A depressão maior é frequentemente tratada com antidepressivos, mas uma parte dos pacientes não melhora mesmo após tentar mais de um medicamento. Esse quadro costuma ser chamado de depressão resistente ao tratamento. Diante disso, surgiram hipóteses de que uma dieta cetogênica (muito baixa em carboidratos, com maior proporção de gorduras) poderia ajudar em alguns casos — mas faltavam estudos bem controlados para testar essa ideia em pessoas com depressão resistente.
Como o estudo foi conduzido
O trabalho foi um ensaio clínico randomizado realizado no Reino Unido, entre fevereiro e junho de 2024, com 88 adultos (18 a 65 anos) que apresentavam depressão resistente e pontuação PHQ-9 ≥ 15 (depressão ao menos moderada). Os participantes foram divididos em dois grupos por 6 semanas, com acompanhamento semelhante em ambos:
- Grupo dieta cetogênica (DC): plano com < 30 g de carboidratos/dia, alimentos preparados fornecidos (3 refeições/dia + lanches) e monitoramento de cetonas urinárias.
- Grupo controle (“dieta fitoquímica”): orientação para acrescentar 1 porção diária de fruta ou vegetal e substituir gorduras saturadas por gorduras insaturadas, com vouchers para compra de alimentos.
A ideia do grupo controle foi oferecer uma intervenção “crível”, com apoio semelhante, para reduzir o risco de que o resultado fosse apenas efeito de expectativa, apoio semanal e engajamento no estudo.
O que foi medido
O desfecho principal foi a diferença entre grupos na mudança do PHQ-9 (escala de sintomas depressivos) do início até a semana 6. Também foram avaliados desfechos secundários, como remissão, ansiedade, anedonia, queixas cognitivas, qualidade de vida e funcionamento, com seguimento até 12 semanas.
O que o estudo encontrou (em linguagem simples)
Ao final de 6 semanas, os dois grupos melhoraram bastante. Ainda assim, o grupo da dieta cetogênica teve uma melhora um pouco maior no PHQ-9:
Mudança média do PHQ-9 (0 a 27) até 6 semanas
- Dieta cetogênica: −10,5 pontos
- Controle: −8,3 pontos
- Diferença entre grupos: −2,18 pontos (IC 95% −4,33 a −0,03; P = .05)
Na prática, isso significa que, no curto prazo, a dieta cetogênica foi associada a uma redução adicional pequena dos sintomas depressivos, quando comparada a um controle bem acompanhado.
E depois, em 12 semanas?
Quando o acompanhamento chegou a 12 semanas (6 semanas após o fim do suporte intensivo), a diferença entre os grupos não ficou clara (não houve evidência estatística robusta de superioridade da dieta cetogênica nesse ponto).
Remissão: quantas pessoas melhoraram “a ponto de sair do quadro”?
Na semana 6:
- Dieta cetogênica: 25% atingiram remissão (PHQ-9 ≤ 4)
- Controle: 9% atingiram remissão
Os autores relatam que não houve diferença estatisticamente significativa entre grupos para remissão quando analisado formalmente.
Outros sintomas além da depressão
Para ansiedade, anedonia, queixas cognitivas, qualidade de vida e funcionamento, não apareceram diferenças relevantes entre os grupos. Houve uma diferença em ansiedade na semana 12, mas o conjunto dos resultados secundários não sustentou um benefício amplo.
Um ponto importante: adesão foi difícil
Durante as 6 semanas com apoio intensivo e alimentos fornecidos, muitos conseguiram manter cetonas detectáveis com frequência. Porém, após o fim do fornecimento de refeições e do suporte, quase metade interrompeu totalmente a dieta cetogênica, e apenas uma minoria manteve o padrão alimentar com regularidade.
Esse detalhe ajuda a entender por que, fora de um ambiente com suporte estruturado, a implementação pode ser mais complexa no dia a dia.
O que este estudo não permite concluir
Os próprios autores destacam limites que impedem interpretações exageradas:
- Efeito médio modesto: a diferença de ~2,2 pontos no PHQ-9 foi menor do que o alvo inicialmente considerado “clinicamente importante” pelo protocolo.
- Duração curta (6 semanas): insuficiente para avaliar desfechos de longo prazo e efeitos adversos mais comuns em períodos prolongados (os autores citam exemplos como alterações lipídicas, cálculos renais e deficiências de vitaminas).
- Medição de cetonas: feita por urina em amostras matinais, o que dá uma noção indireta e menos precisa do estado de cetose do que medidas sanguíneas.
- Mecanismo incerto: as análises exploratórias não mostraram associação consistente entre níveis de cetonas e melhora do PHQ-9.
Qual é a mensagem central
O estudo descreve um cenário realista: pessoas com depressão resistente, mesmo mantendo tratamento usual, participaram de duas intervenções alimentares com suporte semelhante e melhoraram muito em ambos os grupos. Dentro desse contexto, a dieta cetogênica mostrou vantagem pequena no curto prazo, mas com relevância clínica ainda incerta e grande dependência de suporte intensivo para sustentar a adesão.
Fonte: https://doi.org/10.1001/jamapsychiatry.2025.4431
