Por que celebramos o Natal em 25 de dezembro?


A Bíblia não informa um dia do calendário para o nascimento de Jesus. Por isso, quando se fala em “25 de dezembro”, o tema real não é uma “certidão de nascimento”, e sim como a Igreja antiga chegou a fixar uma data litúrgica para celebrar a Natividade e quais argumentos históricos e teológicos foram usados ao longo do tempo. (T.C. Schmidt)

Ao mesmo tempo, existe um ruído recorrente: a ideia de que, se havia festas romanas em dezembro, o Natal seria automaticamente “cópia” de culto pagão. O que as melhores fontes permitem dizer é mais sóbrio: há documentos cristãos antigos com 25/12, há registros civis romanos com 25/12, e o vínculo causal entre eles é objeto de debate acadêmico, com hipóteses concorrentes. (Cambridge)

O registro histórico mais antigo e explícito de 25/12 em Roma

Quando a pesquisa procura o “primeiro ponto firme” na documentação, quase sempre começa no Chronograph of 354 (Cronografia de 354), um compêndio romano que preserva materiais de calendário e listas comemorativas. Nele, uma seção associada às comemorações anuais registra:

“VIII kal. Ian. natus Christus in Betleem Iudeae”
Ou seja: “oito dias antes das calendas de janeiro” (25 de dezembro), “Cristo nasceu em Belém da Judeia”. (Tertuliano)

O artigo acadêmico de Thomas C. Schmidt (publicado em Vigiliae Christianae, editora Brill) observa que a referência costuma ser tratada por muitos especialistas como a primeira menção histórica mais antiga ao 25/12 como data do nascimento de Jesus, vinculada ao ambiente romano do século IV. (T.C. Schmidt)

Saturnália: por que ela entra na conversa e por que ela não “cai” no dia 25

A Saturnália é um festival romano importante e barulhento, com inversões sociais, banquetes e presentes. Fontes de referência descrevem que ela começou como celebração em 17 de dezembro e, ao longo do tempo, foi estendida, chegando a durar vários dias (até uma semana em certos períodos). (Encyclopedia Britannica)

Esse dado resolve uma confusão comum: a Saturnália explica o clima festivo do fim de dezembro em Roma, mas não é, por si, uma festa centrada em 25/12. Em outras palavras, ela ajuda a entender o “contexto cultural” de dezembro, mas não funciona como prova direta de que “Natal = Saturnália”. 

Sol Invictus e o “Natalis Invicti” em 25/12

A discussão muda de nível quando aparece o registro de 25 de dezembro como “Natalis Invicti” no calendário civil romano, no mesmo conjunto documental do século IV. Uma leitura tradicional do trecho abreviado “N INVICTI CM XXX” entende o “N” como natalis (natividade/aniversário), “CM” como jogos/corridas ordenadas, e o conjunto como jogos em honra do “Invicto” no dia VIII Kal. Jan. (25/12). (penelope.uchicago.edu)

A interpretação mais difundida associa esse “Invictus” ao Sol Invictus (o “Sol Invencível”), frequentemente conectado ao ambiente religioso do Império Romano tardio. A fonte da Universidade de Chicago (Encyclopaedia Romana) descreve justamente esse ponto: no calendário de 354, 25/12 aparece anotado como “N INVICTI…”, e, em outra seção, 25/12 abre o ano litúrgico com “natus Christus…”.

Aqui, o cuidado metodológico é decisivo: o fato de existirem duas marcações no mesmo dia (uma civil e outra cristã) é indiscutível nas fontes citadas; já a explicação sobre “quem influenciou quem” não é uma conclusão automática — é o terreno das hipóteses históricas e cronológicas. (Cambridge)

A “teoria do cálculo”: quando 25/12 nasce de dentro do próprio pensamento cristão

A pesquisa moderna costuma organizar o debate em duas grandes abordagens: a “History of Religions Theory” (ênfase no contexto romano e possíveis influências inter-religiosas) e a “Calculation Theory” (ênfase em cálculos cronológicos cristãos antigos). Uma revisão acadêmica de referência, publicada em Church History, explica esse quadro e defende a necessidade de uma leitura mais nuançada, que leve a sério tanto a influência cultural quanto o papel do pensamento cronológico cristão primitivo. (Cambridge)

A simetria providencial: concepção e morte no mesmo dia

Dentro dessa tradição de “cálculo”, aparece a ideia de que uma vida perfeita teria simetria, e que figuras excepcionalmente santas seriam concebidas e morreriam no mesmo dia do calendário. Isso se conecta ao modo como autores cristãos antigos relacionaram a concepção de Cristo à data da Paixão.

Um testemunho clássico é Santo Agostinho, em De Trinitate (Sobre a Trindade), ao afirmar que Cristo “é crido” ter sido concebido em 25 de março, “no mesmo dia” em que sofreu, e que, “segundo a tradição”, nasceu em 25 de dezembro. (logoslibrary.org)

Esse trecho é importante porque mostra que, na tradição cristã antiga, o 25/12 podia ser defendido não como “cópia de festival”, mas como desdobramento de uma cronologia teológica: 25/03 (concepção/Paixão) → nove meses → 25/12 (nascimento).

Hipólito de Roma: por que o nome dele pesa na discussão do 25/12

A questão “Hipólito de Roma” leva o 25/12 para uma camada ainda mais antiga do cristianismo (século III). O estudo revisado por pares de Thomas C. Schmidt argumenta que, por volta de c. 235 d.C., Hipólito teria colocado o nascimento de Jesus em 25 de dezembro, relacionando o tema a cálculos cronológicos em obras atribuídas a ele (o Canon e o Chronicon). (T.C. Schmidt)

O mérito central desse tipo de pesquisa não é “resolver a data” como se fosse um fato civil, mas mostrar que já havia, muito cedo, um esforço cristão interno de computação do tempo (criação do mundo, Paixão, concepção, nascimento), no qual o 25/12 aparece como resultado coerente dentro do sistema proposto.

Gabriel, o “sexto mês” de Isabel e a tentativa de datar a partir do serviço de Zacarias no Templo

Outra linha, muito popular, sai do plano “tradição litúrgica” e entrar no plano “cronologia bíblica”.

O Evangelho de Lucas afirma que o anjo Gabriel informa a Maria que sua parenta Isabel está no sexto mês de gestação (Lc 1:36). (bible.com)

No mesmo capítulo, Lucas diz que Zacarias, pai de João Batista, era sacerdote “da divisão de Abias/Abijah” (Lc 1:5). (bible.com)

E 1 Crônicas lista Abias como a oitava das turmas sacerdotais (1 Cr 24:10). (bible.com)

A partir desses elementos, alguns estudos tentam reconstruir em que época do ano Zacarias estaria servindo no Templo, para então estimar concepção e nascimento de João Batista, e, seis meses depois, o nascimento de Jesus. Existe literatura acadêmica que trata dessa abordagem; por exemplo, o catálogo da Biblioteca Nacional de Israel registra o artigo de Roger T. Beckwith sobre Lucas e os turnos sacerdotais em Qumran. (nli.org.il)

O limite desse método é que ele depende de premissas complexas (calendários, rotações semanais, semanas festivas em que mais sacerdotes serviam, e reconstruções históricas). Assim, ele ajuda a entender por que o assunto é “calculável” para alguns autores, mas não produz um consenso simples e universal sobre um dia exato.

O que as evidências permitem concluir

Com base em fontes antigas e em literatura acadêmica revisada por pares, o quadro mais sólido é este:

  • 25 de dezembro aparece de forma clara na documentação cristã romana do século IV, no conjunto associado à Cronografia de 354. (Tertuliano)
  • Saturnália explica o ambiente festivo de dezembro, mas não é uma festa “do dia 25” e não basta para reduzir o Natal a “Saturnália rebatizada”. (Encyclopedia Britannica)
  • Sol Invictus / Natalis Invicti aparece como marcação civil em 25/12 no mesmo universo documental, o que alimenta debates sobre influência cultural; porém, a explicação definitiva exige nuance e não pode ser reduzida a slogan. (penelope.uchicago.edu)
  • A tradição de simetria providencial (concepção e morte no mesmo dia) e o encadeamento 25/03 → 25/12 são explicitamente testemunhados em Agostinho como “tradição” e se encaixam na chamada “teoria do cálculo”. (logoslibrary.org)
  • Hipólito de Roma é peça importante porque a pesquisa contemporânea identifica nele (ou na tradição textual ligada a ele) um modo antigo de computar a data que favorece o 25/12, reforçando que a cronologia cristã primitiva também teve papel na fixação da festa. (T.C. Schmidt)

Para quem quer entender “como realmente aconteceu”, o resultado prático é: 25 de dezembro se sustenta como uma data litúrgica antiga no Ocidente, documentada e defendida por caminhos internos do pensamento cristão, ao mesmo tempo em que existia um ambiente romano que também investia significado em dezembro. A história, aqui, não exige escolher caricaturas; ela pede que as fontes sejam lidas com precisão.

Mesmo que a história não permita fixar com precisão absoluta o “dia civil” do nascimento de Jesus, a tradição cristã antiga organizou a celebração em 25 de dezembro por caminhos coerentes e documentáveis — e isso é suficiente para entender que o Natal não é um jogo de coincidências de calendário, mas um ato de fé com conteúdo próprio. Quando surgem escrúpulos sobre festas antigas do mundo romano, o critério mais prudente continua sendo distinguir data de culto: o que define a celebração é o que se faz e se professa nela, não o que outras culturas fizeram no mesmo dia; e, se houver risco de confusão pública, vale a orientação de agir com clareza e caridade, evitando alimentar a consciência alheia com interpretações erradas. Assim, celebrar “de forma adequada” significa recentrar o Natal no seu significado: a Encarnação, a gratidão, a vida familiar, a oração e a prática concreta do bem — sem transformar o calendário em motivo de ansiedade, e sim em oportunidade de viver, com serenidade, o sentido cristão da data.

Feliz Natal!


Postagem Anterior Próxima Postagem
Rating: 5 Postado por: