Durante décadas, campanhas de nutrição e saúde pública ao redor do mundo repetem uma recomendação simples: “comer o prato colorido”, também chamada de “arco-íris alimentar”. A lógica é direta: quanto mais cores e grupos diferentes de alimentos estiverem no prato, mais nutrientes a pessoa terá acesso, e melhor será sua saúde.
Mas será que essa máxima, repetida quase como um mantra, se confirma quando analisada de forma científica? Um estudo recente realizado na República de Palau, publicado no periódico BMJ Nutrition, Prevention & Health, traz elementos importantes para questionar essa visão. O trabalho investigou a relação entre diversidade alimentar, índice de massa corporal (IMC) e saúde percebida em adultos palauanos. Os resultados chamam atenção: a simples soma de alimentos na dieta não mostrou ligação com melhor saúde.
O cenário de Palau
Palau é um arquipélago no Pacífico com forte tradição alimentar baseada em peixes, tubérculos e frutas locais. Entretanto, nas últimas décadas, como em outros países insulares, ocorreu uma transição nutricional marcada por maior dependência de alimentos importados e processados. Essa mudança está associada a altas taxas de obesidade e doenças crônicas não transmissíveis (DCNT), como diabetes e hipertensão.
É nesse contexto que surge a importância de entender se a diversidade alimentar — muitas vezes vista como sinônimo de qualidade — realmente se traduz em benefícios de saúde para a população.
O que os autores fizeram
- Desenho: inquérito transversal por entrevistas porta a porta entre agosto e dezembro de 2023, abrangendo áreas urbanas e rurais.
- Amostra: 263 adultos palauanos (≥18 anos).
- Medidas: peso aferido; altura autorreferida; saúde percebida (item padrão recomendado por OMS/UE); e diversidade alimentar pelo FDSK-11 (Food Diversity Score Kyoto), modificado para distinguir peixes e carnes frescos dos processados — relevante num ambiente com alto consumo de enlatados e curados.
- Análise: regressões múltiplas/logísticas ajustadas por idade, sexo, estado civil, escolaridade e ocupação; imputação múltipla para dados ausentes.
Principais resultados
- Diversidade alimentar: escore FDSK-11 variou de 3 a 11 (média 9,0), sem diferença entre urbano e rural.
- Perfil de consumo: no meio rural houve maior consumo diário de tubérculos, peixe fresco, carne processada e frutas; em áreas urbanas, ovos e laticínios foram mais comuns (tendência, nem sempre significativa).
- Estado de saúde: 58,8% foram classificados com obesidade e 57,1% avaliaram sua saúde como ruim; não houve diferenças relevantes entre urbano e rural nesses desfechos.
- Associações com IMC: o escore de diversidade não se associou ao IMC. No rural, maior consumo de frutas associou-se a IMC mais baixo (β≈-3,64; p<0,01).
- Associações com saúde percebida: a diversidade total também não se associou à saúde percebida. Porém, no rural o consumo de tubérculos associou-se a melhor saúde percebida (OR ajustado≈5,81). No urbano, peixe fresco, peixe processado, laticínios e vegetais associaram-se a melhor saúde percebida.
Como interpretar
O achado central é contraintuitivo frente a discursos genéricos: ter “mais itens” na dieta não garantiu melhor IMC nem melhor saúde percebida. Dois pontos ajudam a entender:
- Uniformidade do ambiente alimentar. A ampla dependência de importados e a urbanização de costumes parecem homogeneizar padrões alimentares em Palau, reduzindo diferenças entre regiões e diluindo o poder explicativo de um escore agregador como o FDSK-11.
- Qualidade e relevância cultural dos alimentos específicos. A análise por itens revelou associações coerentes com literatura: frutas no rural ligadas a IMC menor; tubérculos tradicionais (taro, pão-de-fruta, mandioca, batata-doce) associados a melhor saúde percebida; e, no urbano, peixes (inclusive processados), laticínios e vegetais vinculados a melhor percepção de saúde. Esses achados sugerem que “o que” se come — especialmente alimentos minimamente processados, locais e culturalmente valorizados — importa mais do que “quantos grupos” se consome.
Implicações práticas e de política pública
- Priorizar alimentos locais e minimamente processados: reforçar o acesso a peixes, tubérculos e frutas tradicionais pode ser mais efetivo do que prescrever “mais diversidade” de forma abstrata.
- Revitalizar sistemas alimentares tradicionais: hortas comunitárias, pesca artesanal e cadeias curtas podem reduzir a dependência de importados e melhorar a segurança alimentar.
- Comunicação em saúde: mensagens públicas devem considerar valores culturais e percepções locais de corpo e bem-estar, reconhecendo que IMC elevado nem sempre é percebido como problema em alguns contextos do Pacífico — o que demanda educação sensível à cultura.
Forças e limitações reconhecidas pelos autores
- Forças: amostra nacional de adultos palauanos, instrumento validado (FDSK-11) adaptado à realidade local (distinção entre fresco e processado), análises com ajustes sociodemográficos e imputação múltipla.
- Limitações: altura autorreferida e recordatório simplificado (FDSK-11 não capta porções/densidade nutricional); tamanho amostral; e possível viés de disponibilidade de respondentes no domicílio. Tais fatores podem subestimar ou superestimar algumas relações.
Mensagem final baseada nas evidências
Em adultos de Palau, diversidade alimentar alta por si só não se associou a melhor IMC nem a melhor saúde percebida. O que emergiu como mais relevante foi o padrão de alimentos específicos — sobretudo frutas, tubérculos e peixes (e, em urbano, também laticínios e vegetais) — alinhados à cultura e à disponibilidade local. Políticas que valorizem a matriz alimentar tradicional, com foco em qualidade e pertinência cultural, têm maior probabilidade de impactar DCNT do que metas genéricas de “comer de tudo um pouco”.
Fonte: https://doi.org/10.1136/bmjnph-2025-001225
