No início do século XX, era comum a recomendação médica de evitar grandes volumes de água durante as refeições, com a justificativa de que isso “diluiria” o suco gástrico e atrapalharia a digestão. Os autores destacaram que havia pouca evidência direta em humanos com um experimento controlado para testar essa ideia.
Como o experimento foi conduzido
O trabalho avaliou um único voluntário: um homem de 22 anos, com cerca de 71,7 kg no início. O desenho foi dividido em três fases: uma fase inicial com dieta constante, uma fase de 5 dias com grande aumento de água junto das refeições, e uma fase final para observar possíveis “efeitos após” a retirada dessa água extra.
Dieta e rotina (controle rigoroso)
A dieta foi mantida idêntica em todas as refeições, com quantidades fixas (incluindo leite integral, manteiga, pasta de amendoim, crackers, corn flakes e açúcar), e os autores calcularam a ingestão diária de nitrogênio (um marcador usado para acompanhar metabolismo de proteínas). A urina foi coletada em amostras de 24 horas, e as fezes foram coletadas por períodos, usando carvão para “marcar” a transição entre fases.
O que mudou na fase “água com as refeições”
Na fase experimental, foram adicionados 1.000 cm³ (1 litro) de água em cada refeição, totalizando 3 litros extras por dia durante 5 dias, consumidos ao longo da refeição.
O que eles observaram
1) A urina aumentou muito e ficou mais “diluída”
Durante a fase com água, o volume urinário diário subiu para vários litros, e a gravidade específica (uma medida indireta de concentração) caiu de forma marcada. Isso era esperado pelo aumento importante da ingestão de água.
2) Houve mudanças em marcadores urinários ligados ao metabolismo de proteínas
Os autores relataram:
- Aumento da excreção urinária de nitrogênio logo no início da fase com água (mais evidente no primeiro dia), com variações nos dias seguintes.
- Aumento de amônia na urina durante a fase com água. Eles interpretaram isso como compatível com maior secreção ácida gástrica estimulada pela água, discutindo mecanismos já sugeridos em estudos experimentais citados por eles.
- Redução da creatinina urinária e aparecimento de creatina na urina durante os dias de maior ingestão de água e por poucos dias após a retirada do protocolo, voltando a desaparecer depois. Os autores discutem esse achado em detalhe e deixam claro que, para eles, isso não significou necessariamente “dano”, mas uma alteração metabólica transitória dentro das condições do experimento.
3) As fezes diminuíram, e o nitrogênio fecal também
Na fase com grande ingestão de água com as refeições, os autores observaram:
- Menor quantidade de fezes (inclusive em matéria seca).
- Menor eliminação de nitrogênio pelas fezes. Eles interpretaram isso como sinal de melhor aproveitamento (digestão/absorção) dos componentes proteicos da dieta.
4) Houve redução de bactérias nas fezes nas medições do estudo
A quantificação de “bactérias fecais secas” foi menor na fase com água e caiu ainda mais na fase final, dentro das medições realizadas pelos autores (com limitações operacionais reconhecidas no próprio texto, pois não foi feito em cada evacuação).
5) O peso corporal subiu em poucos dias
Os autores relataram aumento de peso corporal ao longo do período de 5 dias de maior ingestão de água com as refeições, descrito no texto e apresentado em tabela.
Como os autores interpretaram esses resultados
Com base no conjunto de achados (urina, fezes, bactérias fecais, balanço de nitrogênio e peso), os autores concluíram que, nas condições específicas do experimento, beber grandes volumes de água durante as refeições foi acompanhado por diversos efeitos considerados “desejáveis” e por nenhum efeito “indesejável” descrito por eles.
Limitações importantes para o leitor ter em mente
- Foi um estudo com apenas 1 participante, com duração curta e conduzido em 1910.
- Os desfechos são marcadores metabólicos e de excreção (nitrogênio, ureia, amônia, creatinina/creatina, fezes e bactérias fecais), e não resultados clínicos de longo prazo.
- Portanto, qualquer generalização para outras pessoas, dietas e contextos deve ser feita com cautela e sempre com base no desenho do estudo.
