Pesquisadoras entrevistaram 30 mulheres de 18 a 24 anos vivendo na Escócia para entender, no cotidiano, o que facilita ou impede escolhas mais “à base de plantas” — e como elas enxergam tanto alimentos “plant-based” quanto opções de “conveniência”. O foco foi captar motivos reais de decisão (preço, rotina, cultura, preferências e identidade), e não apenas intenções declaradas.
O trabalho parte da premissa de que reduzir consumo de carne e laticínios pode trazer benefícios ambientais e cobenefícios em saúde, mas que a adoção depende de soluções percebidas como viáveis na vida real (não apenas “corretas” no papel).
Como o estudo foi feito
As autoras conduziram entrevistas semiestruturadas (em geral via Zoom) e analisaram o material por análise temática reflexiva, produzindo seis temas que resumem padrões de fala e experiência. A amostra incluiu perfis variados: onívoras, redutoras de carne, flexitarianas, vegetarianas e pescetarianas.
O que apareceu nas falas: seis temas centrais
1) Carne como padrão social e cultural
A carne surgiu como “o normal” dentro de famílias, relações e contextos sociais. Muitas participantes relataram que cresceram com refeições em que a carne era vista como parte principal do prato. Ao tentar reduzir, algumas se sentiram pressionadas a “acompanhar” a família ou a cozinhar separadamente.
2) Familiaridade dá segurança; o desconhecido gera rejeição
Várias entrevistadas descreveram uma preferência por pratos conhecidos — o que reduz o risco de “gastar dinheiro e dar errado”. Nesse cenário, a carne aparece como opção “segura” (fácil, previsível, com resultado esperado). Em contraste, pratos à base de plantas foram frequentemente associados ao “desconhecido”, com receio de não gostar do sabor, da textura ou de “não saber como fazer”.
3) “Plant-based” foi entendido, em grande parte, como “alternativa de carne”
Um achado importante foi a confusão sobre o que “plant-based” significa. Para muitas participantes, o termo foi quase automaticamente ligado a produtos que imitam carne (como hambúrgueres e “bacon” vegetais), e não a alimentos in natura ou minimamente processados (feijões, lentilhas, vegetais, etc.). Esse detalhe importa porque esses produtos foram descritos como caros, pouco atrativos e, por vezes, vistos como “muito processados” ou “não sendo comida de verdade”.
4) Preço manda — e, ainda assim, a carne é vista como “gasto necessário”
O custo foi o principal motor de decisão alimentar. Muitas relataram compras em lojas de desconto, busca por promoções e mudanças de rotina por causa do aumento do custo de vida. Mesmo quando reconheceram a carne como cara, parte das participantes a tratou como um item “que vale a pena” — algo “nutritivo” e, portanto, justificável no orçamento.
5) Conveniência é valorizada, mas “prato pronto” é estigmatizado
“Conveniência” apareceu como necessidade diária (cansaço, estresse, horários difíceis). Porém, refeições prontas tradicionais foram associadas a vergonha, culpa, sensação de “falha”, além de críticas sobre sabor, porções e ingredientes. Para muitas, a solução prática “aceitável” foi outra: cozinhar em lote, usar ingredientes que encurtam preparo (congelados, enlatados, molhos prontos) e depender de receitas rápidas.
6) Reduzir carne foi percebido como mudança de identidade “tudo ou nada”
Entre onívoras, “redução” frequentemente foi interpretada como virar vegetariana/vegana de uma vez — algo visto como socialmente difícil e pesado. Estereótipos negativos sobre veganismo (e medo de julgamento social) apareceram como barreira inclusive para pequenos passos. Por outro lado, algumas participantes descreveram mudanças graduais (ex.: uma refeição sem carne por semana) que, com repetição, viraram hábito.
O papel do TikTok e das “bolhas” de conteúdo
As participantes relataram usar redes sociais (especialmente TikTok) como fonte rápida de ideias de refeição. O estudo descreve que essa influência tende a reforçar padrões já existentes — com conteúdo “plant-based” aparecendo mais para quem já se interessa, sugerindo “bolhas algorítmicas” que podem limitar o alcance de receitas e mensagens para quem ainda come carne como padrão.
Limitações destacadas no próprio artigo
O estudo é qualitativo e, portanto, descreve experiências e padrões de sentido em um grupo específico (mulheres jovens na Escócia), o que pode limitar a transferência direta para outros contextos culturais. Também há possibilidade de influência de desejabilidade social em temas estigmatizados (como “pratos prontos”).
Conclusão
O estudo retrata um ponto essencial: para muitas jovens, a escolha alimentar não é uma “decisão ideológica”, mas uma gestão diária de tempo, dinheiro, cansaço, preferências e expectativas sociais. Nesse cenário, a carne se mantém como “padrão seguro”, enquanto o “plant-based” pode ser rejeitado quando é comunicado como algo caro, estranho, trabalhoso ou associado a uma identidade rígida. A transição, segundo o que elas relataram, tende a acontecer quando o caminho parece simples, próximo da rotina e sem exigir uma ruptura social e nutricional.
