A cardiologia dispõe de evidências robustas de que padrões alimentares podem reduzir eventos cardiovasculares em prevenção primária e secundária. O ensaio PREDIMED, por exemplo, mostrou redução de eventos cardiovasculares maiores com um padrão mediterrâneo suplementado (comparado ao controle), e isso reforça por que diretrizes incorporam alimentação como parte do cuidado. (NEJM – 10.1056/NEJMoa1200303) Ainda assim, um estudo publicado no The American Journal of Medicine descreveu um contraste incômodo: mesmo reconhecendo a relevância clínica da nutrição, muitos profissionais que tratam pacientes cardíacos relatam formação insuficiente e pouco espaço para aconselhamento alimentar na prática diária.
O que foi avaliado
Os autores aplicaram um questionário on-line sobre educação em nutrição, atitudes e prática de aconselhamento alimentar. Foram 930 respostas, coletadas em 2015 e 2016 por meio de painéis e listas de discussão vinculadas ao Colégio Americano de Cardiologia (ACC).
O foco não foi discutir “qual dieta é melhor”, e sim medir um ponto mais básico: se a cardiologia está preparando (ou não) seus profissionais para orientar alimentação de forma prática e consistente.
Formação em nutrição relatada como mínima ao longo da carreira
O estudo registrou uma lacuna ampla desde a graduação até a especialização:
- Quase um terço dos cardiologistas não se recordou de ter recebido educação formal e prática em nutrição na graduação.
- 59% relataram nenhuma ou mínima educação em nutrição durante a residência.
- 90% relataram nenhuma ou mínima educação em nutrição durante a especialização/fellowship em cardiologia.
Na discussão, os autores descrevem esse conjunto como um “cenário de deficiência” que se expressa não só em educação formal, mas também em habilidades de aconselhamento e preparo para implementar recomendações na rotina.
Pouca autoconfiança em conhecimento nutricional
Há um ponto especialmente delicado quando se fala de cuidado cardiovascular: o profissional pode reconhecer a responsabilidade, mas não se sentir pronto para cumpri-la com qualidade.
- 95% dos cardiologistas afirmaram que seu papel inclui fornecer aos pacientes pelo menos informações básicas sobre nutrição.
- Apenas 8% se descreveram como tendo conhecimento “especialista” em nutrição.
O retrato é de um profissional que, muitas vezes, entende que precisa orientar, mas não se percebe com base técnica sólida para ir além do genérico.
Pouco tempo de consulta dedicado à alimentação
O estudo quantificou o tempo gasto com orientação nutricional “em uma consulta média”. Os números foram consistentes com aconselhamento curto:
- 4% não discutiam nutrição.
- 18% gastavam 1 minuto ou menos.
- 40% gastavam 2 a 3 minutos.
- 25% estimavam 5 minutos.
- 8% gastavam 10 minutos.
- 4% gastavam 15 minutos ou mais.
Os autores destacam na discussão que, com esse nível de tempo (por exemplo, 3 minutos ou menos para a maioria), a ênfase em nutrição e estilo de vida presente em diretrizes tende a se materializar pouco na prática.
Uma cadeia de formação que pode perpetuar o problema
Entre médicos em treinamento, surgiu um achado que chama atenção pela dimensão cultural do serviço:
- 63% dos fellows-in-training disseram que seu papel inclui fornecer orientação nutricional mais detalhada.
- Porém, apenas 40% acreditavam que seu mentor clínico mais próximo compartilhava essa visão.
O estudo ainda descreve que fellows-in-training que consumiam mais frutas e vegetais eram menos propensos a relatar que seu mentor “não considerava” o aconselhamento nutricional uma responsabilidade pessoal, sugerindo uma relação entre ambiente de treinamento, crenças e prática percebida.
Baixa adesão pessoal a um marcador simples de padrão alimentar
Como indicador de hábito, o questionário incluiu consumo diário de frutas e vegetais. A proporção que relatou 5 porções ou mais por dia foi baixa:
- 20% entre cardiologistas.
- 21% entre fellows-in-training.
- 26% entre membros da equipe cardiovascular.
O artigo interpreta esse achado como parte de um conjunto maior: deficiência de educação, baixa autopercepção de preparo e baixa adesão pessoal a um padrão “cardioprotetor” amplamente promovido, compondo um cenário desfavorável para aconselhamento consistente.
Quando as diretrizes pedem mais do que o sistema ensina
A discussão do artigo cita, como exemplo, que a diretriz ACC/AHA de colesterol enfatiza a importância de dieta saudável como parte da redução de risco cardiovascular. (AHA – 10.1161/01.cir.0000437738.63853.7a) O problema identificado não é a ausência de diretrizes, mas a distância entre diretriz e treinamento: o estudo descreve que muitos cardiologistas se consideram apenas “razoavelmente atualizados” e que, com pouco tempo por consulta, a orientação alimentar recomendada pode ficar mal implementada.
O artigo também conecta esse cenário a uma realidade já documentada em educação médica: uma atualização de levantamento nacional sobre escolas de medicina descreveu que uma referência histórica (relatório da National Academy of Sciences, 1985) sugeria 25 horas como mínimo de instrução em nutrição, enquanto muitas escolas ficavam aquém disso. (PMC – “Nutrition Education in U.S. Medical Schools: Latest Update of a National Survey”)
Limitações que tornam o quadro ainda mais prudente (não mais confortável)
Os próprios autores reconhecem limitações importantes: a taxa de resposta foi baixa em relação ao universo convidado e respostas autorrelatadas podem sofrer vieses. Ainda assim, eles destacam que se trata de uma das maiores amostras reportadas sobre o tema em profissionais cardiovasculares e que os resultados apontam na mesma direção: o cuidado cardiovascular valoriza nutrição no discurso, mas não a sustenta adequadamente na formação e na rotina clínica.
O custo silencioso da lacuna
O estudo descreve uma situação que, do ponto de vista humano, é fácil de reconhecer no cotidiano: quando o consultório é curto, a agenda é cheia e o treinamento foi limitado, a alimentação tende a virar um aconselhamento rápido, muitas vezes genérico, mesmo em um contexto em que diretrizes e evidências apontam para sua relevância. O resultado não é falta de boa intenção; é um sistema que, segundo os dados do artigo, frequentemente não entrega aos profissionais o tempo e a formação necessários para transformar “coma melhor” em orientação clínica efetiva.
