O artigo revisa um tema específico: alguns tumores conseguem usar frutose (ou produzir frutose dentro do próprio corpo) como mais um “combustível” e como fonte de matéria-prima para crescer. A proposta dos autores é que, se parte do câncer depende dessas rotas, bloquear etapas-chave do metabolismo da frutose pode virar uma estratégia complementar de tratamento, principalmente em tumores mais agressivos e metabolicamente “flexíveis”.
Por que a frutose chama atenção no câncer
A revisão explica que células tumorais, em muitos casos, mudam a forma de gerar energia e de produzir “peças” para se multiplicar (gorduras de membrana, material genético e outros componentes). Nesse cenário, a frutose pode entrar como rota alternativa, ajudando o tumor a manter crescimento mesmo quando o ambiente é hostil, com menos oxigênio ou nutrientes.
O texto também deixa claro que o assunto não é só “caloria”. A discussão envolve vias metabólicas e sinais celulares que podem influenciar o microambiente do tumor (o “terreno” ao redor da massa tumoral) e a relação com o sistema imunológico.
De onde vem a frutose para o tumor
A revisão descreve dois caminhos principais.
1) Frutose que entra pela alimentação e chega aos tecidos
Para a frutose entrar na célula, ela precisa de “portas” na membrana, chamadas transportadores. O artigo destaca o GLUT5 (SLC2A5) como um transportador particularmente relevante para frutose e menciona outros que também podem transportá-la em certos contextos (como GLUT2, GLUT8 e GLUT12).
2) Frutose produzida dentro do corpo (via do poliol)
Mesmo sem grande ingestão direta, o artigo descreve que a frutose pode ser formada a partir da glicose por uma sequência de reações conhecida como via do poliol (glicose → sorbitol → frutose). Enzimas como AKR1B1 e SORD participam desse processo. Em termos simples: o corpo consegue “fabricar” frutose a partir da glicose, e isso pode aumentar a disponibilidade desse substrato em certos cenários biológicos.
O que o tumor “ganha” ao usar frutose
A revisão organiza alguns benefícios metabólicos que, em certos tumores, podem favorecer progressão.
1) Mais capacidade de gerar energia e matéria-prima para crescer
Segundo os autores, a frutose pode alimentar vias que sustentam produção de energia e também síntese de componentes estruturais, como lipídios e precursores necessários para multiplicação celular. A revisão discute esse ponto ao descrever como a frutose pode entrar em rotas relacionadas à glicólise e biossíntese.
2) Aumento de lactato e mudanças no “terreno” ao redor do tumor
O texto menciona o lactato como parte importante do metabolismo tumoral. Em linguagem simples, lactato pode contribuir para um microambiente mais ácido, e isso é associado, em diferentes linhas de evidência, a características como invasão e adaptação tumoral. A revisão discute esse papel do lactato e direciona para literatura mais ampla sobre o tema. (https://doi.org/10.1016/j.tibs.2018.10.011)
3) Sinais celulares ligados a estresse oxidativo e crescimento
A revisão descreve que o metabolismo da frutose pode aumentar espécies reativas de oxigênio (ROS) e se relacionar com vias de sinalização que favorecem sobrevivência e crescimento tumoral, incluindo discussões envolvendo mTORC1 em contextos específicos. (exemplo citado sobre mTORC1 em câncer pancreático: https://doi.org/10.1158/0008-5472.CAN-23-0464)
Então qual seria o “alvo” do tratamento?
A proposta do artigo não é “tratar câncer com dieta”. O foco está em alvos bioquímicos: proteínas e enzimas que fazem a frutose entrar na célula e ser processada. Em termos práticos, o raciocínio apresentado é:
- Se um tumor depende mais dessas rotas, bloquear pontos estratégicos pode reduzir a vantagem metabólica do câncer.
- Isso poderia ser usado como complemento a terapias tradicionais, dependendo do tipo de câncer e do contexto clínico.
Principais alvos discutidos
- GLUT5: “porta” relevante para entrada de frutose em certos tumores, com estudos associando GLUT5 a progressão e resistência em cenários específicos. (exemplo em câncer colorretal citado na revisão: https://doi.org/10.1016/j.canlet.2022.215617)
- KHK (frutoquinase): enzima que “ativa” a frutose para seguir adiante no metabolismo; a revisão cita o inibidor PF-06835919, com dados de tolerabilidade em estudos em outras condições metabólicas. (estudo clínico citado: https://doi.org/10.1111/dom.14946)
- AKR1B1 (via do poliol): ponto de controle na produção endógena de frutose a partir de glicose; a revisão menciona epalrestat (inibidor de AKR1B1) como possibilidade de reaproveitamento, por já existir uso clínico em neuropatia diabética. (visão geral do epalrestat: https://doi.org/10.4103/0972-2327.44558)
Um cuidado importante: isso não é igual para todo câncer
A própria revisão reforça que tumores são diferentes entre si. Alguns podem depender mais dessas rotas, outros podem quase não usar frutose, e muitos conseguem “desviar” para rotas alternativas quando uma via é bloqueada. Por isso, o texto aponta a necessidade de identificar quais tumores realmente têm dependência relevante do metabolismo da frutose e de estudar combinações terapêuticas com lógica biológica sólida.
Também há uma mensagem implícita de prudência: a revisão reúne evidências de vários modelos e contextos, e cita achados em sentidos distintos em temas como imunidade, o que reforça que o contexto biológico e o tipo de tumor importam. (exemplo citado sobre imunidade/metabolismo: https://doi.org/10.1016/j.cmet.2023.09.011)
Conclusão
A revisão apresenta uma linha de raciocínio: se parte do câncer usa frutose (ou a produz internamente) para sustentar crescimento e agressividade, então bloquear transportadores e enzimas dessa rota pode reduzir uma vantagem metabólica do tumor. O texto não promete solução rápida, mas organiza alvos plausíveis (GLUT5, KHK e AKR1B1) e discute por que essa abordagem pode ser estudada como parte de estratégias combinadas em oncologia.
Fonte: https://doi.org/10.1016/j.canlet.2025.217914
