Em 2017, um grupo de pesquisadores conduziu um ensaio clínico randomizado de 2 semanas para medir como o padrão alimentar e o tipo de alimento (orgânico vs. convencional) alteram a excreção urinária de resíduos de pesticidas (UPRE), um indicador usado para estimar exposição recente a diferentes classes de pesticidas.
A narrativa do estudo começa com uma preocupação prática: recomendações nutricionais costumam incentivar maior consumo de frutas, vegetais e grãos integrais, mas esses alimentos, quando produzidos de forma convencional, podem carregar mais resíduos de pesticidas. O trabalho buscou quantificar essa diferença com medições diretas na urina.
Como o estudo foi feito
Participaram 27 adultos saudáveis (estudantes de pós-graduação), distribuídos por randomização em dois grupos:
- Grupo orgânico (n=13): seguiu uma Dieta Mediterrânea (DM) feita inteiramente com alimentos orgânicos por 2 semanas.
- Grupo convencional (n=14): seguiu a mesma DM, mas com alimentos inteiramente convencionais por 2 semanas.
Antes e depois da intervenção, todos consumiram sua dieta habitual de padrão ocidental, composta majoritariamente por alimentos convencionais. Houve coleta de urina de 24 horas em pontos definidos do protocolo, além de registros alimentares.
Os autores analisaram uma ampla lista de resíduos/metabólitos urinários, incluindo categorias como herbicidas, inseticidas, organofosforados, piretróides e o regulador de crescimento clormequat (CCC).
O que foi encontrado
Durante as duas semanas de Dieta Mediterrânea, a diferença entre orgânico e convencional foi marcada:
- A excreção total urinária de resíduos de pesticidas foi 91% menor com alimentos orgânicos: 17 μg/dia (orgânico) vs 180 μg/dia (convencional) (P < 0,0001).
- No período de Dieta Mediterrânea com alimentos convencionais, a excreção aumentou em grupos específicos de pesticidas quando comparada ao padrão ocidental habitual: houve aumento de inseticidas, organofosforados e piretróides.
- O clormequat (CCC) se destacou: no período com alimentos convencionais, ele representou a maior parcela do total, e também caiu fortemente no grupo orgânico.
O estudo também comparou o percentual de amostras urinárias positivas para resíduos específicos (Figura 2, página 7). Alguns marcadores (como metabólito específico de deltametrina) apareceram com maior frequência no grupo convencional, enquanto outros tiveram presença semelhante entre grupos, indicando que nem toda exposição é exclusivamente alimentar.
O que os autores consideraram importante na interpretação
A história metodológica do estudo inclui um cuidado: os participantes viveram e realizaram atividades juntos durante a intervenção, para reduzir diferenças ambientais. Ainda assim, os autores reconhecem um ponto crítico: separar exposição alimentar de exposição ambiental é difícil, e houve situações como uso de produtos contra mosquitos no ambiente que podem influenciar alguns metabólitos.
Quando os pesquisadores exploraram associações entre componentes da dieta e resíduos urinários, vegetais apareceram como um dos principais direcionadores estatísticos dentro do conjunto de dados. Também foram observadas associações com itens como vinho, chá, grãos integrais e café, sempre no contexto da análise exploratória reportada.
Limitações apontadas no próprio artigo
Os autores foram diretos ao reconhecer limitações:
- Número pequeno de participantes e estudo não cego (os participantes sabiam o grupo, por diferenças sensoriais e controle de refeições).
- Alguns pesticidas detectados nos alimentos convencionais (especialmente certos fungicidas) não puderam ser monitorados na urina, o que pode subestimar a diferença real de exposição.
- O efeito do orgânico foi medido dentro da Dieta Mediterrânea; o comportamento em outros padrões alimentares não foi testado diretamente.
Conclusão descrita pelos autores
O trabalho conclui que, na Dieta Mediterrânea rica em frutas e vegetais, trocar alimentos convencionais por orgânicos foi associado a uma redução superior a 90% na excreção urinária total de resíduos monitorados. Também relata evidência de que, ao aumentar frutas e vegetais com alimentos convencionais, pode haver aumento de exposição a alguns grupos de pesticidas, conforme os indicadores urinários avaliados.
