja, açúcar e amido refinado.
Portanto, o que se testou não foi “carne vermelha”, mas proteína isolada de carne dentro de uma dieta artificial. Isso invalida qualquer tentativa de generalizar os resultados para o consumo humano de carne inteira.
2. Dieta de controle também era inflamatória
O controle usado foi a caseína, proteína do leite. Trabalhos prévios já demonstraram que o excesso de caseína em dietas de camundongos agrava colite induzida por DSS, elevando níveis de citocinas como IL-6 e TNF-α. Dessa forma, a comparação entre grupos perde relevância: tanto a dieta experimental quanto a de controle tinham potencial pró-inflamatório.
3. Curta duração do experimento
O experimento durou apenas duas semanas de alimentação, seguidas de sete dias de colite induzida. Isso não permite observar adaptações metabólicas ou imunológicas de longo prazo, que são essenciais para avaliar o impacto real de uma dieta. Em humanos, doenças inflamatórias intestinais têm evolução crônica, e os efeitos dietéticos só podem ser compreendidos em escalas de meses ou anos.
4. Resultados modestos e inconsistentes
Embora os autores tenham descrito maior infiltração de neutrófilos e macrófagos nos cólons dos camundongos, as alterações em citocinas inflamatórias (IL-6, TNF-α) foram pequenas e em muitos casos não significativas. Além disso, as populações de linfócitos T CD4+ e CD8+, que são centrais na fisiopatologia das DII humanas, não apresentaram diferenças relevantes. Ou seja, a suposta ligação entre carne vermelha e inflamação intestinal foi exagerada em relação à real força dos dados.
5. Microbiota: diversidade preservada
Os índices clássicos de diversidade microbiana (Shannon, Simpson, Chao1) não diferiram entre os grupos. As mudanças relatadas ocorreram apenas em alguns gêneros bacterianos, e mesmo essas alterações podem ter sido consequência da colite induzida pelo DSS, e não da dieta em si.
Os próprios autores reconhecem que o padrão de microbiota observado no grupo carne + DSS não se sobrepõe ao que haviam visto em experimentos anteriores apenas com carne, indicando que grande parte da “disbiose” relatada foi, na verdade, um reflexo da doença e não da alimentação.
6. Extrapolação indevida para humanos
O maior problema do estudo é a tentativa de extrapolar de um modelo curto, artificial e em camundongos para recomendações em humanos. Ao final do artigo, os autores sugerem reduzir carne vermelha como forma de prevenir DII. Esse salto é cientificamente injustificado, uma vez que o modelo usado não representa o consumo humano real e os dados em humanos apontam para conclusões muito diferentes.
O que mostram as evidências clínicas em humanos
Enquanto este estudo em camundongos sugere risco, casos clínicos e intervenções reais em humanos mostram que a carne vermelha pode ser parte essencial da solução para DII.
- Paleomedicina Hungria: O grupo médico húngaro documentou múltiplos casos de pacientes com Crohn e colite ulcerativa em remissão clínica e endoscópica usando a dieta PKD (Paleolithic Ketogenic Diet), baseada em carne vermelha, vísceras e gordura animal. Os pacientes apresentaram cicatrização de mucosa sem necessidade de medicamentos imunossupressores (Paleomedicina).
- Relato de caso publicado em 2016: No International Journal of Case Reports and Images, Tóth et al. descreveram um paciente com doença de Crohn grave que entrou em remissão completa apenas com dieta carnívora, sem suporte medicamentoso. O caso é marcante por mostrar cicatrização intestinal sustentada (IJCRI 2016).
- Revisões em Frontiers in Nutrition: Artigo de 2024 destacou que alimentos de origem animal, incluindo carne vermelha e gordura natural, podem modular positivamente a microbiota intestinal, preservando a integridade da barreira mucosa e reduzindo inflamação em modelos humanos e animais (Frontiers in Nutrition 2024).
- Publicação em Cell Host & Microbe: Pesquisa de 2023 reforça que a quebra da barreira intestinal e fatores ambientais (antibióticos, aditivos, dieta industrializada) são determinantes muito mais fortes para DII do que o consumo de carne vermelha isoladamente (Cell Host & Microbe 2023).
- Estudos revisados em Gastroenterology: Revisões em humanos mostram que a chamada “dieta ocidental”, caracterizada por açúcares refinados, aditivos e óleos vegetais, está fortemente associada à DII. Já a carne, quando analisada isoladamente, não apresenta evidências consistentes de risco, especialmente quando consumida como alimento integral e não como produto ultraprocessado (Gastroenterology 2019).
- Síntese em Current Developments in Nutrition: Artigo de 2024 enfatiza que proteínas animais consumidas em sua matriz natural (carne com gordura) apresentam efeitos completamente diferentes de proteínas isoladas (como caseína ou proteína desengordurada em pó). Isso mostra que o modelo usado no estudo de 2025 não é válido para tirar conclusões sobre carne de verdade (Current Developments in Nutrition 2024).
- Síntese feita por Raphael Sirtoli: reforça que os resultados clínicos em pacientes de Crohn tratados com dieta animal-based são consistentes, e que os verdadeiros vilões são alimentos processados, aditivos químicos e óleos vegetais ricos em ômega-6 (Estilo de Vida Carnívoro 2021).
Conclusão
Este estudo de 2025 que associa carne vermelha ao agravamento da colite em camundongos apresenta uma série de falhas graves:
- usou proteína de carne desengordurada quimicamente, não carne real;
- incluiu ingredientes pró-inflamatórios (óleo de soja, açúcar e amido);
- utilizou caseína como controle, que também induz inflamação;
- teve duração de apenas duas semanas;
- mostrou apenas efeitos modestos e inconsistentes;
- e extrapolou indevidamente para humanos.
Em contraste, as melhores evidências em humanos — desde relatos de caso bem documentados até publicações em periódicos de alto impacto — mostram que dietas centradas em carne vermelha e gordura animal podem levar à melhora significativa e até à remissão completa de doenças inflamatórias intestinais.
A mensagem final é clara: este estudo em camundongos não pode ser usado para justificar recomendações contra o consumo de carne vermelha em humanos. Ao contrário, quando consumida em sua forma natural e dentro de um padrão alimentar adequado, a carne vermelha pode desempenhar papel fundamental na saúde intestinal e no tratamento de doenças inflamatórias.
Fonte: https://doi.org/10.1002/mnfr.70203
*O estudo original completo analisado está disponível na íntegra na newsletter.

