Na Finlândia, a mortalidade por doença coronariana (DC) foi historicamente alta em algumas regiões, mas havia um contraste relevante: no extremo norte do país, na chamada área Sami, os registros indicavam uma mortalidade por DC menor. Para investigar possíveis explicações, pesquisadores compararam fatores clássicos (como lipídios, pressão arterial e tabagismo) e marcadores relacionados a antioxidantes no sangue.
Como o estudo foi feito
Os autores avaliaram 350 homens, em 1989, ligados à criação e ao manejo de renas (idade média em torno de 45–46 anos). Eles foram comparados entre:
- Área Sami (três comunidades do extremo norte)
- Área de referência (seis comunidades vizinhas ao sul)
Em jejum, foram medidos no sangue: colesterol total, LDL, HDL, triglicerídeos, alfa-tocoferol (vitamina E), retinol (vitamina A), albumina e selênio. A mortalidade por DC na população masculina geral dessas áreas foi estimada por certificados de óbito no período 1981–1990. As análises foram ajustadas para idade, IMC, tabagismo e pressão arterial (e, no caso do alfa-tocoferol, também para lipídios).
O que se sabe sobre a dieta dos participantes
O estudo não fez um “mapa completo” da alimentação (como recordatório alimentar detalhado ou cálculo de macronutrientes). A coleta dietética foi direta e objetiva, focada em itens considerados centrais para aquele contexto de vida no norte da Finlândia. Os participantes foram perguntados sobre:
- Consumo de carne de rena (número de refeições por semana)
- Consumo de peixe (número de refeições por semana)
- Consumo de álcool (em gramas por dia)
- Uso de comprimidos contendo vitaminas ou elementos-traço (sim/não)
Isso é importante porque os principais marcadores “antioxidantes” discutidos no artigo (alfa-tocoferol e selênio) foram analisados justamente em relação ao consumo de carne de rena e peixe, além de ajustes para álcool e suplementos.
Frequência de carne de rena e peixe nas duas áreas
Os autores descreveram uma dieta com forte presença de alimentos locais:
Carne de rena
- 92% dos homens na área Sami e 76% na área de referência consumiam carne de rena pelo menos 3 vezes por semana.
- 99% na área Sami e 93% na área de referência consumiam pelo menos 2 vezes por semana.
- Peixe
- 47% na área Sami e 49% na área de referência faziam uma refeição com peixe pelo menos 2 vezes por semana.
- 75% na área Sami e 74% na área de referência consumiam peixe pelo menos 1 vez por semana.
Além disso, ao separar por origem (Sami vs finlandeses), o padrão se manteve alto para carne de rena e moderado para peixe: 93% dos Samis e 78% dos finlandeses consumiam carne de rena ≥3 vezes por semana, e 48% e 46%, respectivamente, consumiam peixe ≥2 vezes por semana.
Álcool e suplementos: o que o estudo registrou
O consumo médio de álcool foi muito semelhante entre áreas (aproximadamente 12 g/dia na área Sami e 13 g/dia na área de referência). E, quando os autores ajustaram as análises para álcool e para o uso de comprimidos com vitaminas/elementos-traço, os resultados principais permaneceram praticamente os mesmos, sugerindo que esses fatores não explicavam sozinhos as diferenças observadas nos marcadores sanguíneos.
O que foi encontrado na mortalidade por doença coronariana
Ao comparar as duas áreas, a mortalidade por DC foi menor na área Sami (diferença expressa por razão padronizada). Esse é o pano de fundo do estudo: entender por que uma região teria menor mortalidade mesmo sem apresentar um perfil “clássico” claramente mais favorável em todos os aspectos.
O perfil sanguíneo: antioxidantes mais altos junto com colesterol mais alto
Em comparação com a área de referência, os homens da área Sami apresentaram, em média, valores mais altos de:
- Alfa-tocoferol ajustado por lipídios
- Albumina
- Selênio
- Colesterol total e LDL
Ao mesmo tempo, a razão HDL/colesterol total foi discretamente mais baixa na área Sami, e retinol não mostrou diferença significativa entre áreas.
A ligação direta entre alimentos locais e marcadores no sangue
Ao cruzar a alimentação (em frequência semanal) com os exames, os autores observaram dois padrões:
- Alfa-tocoferol aumentou conforme maior consumo de carne de rena (análise apresentada em homens sem diagnóstico de DC ou diabetes).
- Selênio aumentou conforme maior consumo de peixe (também com ajuste para fatores clínicos e de estilo de vida).
Essas associações foram destacadas como consistentes e não se alteraram de forma relevante após ajustes adicionais para álcool e uso de suplementos.
Como os autores interpretaram os achados
A leitura final do estudo é cautelosa: alfa-tocoferol, albumina e selênio podem estar relacionados ao cenário de menor mortalidade por DC na região mais ao norte, e esse “estado antioxidante” mais favorável poderia ter ligação com componentes do padrão alimentar local, especialmente carne de rena e peixe. Ainda assim, por se tratar de uma comparação entre áreas, o artigo não foi desenhado para provar causa e efeito.
