Ao abrir A Manual of Diet in Health and Disease, o leitor encontra um texto médico do século XIX escrito por Thomas King Chambers, voltado a orientar a alimentação na saúde e em doenças específicas. Não é um “livro de receitas”: é um manual clínico, organizado por capítulos de dietética geral e, depois, por condições médicas em que a alimentação poderia mudar o curso dos sintomas e das complicações. A edição histórica do livro pode ser consultada em acervos digitais como o Google Books.
No trecho dedicado a doenças urinárias, Chambers reúne no mesmo capítulo “gravel/stone” (cálculos), albuminúria e diabetes, refletindo o modo como a medicina da época agrupava problemas metabólicos e renais pelo que aparecia no exame de urina. É ali que o texto fica particularmente claro: no diabetes, a alimentação era o eixo prático para prolongar a vida e reduzir intercorrências, num período anterior à descoberta da insulina.
Onde Bouchardat entra — e por que isso importa
Chambers cita “M. Bouchardat, Professor of Hygiene at the University of Paris” e o apresenta como autoridade central ao discutir diabetes. No texto, ele afirma de forma direta que, no diabetes, a vida é prolongada e o risco de doenças intercurrentes é reduzido quando se adota uma dieta que exclui açúcar e itens que “formam açúcar”, na medida do possível. Em seguida, ele recorre a Bouchardat para listar, com foco químico, quais alimentos seriam problemáticos e quais seriam permitidos.
Essa ênfase de Bouchardat em dieta como manejo do diabetes aparece também em revisões históricas modernas: ele é frequentemente descrito como um pioneiro da diabetologia, com destaque para recomendações dietéticas e educação do paciente.
O recorte alimentar em diabetes, com foco em alimentos de origem animal
A parte mais objetiva do manual é quando Chambers, apoiando-se em Bouchardat, descreve o que deveria ser evitado e o que poderia compor a dieta. Para quem busca entender o papel dos alimentos de origem animal nesse contexto, três pontos se destacam.
1) A lógica central: remover açúcar e fontes “açucarígenas”
O manual descreve a estratégia como exclusão de açúcar e de alimentos que, pela composição, tenderiam a gerar açúcar no organismo (no entendimento da época). Entre os exemplos listados por Chambers via Bouchardat aparecem itens como açúcar, pães e massas, grãos ricos em amido (como arroz e milho), tubérculos (como batata) e bebidas adoçadas. Essa é a moldura do capítulo: reduzir ao máximo o que “vira açúcar” e, então, montar o restante da alimentação com itens permitidos.
2) O núcleo “sem medo”: carnes e outros alimentos animais
Depois da lista de restrições, Chambers registra que a lista de itens permitidos é maior e inicia com uma frase-chave: o diabético poderia comer “meat of all kinds” (carne de vários tipos), preparada de modos comuns (cozida, assada, grelhada). Na sequência imediata do trecho, ele inclui peixes, frutos do mar, ovos, além de creme e queijos — ou seja, um conjunto de alimentos animais usados como base prática quando se retiravam açúcar e amidos.
O que esse capítulo mostra
A força do trecho não está em “antecipar dietas modernas” com rótulos atuais, mas em documentar um fato histórico: antes das terapias hormonais, alguns clínicos já haviam observado que a alimentação mudava o curso do diabetes, e que reduzir açúcar e amidos abria espaço para uma dieta em que carnes, peixes, ovos e laticínios viravam o centro da mesa.
Ao mesmo tempo, o texto também expõe os limites de sua época: a justificativa é “química” e clínica, mas não é uma medicina baseada em ensaios como se exige hoje. Ainda assim, como fotografia histórica, o capítulo é valioso porque registra o raciocínio prático: prolongar a vida e reduzir complicações começava pelo prato — e Bouchardat é apresentado como referência essencial nessa abordagem.
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