A frase “o ser humano é apenas 10% humano” circula há décadas em livros, palestras e redes sociais. Ela costuma vir acompanhada de outra simplificação: “existem 10 células bacterianas para cada célula humana”. Quando pesquisadores revisaram, com método e transparência, de onde esses números vieram, o resultado foi mais sóbrio e mais interessante do que o slogan.
De onde veio o “10 para 1” — e por que ele caiu
O número “10:1” ficou popular porque, por muito tempo, estimativas de “quantas bactérias existem no corpo” e “quantas células humanas existem no corpo” eram tratadas como “conhecimento comum”, apesar de se apoiarem em suposições antigas, arredondamentos e referências pouco rastreáveis. Ao integrar dados mais atualizados e refazer contas por categorias de células, Sender, Fuchs e Milo mostraram que a história é diferente: em um adulto de referência (aprox. 70 kg), a estimativa fica na ordem de ~3,8 × 10¹³ bactérias e ~3,0 × 10¹³ células humanas. Em outras palavras, a razão fica próxima de 1:1, e não 10:1. Isso não significa que “as bactérias não importam”; significa que a frase “somos 90% bactérias” não é uma descrição correta em número de células. Referência principal: Sender, Fuchs & Milo (2016), PLOS Biology e resumo em PubMed.
O que essas estimativas realmente medem
A revisão de 2016 não tentou “reduzir” o microbioma. Ela fez algo mais básico: contagem e proporção com base em evidências melhores.
- Células humanas: a maior parte do total vem da linhagem hematopoiética (especialmente glóbulos vermelhos), o que puxa o número para a casa dos dezenas de trilhões. A própria literatura também tem outros esforços de estimativa do total de células humanas, como o trabalho de Bianconi e colaboradores (2013), com valores na mesma ordem de grandeza (dezenas de trilhões). Referência: Bianconi et al. (2013), Annals of Human Biology.
- Bactérias: a maior parte está concentrada no intestino grosso. Por isso, a contagem é sensível a variáveis simples (por exemplo, conteúdo intestinal no momento), o que ajuda a explicar por que estimativas antigas variavam tanto. Referência: texto completo em PubMed Central do artigo de 2016.
O ponto prático é direto: não há base sólida para afirmar que o corpo seja “90% bactéria” quando a métrica é “número de células”. A melhor leitura é que humanos e bactérias coexistem em ordens de grandeza semelhantes, e a razão pode oscilar ao redor de 1:1 dependendo do contexto biológico.
Então é falso dizer que “o ser humano é, em grande parte, microrganismos”?
Depende do que se quer dizer com “grande parte”. Em número de células, a frase “somos principalmente bactérias” não se sustenta. Porém, há um segundo assunto — frequentemente misturado ao primeiro — que é genes e funções.
Células não são a mesma coisa que genes
Mesmo que a razão de células não seja 10:1, o microbioma pode contribuir com uma enorme diversidade genética e metabólica no intestino. Estudos de metagenômica construíram catálogos com milhões de genes microbianos:
- Um marco foi o catálogo de Qin e colaboradores (2010), derivado de amostras fecais de indivíduos europeus, descrevendo milhões de genes microbianos não redundantes. Referência: Qin et al. (2010), Nature e resumo em PubMed.
- Em 2014, Li e colaboradores publicaram um catálogo integrado de genes do microbioma intestinal, combinando coortes e ampliando a cobertura do que se conhece como “repertório” genético microbiano. Referência: Li et al. (2014), Nature Biotechnology e PDF disponibilizado pelos autores/afiliações em EMBL/Bork group.
A mensagem que emerge da literatura é específica: o microbioma não “substitui” o humano, mas amplia as capacidades bioquímicas do ecossistema corpo-hospedeiro em múltiplas vias (fermentação de substratos, produção de metabólitos, interação com mucosa e imunidade), tema explorado e sistematizado por iniciativas como o Human Microbiome Project.
O que projetos como o Human Microbiome Project ajudam a colocar no lugar
O Human Microbiome Project (HMP) foi estruturado para mapear comunidades microbianas em diferentes sítios do corpo e entender variação entre pessoas, com padronização de métodos e geração de grandes bases de dados. A primeira fase do consórcio descreveu diversidade e funções em indivíduos saudáveis, reforçando que há variação importante entre pessoas e entre habitats (intestino, pele, cavidade oral, vagina). Referência: HMP Consortium (2012), Nature e PubMed.
Na segunda fase (iHMP), o foco se ampliou para acompanhar mudanças dinâmicas do microbioma e do hospedeiro em condições específicas (por exemplo, gravidez/parto prematuro, doença inflamatória intestinal e alterações relacionadas a estressores metabólicos). Referência: Integrative HMP (2019), Nature e PubMed. Visão institucional do programa em NIH Common Fund – HMP.
Esses projetos não foram desenhados para sustentar slogans. Eles existem para substituir frases de efeito por descrições mensuráveis: onde vivem microrganismos, como variam, quais funções aparecem com mais frequência e como o microbioma se relaciona com desfechos em contextos bem definidos.
Conclusão: o que fica de pé, com evidência
Ao organizar o que a literatura de melhor qualidade mostra, a conclusão é simples e verificável:
- A ideia de “10 bactérias para cada célula humana” não é sustentada por estimativas modernas de contagem celular; a razão plausível fica próxima de 1:1 em um adulto de referência. (Sender, Fuchs & Milo, 2016)
- A importância do microbioma permanece alta, mas a forma correta de descrevê-la não é “somos 90% bactérias”; é reconhecer que o corpo abriga uma comunidade microbiana numerosa e concentrada principalmente no intestino, com grande diversidade genética e potencial funcional. (Qin et al., 2010; Li et al., 2014)
- O avanço do campo veio de consórcios e programas que padronizaram métodos e produziram dados comparáveis, como o HMP e o iHMP, permitindo substituir mitos por medidas. (HMP Consortium, 2012; iHMP, 2019)
Esse conjunto de evidências não diminui o fascínio do tema; ele apenas o torna mais fiel ao que é observável: o ser humano não é “apenas 10% humano”, mas é, de fato, um sistema biológico profundamente integrado a microrganismos — e a boa ciência começa quando o número deixa de ser slogan e passa a ser cálculo rastreável.
Fonte: https://doi.org/10.1371/journal.pbio.1002533
