O que é o E-sdLDL-C e por que ele importa
O E-sdLDL-C é uma estimativa — obtida a partir do lipidograma de rotina — da fração de LDL pequeno e denso (sdLDL), considerada mais aterogênica em diversos estudos prospectivos. Técnicas diretas (como ultracentrifugação ou ensaios homogêneos) existem e foram aprovadas para medir sdLDL-C, mas o custo e a complexidade limitam seu uso amplo; por isso, foi desenvolvida uma equação simples que estima o sdLDL-C usando apenas os resultados do painel padrão de lipídios.
Como o cálculo é feito (explicação passo a passo)
Calcular o LDL-C “padrão” (equação de Sampson).A lógica do cálculo é sequencial e usa apenas números do lipidograma comum (CT, HDL-C, TG) e o LDL-C calculado:
No UK Biobank, o LDL-C foi calculado pela equação de Sampson a partir do colesterol total (CT), HDL-C e triglicerídeos (TG) do painel padrão. Essa abordagem foi escolhida por melhor desempenho em diferentes perfis lipídicos, inclusive com TG mais altos.
Estimar a fração “grande e flutuante” do LDL (lbLDL-C).
Em seguida, aplica-se uma equação de regressão previamente derivada que utiliza:
- o LDL-C calculado pela equação de Sampson e um termo de interação entre LDL-C e o logaritmo natural dos TG (ln[TG]).
- Essa conta fornece o lbLDL-C estimado (a porção de LDL maior e menos denso). A planilha de cálculo está disponível publicamente para transparência do método.
Com o LDL-C total (passo 1) e o lbLDL-C estimado (passo 2), calcula-se o sdLDL-C estimado (E-sdLDL-C) simplesmente subtraindo um do outro:
E-sdLDL-C = LDL-C – lbLDL-C (estimado).
Em termos práticos: o que resta do LDL-C depois de descontada a parte “grande e menos densa” corresponde à fração pequena e densa.
Observações metodológicas importantes:
- As equações foram derivadas por mínimos quadrados em uma coorte de desenvolvimento (n=20.171), tendo como padrão de referência o sdLDL-C medido diretamente (ensaio homogêneo Denka).
- O lbLDL-C estimado mostrou alta correspondência com o lbLDL-C medido (R²≈0,86). Já o E-sdLDL-C apresentou correlação moderada (R²≈0,74) com o sdLDL-C direto, refletindo que os métodos não capturam exatamente as mesmas partículas, mas ainda assim predizem bem os desfechos.
Desenho do estudo e população analisada
- Coorte: UK Biobank; recrutamento de 2006 a 2010; análises em prevenção primária.
- Tamanho: 271.760 indivíduos com lipidograma completo e sem uso de hipolipemiantes no basal.
- Seguimento: até 15 anos, com mediana de 10 (6,7–12,3) anos.
- Desfecho: ASCVD de todas as causas (CID-10 I20–I25; I63–I66; I70).
- Ajustes: modelos de Cox com conjuntos de covariáveis pré-especificados (idade, sexo, etnia, PA sistólica/diastólica, tabagismo, diabetes e uso de anti-hipertensivos; outras especificações conforme modelos 2 e 3).
Resultados principais (explicados de forma acessível)
1) Associação consistente com risco de ASCVD
Cada 1 desvio-padrão (DP) de aumento em E-sdLDL-C associou-se a HR 1,23 (IC95% 1,22–1,24) na análise sem ajustes e HR 1,18 (1,16–1,19) após ajuste amplo, desempenho semelhante ao de ApoB (HR 1,17). Mesmo após ajuste adicional por ApoB, o E-sdLDL-C manteve associação positiva (HR 1,11; IC95% 1,08–1,13).
2) Forma da relação com o risco
Enquanto LDL-C exibiu curva em “J” nos splines, o E-sdLDL-C mostrou relação positiva mais linear ao longo da faixa de valores, cruzando a linha de HR=1,0 em torno de 44 mg/dL.
3) Discordância clínica: risco “oculto”
Quando E-sdLDL-C estava mais alto do que LDL-C ou ApoB (discordância), o risco de ASCVD foi maior (respectivamente, +31% e +17%). Ou seja, mesmo com LDL-C ou ApoB “baixos”, um E-sdLDL-C alto identificou pessoas com risco aumentado.
4) Ponto de corte prático e papel como “risk enhancer”
Usando 46 mg/dL como melhor ponto de corte (ROC) para E-sdLDL-C e combinando com não-HDL-C 190 mg/dL e TG 175 mg/dL, observou-se que quem tem E-sdLDL-C acima de 46 mg/dL apresenta risco maior, inclusive no estrato de risco limítrofe/intermediário (PCE 5%–<20%).
Interpretação objetiva e utilidade clínica
- Complemento, não substituição. O E-sdLDL-C pode complementar a avaliação com ApoB e LDL-C, sobretudo em casos discordantes, ajudando a refinar a estratificação de risco de ASCVD.
- Cálculo automatizável. Por usar apenas dados do lipidograma de rotina e o LDL-C pela equação de Sampson, o cálculo é automatizável (inclusive com planilha pública), sem custo laboratorial adicional.
- Confirmação quando necessário. Em contextos de decisão clínica mais fina (por exemplo, prevenção primária em risco limítrofe), os autores sugerem confirmar um E-sdLDL-C elevado com sdLDL-C direto ou ApoB.
Rigor e transparência do método
- Disponibilidade de materiais analíticos: o artigo informa que métodos e materiais podem ser compartilhados sob solicitação, e que há uma planilha Excel pública para as contas do E-sdLDL-C (reprodutibilidade).
- Modelagem estatística: os riscos foram avaliados por modelos de Cox e curvas de Kaplan-Meier por quintis; há splines para explorar relações não lineares. Os modelos consideraram conjuntos de ajustes definidos a priori em linha com diretrizes vigentes.
Limitações destacadas pelos autores
- Estimado versus medido diretamente. O ensaio direto de sdLDL-C mede colesterol em partículas com densidade 1,044–1,063 g/mL, enquanto o E-sdLDL-C é derivado por subtração (LDL-C menos lbLDL-C estimado) com base em LDL-C e ln[TG]. Por isso, não refletem exatamente o mesmo conjunto de partículas; ainda assim, o E-sdLDL-C apresentou bom desempenho preditivo para ASCVD.
- Associações, não causalidade. Como se trata de coorte observacional, os resultados descrevem associações entre marcadores lipídicos e risco de eventos, não intervenções terapêuticas. (Caracterização metodológica do estudo.)
Em resumo
O estudo acompanhou mais de 270 mil pessoas por cerca de 10 anos e mostrou que a fração pequena e densa do LDL, estimada a partir do lipidograma, se relaciona de forma consistente com risco de infarto e derrame. Mesmo quando outros marcadores parecem “bons”, um E-sdLDL-C alto pode sinalizar risco adicional — especialmente útil em casos discordantes. Como o cálculo não exige exames novos, ele pode somar à conversa entre paciente e equipe de saúde sobre prevenção, sempre considerando o conjunto de fatores de risco e, quando indicado, testes complementares (como ApoB ou sdLDL-C direto).
Referência principal
Zubirán R, Sampson M, Wolska A, Remaley AT. Estimated Small, Dense LDL Cholesterol and Atherosclerotic Cardiovascular Risk in the UK Biobank. Arteriosclerosis, Thrombosis, and Vascular Biology (2025). DOI: 10.1161/ATVBAHA.125.323157.
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