Açúcar e Imunidade: Como a Frutose Pode Enfraquecer Temporariamente as Defesas do Corpo


Quando o corpo encontra bactérias, uma das primeiras linhas de defesa são os neutrófilos (um tipo de glóbulo branco). Eles “engolem” microrganismos por um processo chamado fagocitose. Em 1973, pesquisadores publicaram no The American Journal of Clinical Nutrition um estudo clássico que avaliou, de forma controlada, como diferentes fontes de carboidratos influenciam a capacidade desses neutrófilos de engolir bactérias após a ingestão.

O estudo foi desenhado para responder três perguntas diretas:

  1. carboidratos além da glicose também reduzem a fagocitose?
  2. por quanto tempo esse efeito dura?
  3. o jejum altera essa capacidade?

O que os autores chamaram de “capacidade de engolir bactérias”

No trabalho, essa capacidade foi medida por um índice chamado índice fagocítico: em lâminas coradas e analisadas ao microscópio, os autores contaram o número médio de bactérias observadas dentro de cada neutrófilo (avaliando os primeiros 50 neutrófilos vistos). Para isso, o sangue coletado foi incubado com uma suspensão de Staphylococcus epidermidis e, depois, analisado em lâminas com coloração de Wright.

Como o estudo foi feito

  • Participantes (grupo principal): 10 voluntários (6 mulheres e 4 homens), em geral entre 20 e 34 anos (com um adolescente incluído).
  • Intervenção: após jejum noturno (~12 horas), cada pessoa ingeriu 100 g de carboidrato em dias diferentes, vindos de: glicose, frutose, sacarose, mel, suco de laranja; e, em comparação, amido (starch).
  • Coletas: sangue em jejum (0 h) e depois em 0,5 h, 1 h, 2 h, 3 h e 5 h pós-ingestão (nem todos tiveram todos os horários em todas as condições).
  • Controle importante: os autores também acompanharam contagens de células sanguíneas e observaram que não havia tendência de mudança relevante que explicasse os resultados por “mais ou menos neutrófilos”, sugerindo que o efeito era principalmente de função.

Além disso, o artigo avaliou:

  • 8 pacientes com curva de tolerância à glicose “do tipo diabético” (com maiores glicemias e índices fagocíticos mais baixos).
  • 7 voluntários em um protocolo de jejum de 36 a 60 horas (apenas água), para observar como o índice fagocítico se comportava sem ingestão de carboidratos.

O que foi encontrado

1) Açúcares simples reduziram a fagocitose de forma rápida e relevante

Após ingestão de glicose, frutose, sacarose, mel ou suco de laranja, a capacidade dos neutrófilos de engolir bactérias caiu de modo significativo. A queda foi rápida, com os maiores efeitos entre 1 e 2 horas após a ingestão.

Um ponto que costuma ser perdido em resumos de internet: os autores registraram que a redução do índice fagocítico foi estatisticamente semelhante entre os diferentes açúcares testados (ou seja, não foi um “apenas um açúcar” que explicou o fenômeno no conjunto de análises).

2) O efeito ainda estava presente 5 horas depois

Mesmo 5 horas após a ingestão dos açúcares, o índice fagocítico permaneceu significativamente abaixo do valor de jejum (com significância estatística reportada).


A própria Figura 1 sintetiza isso: a linha média dos “açúcares” desce fortemente e segue abaixo do jejum por várias horas.

3) Amido não reproduziu o mesmo padrão

Quando os participantes ingeriram amido, esse alimento não gerou a mesma queda observada com os açúcares simples, e a diferença entre “açúcares” e “amido” ao longo do período pós-ingestão foi destacada como significativa.

4) A explicação mais direta foi “função”, não “quantidade de neutrófilos”

Os autores relataram que a redução do índice fagocítico não se associou de forma significativa ao número de neutrófilos, reforçando a interpretação de que houve alteração na função dessas células, e não simplesmente uma variação de contagem.

5) No jejum de 36 a 60 horas, o índice fagocítico aumentou


No protocolo de jejum, os autores observaram aumento significativo do índice fagocítico ao longo de 36–60 horas. A Figura 3 mostra essa tendência: o índice fagocítico sobe enquanto a glicose se mantém dentro de uma faixa de jejum (sem cair a níveis descritos como incapazes de sustentar o processo).

O que esse estudo permite concluir (e o que ele não permite)

O texto do artigo é cuidadoso ao afirmar que, naquele modelo experimental, a ingestão de 100 g de carboidrato na forma de açúcares simples foi seguida por redução mensurável da fagocitose neutrofílica, enquanto amido não mostrou o mesmo efeito, e jejum prolongado elevou o índice fagocítico.

Ao mesmo tempo, há limites claros, descritos pelo próprio desenho:

  • trata-se de um estudo pequeno, com medidas laboratoriais em curto prazo;
  • o desfecho foi um índice microscópico em condição experimental com Staphylococcus epidermidis, e não taxas reais de infecção em vida cotidiana;
  • a dose usada (100 g de carboidrato) representa um desafio metabólico específico, útil para testar o mecanismo, mas que não descreve automaticamente todas as situações alimentares do dia a dia.

Fonte: https://doi.org/10.1093/ajcn/26.11.1180

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