Observações sobre a natureza e cura do cálculo, escorbuto marinho, tuberculose, catarro e febre: juntamente com conjecturas sobre vários outros assuntos de fisiologia e patologia (1815)


No fim do século XVIII, discutir “dieta” como parte do tratamento não era um detalhe; era uma das poucas ferramentas práticas disponíveis. A obra de Thomas Beddoes circula desde 1793 (em edições britânicas) e aparece aqui em uma edição publicada na Philadelphia em 1815.

Na folha de rosto, o livro se apresenta como um conjunto de observações sobre várias doenças — incluindo “sea scurvy” (escorbuto do mar) e “consumption” (termo histórico associado à tuberculose) — e já indica o espírito da época: tentar amarrar fisiologia, química e prática clínica em um mesmo raciocínio.

Dentro dessa lógica, um ponto chama atenção pelo contraste com o que hoje se imagina quando se fala em “alimentação terapêutica”: em momentos-chave do texto, aparecem recomendações explícitas envolvendo alimentos de origem animal, especialmente carne e peixes, inclusive em formas pouco convencionais para o padrão atual.

Escorbuto: quando a “comida do mar” vira tratamento

Ao discutir o escorbuto, o autor registra observações de viajantes e médicos que associavam a melhora da doença ao consumo de carne fresca e de peixe não salgado, às vezes consumido cru — não como curiosidade cultural, mas como prática com intenção de saúde.

Um exemplo citado descreve que povos de regiões frias preparavam estoques de inverno sem sal e, quando apareciam sinais compatíveis com escorbuto, recorriam ao peixe; o texto menciona inclusive o hábito de “devorar o peixe congelado cru”, entendido ali como uma prática vista como protetora.
Outro trecho chama atenção por registrar que certos grupos quase não consumiam vegetais e, ainda assim, eram descritos como “isentos” de um conjunto de enfermidades do norte, com ênfase em carne fresca como parte do contexto alimentar.

Essas passagens não “provam” mecanismos no sentido moderno; elas documentam um raciocínio clínico-histórico: em ambientes extremos — frio intenso, longos períodos sem alimentos frescos de origem vegetal, confinamento e dietas preservadas — a diferença entre carne fresca/peixe sem sal e alimentos salgados ou envelhecidos era tratada como um divisor importante. O próprio texto discute o papel do sal em “provisões salgadas” e a possibilidade de esse tipo de alimento contribuir para o problema, ao mesmo tempo em que contrasta isso com a ideia de preservação de carne/peixe em condições que evitassem sal e certos processos.

Consunção: “carne bem passada” e “dieta oleosa” como proposta deliberada

No bloco dedicado à “consumption”, o livro faz uma crítica direta à confiança histórica em “frutas, ervas, leite” como cura, afirmando não conhecer base suficiente para dizer que esses elementos tenham realmente curado o quadro.

A partir daí, a proposta fica ainda mais explícita: ao invés de uma dieta “vegetal” ou “estimulante”, o texto sugere colocar o paciente em uma dieta que, pela lógica apresentada, tenderia a “produzir escorbuto”, e então afirma que “não apenas carne salgada, mas uma dieta oleosa, pode ser tentada”.

E o índice do livro registra, de modo bem direto, a linha do plano dietético: “a dieta deve consistir de carne muito bem passada — de óleos”.

Ou seja: dentro do modelo explicativo do período, alimentos de origem animal (carne, e por implicação seus preparos) e componentes gordurosos aparecem como estratégia terapêutica, não como exceção.

O que essa leitura ajuda a entender

Lida hoje, a obra é um retrato de uma medicina em transição: ainda sem microbiologia consolidada, mas já tentando organizar observações de campo, relatos navais, hábitos alimentares regionais e hipóteses fisiológicas em um corpo coerente de prática. Nesse cenário, o texto registra — com riqueza documental — que carne fresca, peixe não salgado (até cru, em certos relatos), e dieta com carne bem passada e componentes oleosos foram considerados caminhos práticos relevantes ao discutir escorbuto e consunção.

Para quem produz conteúdo sobre alimentação e saúde, o valor aqui não está em “transportar” recomendações do século XVIII para o presente, e sim em reconhecer algo bem concreto: quando a discussão era sobrevivência real em navios, regiões polares e enfermarias, alimentos de origem animal apareciam repetidamente como parte do repertório observado e defendido — e isso foi registrado em texto, com data, edição e contexto histórico bem definidos.

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