A obesidade é descrita como uma condição crônica e recidivante, associada a maior risco de morbidade e mortalidade prematura, e que afeta um número muito grande de adultos no mundo. No próprio artigo, os autores contextualizam esse cenário citando dados globais e o papel histórico de programas comportamentais de controle de peso (mudanças de alimentação e atividade física) como base do cuidado.
Nos últimos anos, medicamentos para controle de peso (MCPs) se tornaram mais eficazes para perda ponderal durante o uso, incluindo fármacos do eixo incretínico, como semaglutida (agonista de GLP-1) e tirzepatida (agonista duplo GLP-1/GIP). Ao mesmo tempo, observações do “mundo real” sugerem que uma parcela grande das pessoas interrompe esses tratamentos dentro de 12 meses, o que torna essencial entender o que acontece depois da suspensão.
O que os pesquisadores quiseram responder
O estudo buscou quantificar e comparar a velocidade de reganho de peso após a interrupção de MCPs em adultos com sobrepeso ou obesidade. Como desfechos secundários, avaliou-se a trajetória de marcadores cardiometabólicos (como HbA1c, glicose de jejum, colesterol total, triglicerídeos e pressão arterial) após a suspensão.
Como o estudo foi feito
Trata-se de revisão sistemática com meta-análise, incluindo ensaios clínicos randomizados (ECRs), estudos não randomizados e coortes observacionais. As buscas ocorreram em bases como Medline, Embase, PsycINFO, CINAHL, Cochrane, Web of Science e registros de ensaios, desde o início das bases até fevereiro de 2025. Para inclusão, o uso do medicamento precisava ter durado pelo menos 8 semanas, com seguimento mínimo de 4 semanas após parar.
Ao final, foram incluídos 37 estudos, somando 63 braços de intervenção e 9341 participantes. A duração média do tratamento foi de 39 semanas (variação: 11–176) e o seguimento médio após a suspensão foi de 32 semanas (4–104).
Principais resultados: quanto peso volta e em quanto tempo
A mensagem central é direta: parar MCPs foi seguido por reganho de peso relativamente rápido.
- Considerando todos os MCPs, a taxa média foi de 0,4 kg por mês (IC 95% 0,3 a 0,5).
- Considerando todos os miméticos incretínicos, a taxa estimada foi de 0,5 kg por mês (0,4 a 0,7).
- Para os miméticos incretínicos mais novos e mais efetivos (semaglutida e tirzepatida), a taxa foi ainda maior: 0,8 kg por mês (0,7 a 0,9).
Em termos de tempo “até voltar ao ponto de partida”, o estudo projetou:
- Retorno ao peso basal em ~1,7 anos após suspender qualquer MCP (IC 95% 1,3 a 2,1).
- ~1,5 ano após suspender semaglutida/tirzepatida (1,0 a 1,9).
- Essas projeções aparecem de forma clara também no resumo visual do artigo (página 2).
O estudo também analisou ECRs com comparação direta versus controle no período pós-intervenção. Nessa análise, o tempo até não haver mais diferença entre grupos (intervenção vs controle) foi estimado em cerca de 1,4 anos para o conjunto dos MCPs.
O que acontece com marcadores cardiometabólicos após parar
Durante o uso, houve melhora média em diversos marcadores; após a suspensão, os autores observaram tendência de retorno gradual na direção do basal. Exemplos descritos:
- HbA1c: queda durante o tratamento e aumento mensal após parar.
- Glicose de jejum: queda durante o tratamento e aumento mensal após parar.
- Pressão arterial: redução durante o tratamento e aumento mensal após parar.
- Colesterol total e triglicerídeos: redução durante o tratamento e aumento mensal após parar.
Com base nas trajetórias observadas e projeções, os autores estimaram que esses marcadores tenderiam a retornar ao basal em até ~1,4 anos após a cessação do tratamento.
Comparação com programas comportamentais
Um ponto importante do trabalho é a comparação indireta com uma revisão anterior dos próprios autores sobre programas comportamentais de controle de peso. Nessa reanálise (limitada a até 2 anos de seguimento para comparabilidade), os programas comportamentais tiveram:
- perda de peso ao final do programa de cerca de 5,1 kg, e
- reganho médio de 0,1 kg por mês.
Já após MCPs, o reganho foi mais rápido: diferença de aproximadamente +0,3 kg por mês em relação aos programas comportamentais, e o retorno ao basal foi projetado como mais precoce (cerca de 1,7 anos vs 3,9 anos).
Limitações destacadas pelos autores
O próprio artigo chama atenção para pontos que afetam a interpretação:
- Para os fármacos mais novos e mais efetivos (semaglutida/tirzepatida), o seguimento após suspensão foi limitado, com dados geralmente até 12 meses, exigindo projeção além do observado.
- O modelo de “tempo até retorno” assume trajetórias aproximadamente lineares; os autores relatam que análises de sensibilidade não mostraram melhora relevante com ajuste curvilíneo, mas reconhecem que o reganho pode não ser perfeitamente linear em todos os cenários.
- Muitos estudos apresentaram risco de viés em diferentes graus, embora as análises de sensibilidade tenham mantido a direção geral dos achados.
Leitura prática do achado
O estudo sustenta, com síntese quantitativa, que interromper medicamentos para controle de peso tende a ser seguido por reganho de peso e reversão progressiva de melhorias cardiometabólicas, em média, e que essa recuperação do peso pode ocorrer mais rapidamente do que a observada após programas comportamentais. Com base nisso, os autores concluem que o uso de curto prazo, isoladamente, exige cautela e reforçam a necessidade de estratégias efetivas para manutenção de longo prazo.
Fonte: https://doi.org/10.1136/bmj-2025-085304
