O BDNF é (brain-derived neurotrophic factor) é descrito como uma proteína importante para o funcionamento do cérebro, com papel em sobrevivência neuronal e plasticidade sináptica, processos ligados a aprendizagem e memória. O mesmo artigo também destaca que o BDNF participa de aspectos do metabolismo, como regulação de energia e apetite, e que níveis circulantes mais baixos têm sido associados, em diferentes contextos, a fatores de risco metabólicos e obesidade. Essas conexões motivaram pesquisadores a investigar se mudanças na alimentação conseguiriam alterar o BDNF no sangue de adultos em ensaios clínicos.
O que esta revisão avaliou (e o que ela não avaliou)
A revisão analisou ensaios clínicos (randomizados e não randomizados; paralelos ou crossover) em adultos, com medida de BDNF antes e depois da intervenção alimentar, seguindo PRISMA 2020 e avaliação de risco de viés pelo método Cochrane. A busca foi ampla (bases como PubMed, Scopus, Web of Science, Embase e ProQuest) até abril de 2024. (Detalhes metodológicos no próprio artigo: Mohamadinarab et al., 2025).
Para manter o foco em “estratégias alimentares”, os autores excluíram estudos com:
- suplementos isolados (vitaminas, minerais, probióticos em cápsulas etc.);
- itens alimentares únicos (por exemplo, apenas azeite, uma fruta específica);
- intervenções combinadas com exercício (quando não era possível separar o efeito da dieta);
- populações pediátricas/adolescentes.
O que foi encontrado: 13 estudos, resultados variados
Após triagem de milhares de registros, a revisão incluiu 13 estudos. O ponto central é que os efeitos das dietas sobre o BDNF não foram uniformes: algumas estratégias se associaram a aumento do BDNF em determinados contextos, enquanto outras mostraram pouca mudança ou nenhuma mudança.
Intervenções com sinais mais consistentes de aumento
- Jejum intermitente e jejum em dias alternados: aparecem no artigo como estratégias que, em geral, tenderam a aumentar o BDNF em parte dos ensaios analisados.
- Dieta cetogênica: também foi citada como intervenção que pode aumentar o BDNF em alguns cenários avaliados (por exemplo, um ensaio com fisiculturistas naturais em competição foi descrito como mostrando aumento).
Intervenções com pouco efeito ou efeito inconsistente
- Restrição calórica contínua/moderada: em diferentes estudos, frequentemente não mudou o BDNF de forma significativa, mesmo quando houve melhora de outros parâmetros.
- Mudanças na frequência de refeições sem reduzir calorias: foram descritas como sem efeito relevante no BDNF.
- Refeições com diferentes macronutrientes (efeito pós-prandial): um ensaio citado observou queda pós-prandial do BDNF após refeições ricas em gordura e ricas em carboidratos, com tendência de queda também após refeição rica em proteína, mas sem diferenças marcantes entre macronutrientes no comparativo principal do estudo.
Quando o BDNF caiu: alerta para restrições muito agressivas
A revisão destaca um ensaio em que uma dieta muito baixa em calorias foi associada a redução do BDNF em mulheres, mas não em homens, chamando atenção para possíveis diferenças por sexo e para o contexto de estresse fisiológico em perdas rápidas de peso.
Como os autores explicam as diferenças entre os estudos
A própria revisão enfatiza que há heterogeneidade: tipo de dieta, duração (de dias a anos), perfil dos participantes (saudáveis vs. excesso de peso/obesidade; presença de “compulsão/adição alimentar” em um estudo), e até diferenças laboratoriais na forma de medir BDNF.
Entre os pontos discutidos pelos autores:
- “Desafio energético”: estratégias como jejum e dietas com grande restrição de carboidratos podem induzir uma mudança metabólica com maior produção de corpos cetônicos (como o β-hidroxibutirato), e o artigo menciona literatura mecanística que relaciona esses estados à regulação de BDNF.
- Contrarregulação e estresse: restrições muito severas podem ativar respostas hormonais e de estresse, potencialmente desfavoráveis ao BDNF em certos contextos.
- Soro versus plasma: medir BDNF em soro pode sofrer influência de liberação por plaquetas durante a coagulação; no plasma, os valores tendem a ser menores e podem refletir outra dinâmica. Assim, o “mesmo” efeito biológico pode aparecer diferente dependendo do método.
O que esta revisão permite concluir
Com base apenas no que foi revisado:
- Existe sinal de que jejum intermitente e dieta cetogênica, em alguns estudos e populações, podem elevar o BDNF circulante em adultos.
- Muitas intervenções alimentares comuns mostram efeitos pequenos, nulos ou inconsistentes sobre BDNF.
- Estratégias muito restritivas podem, em certos grupos, estar associadas a queda do BDNF, o que reforça a importância do contexto e do acompanhamento adequado.
- Mesmo quando o BDNF no sangue muda, os autores lembram que a relação entre BDNF periférico e BDNF no sistema nervoso central ainda não é totalmente definida, o que limita inferências clínicas diretas.
Limitações destacadas pelos autores
O artigo aponta limitações típicas de ensaios dietéticos e desta literatura:
- amostras pequenas em vários estudos;
- protocolos variados (dificultando comparação direta);
- risco de viés em domínios como cegamento (difícil em dieta);
- alta variabilidade individual do BDNF;
- incerteza sobre o que o BDNF no sangue representa do ponto de vista do cérebro.
